O (devido) lugar da estatística no futebol

Entre o desprezo relativo ou mesmo completo da estatística aos excessos ocorridos no Liverpool no início da década vai uma distância, também ela, mensurável em sucesso.

Análise Estatística. As palavras soam tudo menos interessantes, seja no momento de analisarmos o curriculum de cadeiras de um curso universitário que iniciamos seja mais tarde, já em plena vida activa, no decurso de um projecto profissional.

No desporto estas palavras assumem um carácter um pouco menos “cinzento”, ainda que em apenas alguns desportos e culturas. Nos Estados Unidos, por exemplo, a estatística inscreve-se de forma incontornável e vertical na cultura desportiva, desde a conversa de bar acerca das NBA finals em curso, passando pela dimensão e profundidade analítica aplicada às populares fantasy leagues, a que nem Obama escapa, e terminando na análise, em gabinete fechado, dos potenciais reforços ex-universitários a atacar no próximo draft da NFL. Pelo caminho a estatística dissemina-se na forma de pensar o desporto colectivo.  Em 2011 o filme “Moneyball”, baseado no livro do mesmo nome da autoria de Michael Lewis, assumiu-se talvez como o maior veículo pop culture de propaganda à importância da estatística no desporto americano, em particular ao conceito sabermetrics. O filme foi nomeado para seis óscares ao emoldurar, como apenas em Hollywood se sabe fazer, o impacto que a estatística pode ter no sucesso desportivo em geral e no basebol profissional em particular. Mas já desde o sucesso real que o filme ficciona que havia quem projectasse aplicar a mesma “fórmula” ao futebol. O sucesso ou insucesso dessa iniciativa ficaria mais claro uns anos depois.

No futebol, sobretudo no que é praticado para lá das fronteiras dos EUA, a estatística não tem o mesmo peso ou importância que é atribuído nos desportos colectivos mais populares por aquelas bandas. Apesar de sempre presentes são poucas e clássicas as métricas acompanhadas e discutidas, entre adeptos, media e profissionais do futebol. Se em boa parte isso se explica por razões culturais ligadas à história do futebol e à falta, até recentemente, de soluções de medição completas e transversais, existem também outras razões que explicam o porquê de, no futebol, não haver um tão grande espaço para a produção, discussão e análise aprofundada de indicadores de performance.

Um dos problemas da estatística é o de, quando disponível e bem trabalhada, dar lugar a uma quantidade de informação inversamente proporcional à capacidade de identificarmos o que realmente interessa. É também por isso, ainda que metaforicamente, que me fico por aqui no que toca ao tema, para regressar ao mesmo muito em breve, para não só analisar o que sucedeu aquando da aplicação do conceito sabermetrics na Premier League, como também tentar descobrir o verdadeiro lugar da estatística no maior desporto do mundo: o futebol.