O estado da formação em Portugal

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A formação em Portugal no seu geral tem vindo a melhorar significativamente. A inclusão de equipas B e algumas regras quanto ao limite de estrangeiros na formação são passos muito importantes para a promoção e desenvolvimento do jogador português.

Hoje em dia, ao observar-se os jogos dos diversos escalões, por exemplo de iniciados a juniores, observamos que não são só as equipas “grandes” que contêm matéria-prima de qualidade. Clubes como Belenenses, Oeiras, Sacavenense ou até mesmo Lusitano de Évora, entre outros, têm vindo a trabalhar de forma muito organizada e forte na formação do talento luso. Todo este trabalho passa pela criação de gabinetes de scouting, onde se faz a análise de potenciais jogadores a contratar, mas também pela análise do rendimento dos jogadores do clube ou até pelo acompanhamento dos que já sairam e prosseguiram a sua evolução noutro clube.

Olhando mais atentamente para SL Benfica, FC Porto e Sporting CP, a análise é algo distinta. O Benfica, actualmente, tem na sua formação uma geração incrível em termos de qualidade técnica, táctica e mental. Tem vindo a sobrepor-se cada vez mais ao Sporting a nível do recrutamento de jogadores, pois enquanto os “leões” chegam, em diversos momentos, a não ter nenhum scouter – ou “olheiro”, como são conhecidos – em alguns jogos na região de Lisboa/Setúbal, os “encarnados” chegam a ter dois e três para o mesmo jogo. Outro aspecto importante é a renumeração: a utilização de observadores graciosos, assim como o pagamento a horas aos scouters é outro peso relevante na balança da hegemonia no sector. O FC Porto tem uma estrutura muito bem organizada e bem espalhada por todo o país, mas podemos, por exemplo, ver cada vez mais clubes como o Vit. Guimarães e o Rio Ave a intrometerem-se nesta luta de titãs.

Porém existe um grande problema nestes emblemas hoje em dia. Os “encarnados”, a nível de quantidade de jogadores com qualidade, não se podem queixar, mas o desaproveitamento dos mesmos na equipa principal é vísivel a qualquer pessoa. Será que compensa gastar tanto em contratações quando se tem um Bernardo Silva, um João Cancelo ou mesmo um João Teixeira com qualidade e potencial para integrarem o plantel principal?

E será que no Sporting é necessário contratações e renovações para a equipa B como Enoh, Fokobo, Dramé, Sambinha, Ryan Gauld ou até mesmo Matias Pérez? Não terão João Palhinha, Iuri Medeiros ou Gelson Martins qualidades suficientes para serem desenvolvidas pelos “leões”? Ao analisar os resultados dos escalões do emblema de Alvalade, vemos que algo de grave se passa, e que o que foi outrora um dominio inquestionável na formação portuguesa começa a desaparecer. Demasiados estrangeiros e jogadores sem o acompanhamento devido podem ser parte do problema, algo que pode ainda a ser corrigido e recuperado em dois/três ano com algum trabalho.

A grande aposta do FC Porto chama-se Rúben Neves, mas Tomás Podtawski e, por exemplo, André Silva demonstraram também excelentes indicações. No Olival há uma aposta na formação, mas pouco significativa, e estes jovens portistas podiam certamente estar a ganhar rodagem num clube de Primeira Liga de forma a tentarem, num futuro próximo, entrar na equipa principal.

Para concluir gostava de enaltecer ainda o hérculeo trabalho feito por Rui Jorge, que tem tido uma proximidade incrível com os clubes e equipas B, alargando bastante a base de dados existente no que toca aos jogadores seleccionáveis. William Carvalho, Raphael Guerreiro são apenas dois exemplos do belo trabalho deste formador.

Seria interessante para a federação portuguesa limitar ainda mais o número de estrangeiros a a actuar nas Ligas inferiores e escalões de formação, pois só assim os nossos jovens podem ter as oportunidades e minutos que necessitam para continuar a sua evolução, ao invés de estagnar.

Um exemplo a seguir é o da federação alemã, que tem conseguido, através de um trabalho longo ,mas bem delineado, vários títulos na formação e equipa sénior, mas mais importante que isso é ver a aposta, sem medo, nos “benjamins”, que começa a dar frutos: Timo Werner, Jonathan Tah, David Selke, etc… Tudo jogadores de enorme qualidade que acumulam minutos pelas suas equipas na Bundesliga.

Em Portugal existe muitas pérolas por descobrir na Segunda Liga, CNS ou mesmo Distritais. Jogadores mal aproveitados, escondidos à espera da oportunidade de uma vida para vencer nesta díficil carreira que é a de jogador profissional de futebol.