O fabuloso destino de José Sá nos “lobos” de Lage 🐺

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No defeso, José Mourinho rumou à Roma e, consigo, levou o guarda-redes português do Wolverhampton, Rui Patrício, que terminou assim uma passagem de sucesso de três temporadas pelos “lobos”, sempre orientado por Nuno Espírito Santo. Bruno Lage chegou para substituir NES, mantendo uma equipa técnica lusa, e o mesmo aconteceu na baliza. Saiu Patrício, chegou José Sá, o ex-FC Porto que, durante três temporadas, jogou no Olympiacos. Os ingleses pagaram €8M pelo guardião e, após um início de dúvida, pela tarefa difícil de substituir Rui Patrício, a Premier League rendeu-se a Sá, que está a fazer uma época de grande nível. Não acredita? Então venha connosco.

Nada melhor que começar um artigo a elogiar a segurança de um guarda-redes do que ao colo de um nulo ante um dos candidatos ao título e actual campeão europeu, o Chelsea. Aliás, os “tubarões” da Premier League têm tido vida difícil com os Wolves de Lage, como o Liverpool, que só ganhou por 1-0 no Molineux, e ao cair do pano, ou o Manchester City, que venceu em casa por magro 1-0. E nesta partida, Sá foi o “gigante” que prometemos na abertura desta análise.

O português só não foi MVP porque houve outro lusitano, João Cancelo, a arrecadar tal distinção, mas José Sá esteve quase intransponível, só não evitando o tento dos “citizens” apontado aos 66 minutos por Sterling, e teve de ser de grande penalidade. No final o registo extraordinário de oito defesas, seis a remates na sua grande área, três a disparos de muito perto, valeram-lhe um GoalPoint Rating de 8.1. Mas pergunta o GoalPointer… isto justifica tanto o alarido? Há mais.

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O Wolves é, nesta altura da época, a terceira defesa menos batida da Premier League. Leu bem, a equipa de Lage só sofreu 14 golos, sendo ultrapassada na solidez somente pelo líder Manchester City (9) e pelo Chelsea (12), e José Sá tem sido um dos responsáveis. São já sete as “clean sheets” do emblema das West Midlands, com cunho de Sá. O guardião travou 80,3% dos remates enquadrados que teve de enfrentar, o registo mais alto entre jogadores com pelo menos 765 minutos de utilização, logo à frente de nomes em destaque como Aaron Ramsdale (79,1%), do Arsenal, Edouard Mendy (78,9%), do Chelsea, ou o ex-benfiquista Ederson (73,5%), do Manchester City. E o mesmo acontece com a percentagem de defesas a remates na área enquadrados, que atinge os 78,2%.

[ Os remates permitidos pelo Wolves, a azul os enquadrados defendidos por Sá, a amarelo os 14 golos sofridos ]

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O português é também, nesta altura, o guardião com melhor saldo positivo de defesas em relação aos golos esperados do adversário (Expected Goals), com nada menos do que 4,6 golos “estatisticamente certos” evitados . O português tem também a segunda maior percentagem de golos evitados da Liga inglesa, 8,8%, atrás apenas dos 9,6% de Mendy, do Chelsea. Números que explicam os elogios que o português tem recolhido nesta primeira metade da época de estreia na Premiership.

O Wolves não ficou a perder

Talvez seja redutor olharmos para estes meses de José Sá no Wolverhampton e concluir que o emblema inglês ficou a ganhar com a “troca” Patrício-Sá. O primeiro teve um impacto muito positivo dos “lobos”, marcou um período e o comparativo acaba por ser algo injusto, pois nem os treinadores, nem a realidade táctica ou o momento colectivo são os mesmos. O Wolves está no topo superior da tabela e a dar continuidade ao trabalho anterior, mas há estatísticas superiores de Sá que sustentam o acerto da contratação.

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Não serão, certamente, muitos os guarda-redes que se podem gabar de manter consistentemente com um rating acumulado superior a 6.0 durante tanto tempo. O português apresenta nesta altura o terceiro melhor rating da Premier League, entre guardiões, e para já o realce vai mesmo para os 80,3% de remates enquadrados defendidos, em comparação com os 66% de Patrício na época passada, a última deste em Inglaterra. Para que se perceba melhor o valor deste desempenho deixamos esta nota: na menos exigente Liga portuguesa apenas António Adán (Sporting CP) trava mais de 80% ou mais remates enquadrados do adversário, entre os guardiões dos três “grandes”.

A superioridade estatística do actual “lobo” vê-se ainda na média de defesas por 90 minutos (3,2 contra 2,7), na percentagem de remates na área enquadrados defendidos (78,2% para 58,6%) e na maior quantidade de saídas a soco (04 – 0,1), saídas a cruzamentos (1,7 – 0,7) e saídas pelo solo (0,8 – 0,1), prova que se sente muito bem fora da baliza. Mas também na menor média de golos sofridos (0,8 – 1,4) e maior percentagem de golos evitados tendo em conta as defesas na relação com os xG – os tais 8,8% contra 2,3% negativos de Patrício.

A carreira de José Sá no FC Porto foi pautada por altos e baixos. O português chegou a atirar Iker Casillas para o banco, mas acabou por “cair em desgraça” e rumar a outras paragens. Agora, em Inglaterra, uma coisa é certa: com a “troca” pelo menos o Wolves não ficou a perder.

Pedro Tudela
Pedro Tudela
Profissional freelancer com mais de duas décadas de carreira no jornalismo desportivo, colaborou, entre outros media nacionais, com A Bola e o UEFA.com.