A Liga regulamentou recentemente uma questão que motiva há muito discussão no futebol português: os empréstimos entre clubes do mesmo escalão e as condições em que podem (ou não) ser utilizados na Liga NOS.

Os clubes acabaram por tomar a decisão mais sensata (ainda que não necessariamente perfeita) ao limitarem a três o número de jogadores que podem ser emprestados a clubes concorrentes na prova máxima do calendário nacional, ao mesmo tempo que proíbem a utilização desses jogadores em partidas em que participem os clubes beneficiários e os seus emblemas originários.

Com esta decisão termina (ou pelo menos acalma) um longo processo de discussão pública, ora marcado pela crítica sustentada e construtiva, ora pelo “choradinho” e suspeita generalizada. Numa decisão democrática evitam-se assim “cãibras”, sinusites e crises de reumático fulminantes (e pouco dignificantes para os envolvidos e competição) em vésperas de jogo. Mas não se resolvem todos os problemas.

Num futebol tremendamente desequilibrado, com clubes a mais em ambos os escalões profissionais (um tema que também foi alvo de decisão por parte dos clubes, com cinco equipas a descerem da segunda Liga em 2015/16, com o objectivo de iniciar em 2016/17 uma prova com apenas 22 clubes em vez dos actuais 24), os clubes “fornecedores” continuarão a deter o poder de influenciar o destino competitivo dos mais “pequenos”, desprovidos de capacidade financeira para outros voos e excessivamente dependentes da qualidade que dois ou três destes emprestados podem garantir. Esse poder continuará a existir e a sua diluição não decorre de regulamentação, mas sim do equilíbrio financeiro do futebol nacional.

Ao contrário de outras Ligas, em Portugal cabe quase sempre ao clube “grande” continuar a suportar o salário do jogador que cede, total ou parcialmente. Este é um sinal claro da fragilidade económica e competitiva do nosso futebol e que apenas poderia resultar na decisão agora tomada, que apenas peca por tardia (a regulamentação agora defunta vigorava há uma década, apesar da polémica).

No entanto, casos como os ocorridos do Deyverson e Miguel Rosa não ficam resolvidos com esta alteração regulmentar. Jogadores “prometidos” ou condicionados por cláusulas contratuais nem sempre conhecidas publicamente (o direito de opção, o direito de recompra, o direito a x% da mais-valia futura) continuarão a motivar especulação e situações que não irão agradar a todos, num futebol que mais do que de “bons” e “maus” é sobretudo de “vagamente remediados” e “extremamente pobres”.

Discutir este tema numa lógica de “certo ou errado”, de o “meu clube age melhor do que o teu” representa o tradicional desperdício de tempo (e de neurónios) habitual num futebol excessivamente clubístico como o nosso. Olhar as causas (e agir sobre elas) pelas quais os clubes são tão frágeis financeiramente que se tenham de submeter a estas lógicas por mera questão de sobrevivência, é possivelmente um caminho mais adequado caso queiramos construir, na próxima década,  um futebol mais saudável.

Resta saber se uma Liga mais equilibrada, competitiva e independente interessa a todos, à maioria ou se continua a ser, como tem sido, um sonho de meia dúzia de “hipsters da bola” nos quais, sem bigode, me incluo.