O futebol da nossa paixão

Nascido em 1975, as primeiras memórias que tenho do futebol passam pelas bancadas do velho Alvalade, brincando com carrinhos e apanhando verdadeiros “cagaços” a cada grito de golo. O hábito familiar de “ir à bola” aos domingos tem registo fotográfico na minha memória, com a imagem da camisola verde e calções e meias negros de Vitor Damas, que conseguia vislumbrar, a custo, esticando os pés no cimento da bancada e espreitando por cima das costas do meu avô materno.

Em 1982 a memória é sobretudo animada. Apercebia-me já da importância do Campeonato do Mundo, tendo memória da reunião de familiares e amigos à minha volta, em redor do velhinho televisor, com as garrafas de “Sagres” e “Laranjina C” em cima da mesa da sala. O meu interesse focava-se sobretudo nos minutos que antecediam a transmissão dos jogos, pois era nesse momento que transmitiam as aventuras da mascote mais bem conseguida no mundo do futebol, o mítico “naranjito”. E se 1986 já me reserva memórias mais claras do porquê de considerar Diego Armando Maradona o maior jogador de todos os tempos, ideia que não alterei mesmo após a curiosidade me levar às mais distantes datas que os registos do futebol me permitiram, foi em 1988 que realmente me apaixonei pelo futebol, para lá do amor clubístico que vinha de nascença.

 

Van Basten marca um golo inesquecível na final do Euro 1988 (foto: CC / Eredivisphera)
Van Basten marca um golo inesquecível na final do Euro 1988 (foto: CC / Eredivisphera)

Aliás foi precisamente por essa altura que percebi a diferença entre amor e paixão, ao questionar a minha mãe e receber em troca a explicação metafórica que mais facilmente permitiu perceber a diferença entre os dois conceitos. Disse-me ela com palavras que nunca esqueci: – amor é o que tens ao Sporting, ganhe ou perca, porte-se bem ou mal, gostarás sempre dele. Paixão é o que sentes pela Holanda e AC Milan (na altura devido à minha predilecção pelo futebol de Gullit, van Basten e Rijkaard). Os anos foram passando e as palavras fizeram sempre sentido, no futebol e fora dele.

Ao longo dos anos fui-me cruzando com diversas paixões. O Borussia Dortmund do agora retirado Ottmar Hitzfeld, que muito antes de Klopp já havia levado o clube alemão à glória europeia (aquele golo de Ricken), o Barcelona de Robson de 1996-97, com Figo, Ronaldo e cia, o Manchester United de Alex Ferguson, sobretudo aquela campanha europeia épica com aquele 442 clássico que foi deixando pelo caminho Juventus e Internazionale, culminando com a vitória perante a equipa que não havia conseguido vencer na fase de grupos, o Bayern de Munique (na altura do já referido Hitzfeld); e tantas outras equipas e selecções que pelo brilhantismo individual dos seus integrantes ou por outros factores emocionais nos prendem e emocionam. Pelo caminho descobri paixões que nunca vi, ao esgravatar os compêndios do futebol, como o Brasil de 1982 e o de 1970 e a Hungria dos anos 50.

Os pés nunca acompanharam no entanto esta paixão. Existisse neles réstia de talento e mesmo assim nunca seria mais do que um Gennaro Gattuso, na melhor das hipóteses. Mas que isso nunca nos impeça de compreender e estudar aquilo que amamos.

Em Portugal fica-nos a ideia que vivemos mais o amor apenas pelos clubes do que pelo futebol. Mas sem que para tal tenhamos de deixar de seguir os nossos clubes de forma mais ou menos apaixonada há também um espaço para descobrir o futebol que existe para lá das nossas cores.

As paixões vão passando. Há que saber aproveitá-las, vivê-las e extrair delas o que de melhor nos podem dar e o que de melhor em nós podem fazer surgir, neste caso a curiosidade por descobrir e aprender sempre mais sobre futebol. Mas para lá das paixões existe sempre o amor. O amor pelo futebol durará, não tenho dúvidas, para sempre. O GoalPoint é mais uma forma de o viver, de o estudar e de o procurar conhecer melhor. E se alguém que me leu até agora descobre, por estes dias, esse amor ou procura redescobri-lo, que este texto e este projecto sirva para que não haja dúvidas de que vale a pena, ver, compreender, desfrutar e gostar de futebol.