O lugar da estatística no futebol: O “caso Liverpool”

Como referido no primeiro artigo sobre o (devido) lugar da estatística, em 2010 o grupo Fenway chegou ao Liverpool para aplicar o conceito “sabermetrics” .O que aconteceu?

No final de 2010 o grupo norte-americano Fenway Sports Group assumia o comando do Liverpool FC e consigo trazia, ao mesmo tempo, uma receita e um desafio: atingir o sucesso no futebol através da implementação do conceito “sabermetrics” (cujo sucesso protagonizado por Billy Beane nos Oakland Athletics deu origem ao já referido filme e livro “Moneyball”). A receita já tinha aliás resultado nos Boston Red Sox, uma das maiores franchises de basebol americano, também ela detida pelo grupo.

Como funcionaria então o conceito sabermetrics aplicado ao futebol? Resumindo o conceito, o grupo tencionava optimizar a política de aquisições e construção do plantel tendo por base um estudo estatístico sem paralelo até então no futebol profissional, procurando assim contratar os jogadores que não só apresentassem índices de produtividade individual elevados como também que garantissem maior impacto na performance dos restantes colegas. A estratégia passava também por identificar reforços potencialmente negligenciados pela lógica meramente “observacional” de scouting, consequentemente menos disputados e dispendiosos, seja no custo de aquisição, seja nos encargos salariais. O plano soava bem e parecia ter tudo para não só dar certo como ser profundamente revolucionário no meio.

Mas tal não sucedeu, por duas razões fundamentais. A primeira das quais teve que ver com o timing: Damien Comoli, o homem escolhido pelo Fenway Group para implementar a estratégia, chegou ao clube em cima da janela de transferências de Janeiro de 2011. Sem tempo útil de implementação o Liverpool avançou para uma lógica não só tradicional como até apressada. Se é verdade que uma das decisões de “última hora” passou pela aquisição (hoje comprovadamente acertada) de Luis Suarez por 26,5 milhões de euros ao Ajax, a aplicação de boa parte da receita da fabulosa venda de Fernando Torres (58,5 milhões de euros) ao Chelsea, também ela last minute, recaiu em Andy Carrol por aproximadamente 41 milhões de euros. Os “Reds” tomavam assim uma opção que se adivinhava (e se viria a confirmar) precipitada pela aquisição de um jogador naquele momento “da moda”, ignorando os princípios que supostamente queriam implementar e desperdiçando uma verba que, em teoria, lhes podia permitir investir uns meses depois de acordo com a filosofia preconizada.

A segunda razão do falhanço do “caso Liverpool” viria a seguir. Amarrado a um investimento significativo, Damien Comoli decidiu finalmente implementar o conceito sabermetrics de modo a construir uma equipa em redor de… precisamente Andy Carrol. Identificando estatisticamente que Carrol marcava a maioria dos seus golos de cabeça após cruzamentos para a área de bola corrida ou parada, o Liverpool investiu no verão de 2011 aproximadamente mais 54 milhões de euros em jogadores da Premier League que apresentavam os melhores índices de produtividade para esse tipo de jogo. Chegaram Charlie Adam, Stewart Downing e Jordan Henderson. Dos três apenas Henderson permanece hoje nos quadros dos “Reds”, mas afirmando-se apenas na segunda metade da época 2012/13, após quase ter sido dispensado por Brendan Rodgers. Já Andy Carroll, o epicentro do plano, viria também ele a ser emprestado ao West Ham United em 2012 e posteriormente vendido por cerca de metade do valor nele investido.

A aposta falhou. Comoli havia misturado decisões de aparente fundamento estatístico com decisões sem fundamento (ex.: construir a equipa em torno de Andy Caroll). Havia também ignorado que, ao contrário de desportos de pontuação assente em acções simples, como o basebol, o futebol tem uma complexidade incomparável, dentro e fora do campo. Pelo caminho tinha inclusive subvertido a vertente economicista do conceito sabermetrics ao apostar em aquisições maioritariamente feitas na Premier League, as mais caras do futebol mundial. Comoli sairia ainda antes do final da época e o Liverpool passaria a apostar na juventude, evoluindo e quase conquistando a Premier em 2013/14. Perto do título mas longe do sabermetrics de “Moneyball”.

Significa então o “caso Liverpool” que a estatística não tem lugar no futebol, nomeadamente no domínio da performance e tudo o que dela advém como, inclusive, as decisões de mercado e gestão de activos? Penso que não. Explicarei porquê no próximo artigo dedicado ao tema.