O lugar da estatística no futebol: o “miopismo” de Ferguson

Jaap Stam, o rosto do maior erro (assumido) de Alex Ferguson (foto: Paul Blank)
Jaap Stam, o rosto do maior erro (assumido) de Alex Ferguson (foto: Paul Blank)

Em 2001 Alex Ferguson abordava o defesa- central holandês Jaap Stam numa bomba de gasolina e informava-o do seu desejo definitivo de que abandonasse o Manchester United e ingressasse na Lázio. O gigante holandês acataria a decisão e jogaria ainda mais seis anos pela formação romana, pelo Milan e pelo Ajax, conquistando títulos por todos os clubes onde jogou após abandonar Old Trafford com 29 anos. Ferguson descreveria em 2013 a venda de Stam como um dos principais erros da sua carreira.

O que levou o escocês a desfazer-se de um jogador tão valioso que ainda tinha tanto para dar ao futebol e a quem nele confiasse? Para lá de outras razões aventadas na altura e nunca confirmadas, nomeadamente a eventual insatisfação de Sir Alex para com a publicação da biografia de Jaap, as verdadeiras razões seriam descritas posteriormente pelo treinador e têm uma palavra no epicentro: a estatística.

Os clubes da Premier League apostam há muito na análise aprofundada do desempenho como área de conhecimento fundamental ao sucesso. Todos empregam hoje equipas de análise estatística, variando o aproveitamento do seu trabalho consoante a estratégia definida por cada um: uns usam a informação para monitorizar apenas o rendimento dos seus activos enquanto outros vão mais longe e procuram aplicá-la às suas decisões de mercado (por vezes de forma desastrosa, como já aqui escrevi). O Manchester United de Ferguson era já na viragem do século um desses clubes. Sir Alex poderá não ter sido um dos aparentemente refinados treinadores que o futebol conheceu, e muito menos partilhar a veia de matemático que é atribuída a Arsène Wenger, mas já na altura encarava como fundamental o estudo do desempenho dos seus atletas na fundamentação de algumas decisões. O caso Jaap Stam é um exemplo e o holandês a vítima.

Em 2001 a qualidade de Jaap Stam foi alvo de análise de Fergunson, numa decisão que em si não estava errada: o jogador tinha 29 anos e acabava de recuperar de uma complicada lesão do tendão de Aquiles. Importava a Sir Alex perceber se Jaap mantinha o rendimento ou se havia entrado já na curva descendente da sua carreira. O manager analisou então os dados do jogador e identificou uma tendência: Jaap fazia progressivamente menos entradas que em épocas anteriores. A sua velocidade e tempo de reacção haviam também diminuído sensivelmente, o que seria normal. Numa decisão que, como referi, Fergunson viria a classificar como um erro grosseiro, o treinador decidiu libertar-se de Staam convencido que o jogador iria entrar em breve (caso já não estivesse) numa fase de declínio. A carreira subsequente do holandês viria a provar o contrário.

Que erro cometeu Ferguson? Provavelmente dois, no mínimo um. O erro que o escocês garantidamente cometeu foi retirar conclusões precipitadas com base num indicador sem reflectir na complexidade que o futebol oferece, logo na necessidade de avaliar os dados com cuidado redobrado e sem preconceitos. O segundo e provável erro é um clássico que diferencia o método do “método algum”: procurar informação que valide os preconceitos já formulados ao invés de procurar definir conclusões através da análise neutra da informação recolhida. Em primeiro lugar uma pergunta: que variáveis devemos considerar na avaliação da qualidade e desempenho de um defesa-central? A resposta passa pelas métricas mais óbvias relacionadas com a sua acção defensiva tendo em vista um efeito: cortar uma bola, travar uma arrancada, cortar uma bola pelo ar, aliviar uma boa perdida para longe da área de perigo. Mas devemos ficar por aqui? Ferguson ficou, mas a resposta é não.

Um dos reconhecidamente mais eficazes e titulados defesas dos anos 90 e 2000, que tanto jogou a central como a lateral, dava pelo nome de Paolo Maldini. O italiano era invariavelmente indicado como candidato a melhor defesa do Mundo. No entanto Paulo Maldini raramente efectuava uma entrada. Ao invés, o italiano liderava através do simples posicionamento e pressão sobre o adversário, conquistando inúmeros lances pela simples antecipação ou criação de condições para o adversário cometer um erro sem necessariamente ter uma intervenção directa tendo em vista a recuperação da bola, ou o seu afastamento da zona de perigo. A conclusão é óbvia: Ferguson viu apenas uma parte da questão. E com isso perdeu um jogador de elevada qualidade cedo demais.

Este é um dos maiores desafios da estatística ao serviço do futebol: identificar (e ajudar quem decide a fazê-lo) as variáveis adequadas já existentes, encontrar formas de localizar e enquadrar informação que, não sendo ainda alvo de análise, tem uma influência inestimável no resultado final de um jogo. Termino com um exemplo e desafio: reveja as imagens do Inglaterra – Itália da fase de grupos do Mundial 2014, nomeadamente o lance de golo de Claudio Marchisio aos 35 minutos. Repare na influência determinante que a acção de Andrea Pirlo tem no condicionamento da movimentação defensiva adversária e consequente criação de espaço para a execução superior do seu colega. No final procure uma fonte estatística que contabilize essa interacção. Não encontrará. E concordará comigo: há muito caminho a percorrer antes de traduzir o futebol em números com eficácia.