Uma lady na mesa, uma louca na cama

O ano de 1991 corria quando Marco Paulo nos explicou aquilo que haveria de ser um meio-campo de sucesso na segunda década do século XXI, fase histórica da transformação do 4-4-2 num sistema de equilíbrios frágeis, mas performantes, entre acções defensivas e acções ofensivas.

O mestre da táctica amorosa e da passagem, sem falhas, do microfone da mão esquerda para a mão direita e da mão direita para a mão esquerda até poderia ficaria minimamente satisfeito com aquilo que a equipa do Benfica vai conseguindo produzir em termos ofensivos, a partir da sua dupla de meio-campo, mas já poderia reivindicar algumas dúvidas quando nos voltamos para o momento defensivo.[vc_table vc_table_theme=”classic”][bg#000000;c#ffffff],[align-center;bg#000000;c#ffffff]Fejsa%0A16%2F17,[align-center;bg#000000;c#ffffff]Filipe%20Augusto%0A17%2F18|%25%20Passes%20certos,[align-center]91%25,[align-center]89%25|Desarmes,[align-center]3%2C6,[align-center]3%2C9|Intercep%C3%A7%C3%B5es,[align-center;b]2%2C6,[align-center]1%2C2|Bloqueios%20de%20remate,[align-center]0%2C3,[align-center]0%2C0|Al%C3%ADvios,[align-center]1%2C0,[align-center]0%2C9|Recupera%C3%A7%C3%B5es%20de%20posse,[align-center;b]7%2C3,[align-center]5%2C1|Faltas%20cometidas,[align-center;b]1%2C8,[align-center]4.5|Faltas%20cometidas%20(%C3%BAlt%201%2F3),[align-center;b]0%2C3,[align-center]1%2C2[/vc_table]

Médias por cada 90 minutos jogados
Fonte: GoalPoint / Opta

A posição “6” será, no equilíbrio da equipa, aquela a quem poderemos aceitar menos fragilidades em troca de qualidades, porque qualquer fragilidade no coração de uma equipa poderá levar a que esta falhe. Se Filipe Augusto garante um número de desarmes semelhante ao de Fejsa, o brasileiro apresenta números mais baixos nas variáveis que subentendam menos capacidade de choque e mais capacidade de posicionamento e leitura de jogo: as intercepções e recuperações de posse. A probabilidade de ver o sérvio antecipar um passe do adversário é mais do dobro da de Filipe Augusto, o que afecta sobremaneira a capacidade do Benfica controlar de forma mais afirmativa o momento ofensivo dos seus adversários.

Com Filipe Augusto duplicam ainda os maus controlos de bola (perigoso para a área do terreno onde o “6” se movimenta) e quase triplicam as faltas cometidas. Com uma média de 4,5 faltas a cada jogo, o brasileiro é mesmo o líder desse ranking na Liga NOS, sendo que 27% das mesmas são feitas em zonas perigosas do terreno. Isso demonstra que toda a dinâmica colectiva dos “encarnados” anda a caminhar sobre brasas, com maior ansiedade, confirmando-se o fumo que se sentia desde o início da temporada e que levou ao desmoronamento com a lesão de Fejsa.

Conselheiro sentimental, o que fazer?

Quando se sentar para a próxima Conferência de Imprensa, ou quando tiver que voltar a dar satisfações a adeptos desagradados, Rui Vitória poderá prometer que, assim que Fejsa voltar, as coisas correrão melhor. Não estará muito longe da verdade, porque o sérvio garantirá, de imediato, maior segurança no momento defensivo e um Pizzi mais focado naquilo que sabe e gosta de fazer.

A capacidade de resposta a nível ofensivo poderá, ainda, ser um problema a merecer análise mais detalhada no futuro, sendo de prever que Rui Vitória possa vir a integrar Gabriel Barbosa e Raúl Jiménez num maior número de minutos em campo, revolucionando, também por aí, a forma como a equipa do Benfica aborda e concretiza o jogo.

Os problemas de relação não serão, assim, um drama para um corpo colectivo que tem vindo a evoluir ao longo de quatro temporadas, com o peso da idade de elementos essenciais a fazer-se sentir e a menor qualidade das opções a considerar-se um obstáculo à manutenção do rendimento. Mas entre o regresso à actividade de uns e o afinamento (necessário!) das dinâmicas colectivas que, com diferentes actores, precisam de respostas diferenciadas, o Benfica ainda vai ser competitivo na Liga NOS 2017/18.