Não é a primeira vez que Julen Lopetegui o afirma. O treinador espanhol diz dar pouca ou mesmo nenhuma importância à estatística porque, segundo diz, “esta nada ajuda”. A frase acaba por surpreender mais pela geração a que o treinador pertence do que propriamente pelos resultados obtidos.

“Não gosto de estatísticas porque não nos ajudam em nada”

Julen Lopetegui, conferência de imprensa do Porto – Chelsea, UCL 2015/16

A estatística só por si não vale grande coisa. Os números não marcam golos e isolados do restante conhecimento futebolístico decorrente da mais tradicional vertente observacional pouco acrescentam e, mal interpretados, podem até gerar “falsos positivos”.

No entanto, como em qualquer outra área de actividade, o estudo do passado, longínquo ou imediato, e mais propriamente dos números e tendências que o caracterizam, pode ajudar um adepto, um analista, um jornalista, um dirigente e até um treinador a compreender a realidade, avaliar o presente e acautelar o futuro com maior eficácia. Há quem já o faça de forma inovadora, há quem o faça ao mais alto nível no futebol, há muitos anos, e até já se tenha reformado. Surpresa maior, portanto, que um treinador jovem e culto como Lopetegui de alguma forma desconheça ou deprecie esta realidade.

Mas mais do que discordar do que afirma Lopetegui apenas “porque sim”, nada como exemplificar, com factos e indicadores, exemplos de informação “estatística” que, caso Lopetegui não a tenha considerado, já o podiam ter assistido no caminho da perfeição ao serviço dos “dragões”. Escolhemos três exemplos, todos eles assentes no desempenho do “dragão” de Lopetegui 2014/15, uma época de muita esperança e investimento mas de muito pouco retorno desportivo (nenhum, se considerarmos a fase avançada da UCL como retorno financeiro e não desportivo). Exemplos que ilustram indicadores que, aparentemente, não levaram Lopetegui a repensar a sua abordagem.

1. TANTA POSSE… PARA QUÊ JULEN?

Julen Lopetegui (foto: J. Trindade)
Julen Lopetegui (foto: J. Trindade)

Uma característica que desde a primeira hora marcou o “dragão” de Lopetegui foi a aposta num jogo de passe e posse controlada, com qualidade e segurança (possível). Desde cedo identificámos que o Porto era não só a equipa que mais passes fazia por jogo como a que os executava com maior qualidade.

Os “azuis-e-brancos” realizaram cerca de 19.300 passes na Liga NOS, mais 3205 que o campeão Benfica. Como foram também mais eficazes no passe (84%), os “dragões” cavam ainda maior diferença no que toca aos passes eficazes: mais 3350 certos que a “águia”. Mas com que resultados?

Espremida toda esta posse resultante do modelo de jogo de Lopetegui, o FC Porto fez 373 passes para golo. Já o Benfica fez… 379. Curioso não é? Ainda mais gritante se torna a disparidade caso tenhamos em conta quantos destes passes foram convertidos em assistências para golo: os “dragões” somaram 46 assistências, já o Benfica somou 66.

Por fim pode-se argumentar que ao manter maior posse e com mais segurança o FC Porto terá evitado, na época passada, perder tantas vezes a mesma. Olhando a consequência directa desse factor essa conclusão não sai confirmada: os “dragões” perderam 5.113 vezes a posse contra 5.180 do Benfica. Uma diferença sem signicado.

Estes números serão novidade para alguns leitores e muito menos para nós. A tendência “azul-e-branca” de posse “mastigada” mas pouco acutilante manifestou-se desde a primeira hora, e assim se manteve durante toda a época. Falámos disso. E caso Lopetegui desse relevância aos números, provavelmente teria efectuado mudanças que garantissem maior objectividade ofensiva. Eis o primeiro exemplo de que, afinal, as estatísticas podem ajudar Lopetegui.

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