O que nos dizem os Expected Goals da Liga NOS 20/21?

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É costume dizer-se que há três certezas na vida: a morte, os impostos e a contestação a qualquer nova métrica introduzida no futebol. Se viajarmos até aos anos da primeira década deste século, quando começou a ser contabilizada a posse de bola das equipas, facilmente encontraríamos uma boa dose de contestação à tentativa de quantificar aquilo que era considerado tão encantadoramente subjetivo – o modelo de jogo. Com o evoluir dos tempos, a métrica foi da excessiva importância à correcta relevância relativa e complementar com que hoje é encarada.

Agora experimentem substituir “posse de bola” por Expected Goals (golos esperados), uma das novidades dos últimos anos. Ao contrário do que alguns cépticos ou entusiastas em excesso julgam, os xG não servem nem devem ser entendidos como a métrica isolada pela qual devemos avaliar a justiça do marcador final de um jogo tão complexo como uma partida de Futebol. Tal como muitas outras variáveis, mais ou menos clássicas, é precisamente na análise do desempenho de longo prazo que os xG nos dão a sua faceta mais rica e interessante. E é justamente usando essa faceta mais valiosa que os vamos usar, nesta análise.

O que nos dizem os Expected Goals das equipas da Liga NOS 20/21?

Curiosamente, se olharmos para a diferença entre os golos reais marcados e os golos esperados a favor (xGF) por jogo, chegamos rapidamente à conclusão que na Liga portuguesa a grande maioria das equipas (15) marca menos golos do que o xG que geram. Por outras palavras, podemos dizer que estas equipas não capitalizam boa parte das oportunidades que criam.

[ As equipas da Liga 20/21 que marcam mais (e menos) golos que os Expected Goals que geram, à 15ª jornada ]

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O Portimonense é um exemplo curioso. À entrada para a 16ª jornada, os algarvios estavam no 11º lugar, três pontos acima da “linha de água”. Com 12 golos marcados, à primeira vista parecerá que a turma de Paulo Sérgio não tem grande apetência ofensiva. No entanto, se considerarmos o valor do xG, o Portimonense teria mais seis golos no total, um valor de “underperformance” significativo que não só influencia o seu lugar na tabela classificativa, como também abate fortemente a moral dos jogadores, certamente com consequências no desempenho nas quatro linhas.

Viajamos de sul a norte do país e percebemos que há uma equipa no contexto inverso aos algarvios: o FC Porto. O melhor ataque da Liga tem 37 golos marcados, mas o xG evidencia uma “overperformance” significativa de quase seis golos. A qualidade individual dos jogadores tem certamente peso no melhor aproveitamento das oportunidades mais improváveis, com os “azuis-e-brancos” a maximizarem o seu desempenho.

Cada emblema sua sentença

Contudo, a análise de Expected Goals pode e deve ir mais longe, ajudando as equipas, especialistas e até adeptos a identificar forças e fraquezas dos elencos.

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Ao distribuirmos Golos e os Expected Goals por tipo de oportunidade, há padrões interessantes que saltam à vista:

Porto
Não só é a equipa com mais golos marcados, como também consegue criar perigo nos quatro tipos de oportunidades identificados. Demonstra versatilidade e usufrui de Taremi como factor diferenciador, tanto no aproveitamento de oportunidades (7 golos para 3,6 xG), como na habilidade que o iraniano tem em sofrer penáltis – como o Goalpoint evidenciou há algumas semanas.

Sporting
Supera significativamente os seus xG em bola corrida
, em grande parte à custa de Pedro Gonçalves (falamos mais sobre isso a seguir). Os “leões” criam ainda bastante perigo através da bola parada, mas, para já, não vão aproveitando da forma mais eficaz essas oportunidades.

Portimonense e Moreirense
Ambas as equipas criam xG consideráveis em situações de bola corrida (0,70 e 0,74 xG por jogo, respectivamente), mas este facto não se reflecte nos golos reais (0,27 e 0,47 golos por jogo) dessa forma. O Portimonense é mesmo a equipa com menos golos de bola corrida de toda a Liga e, no que toca ao Moreirense, não admira que os “cónegos” estejam aquém das oportunidades que criam, entre mudanças de treinador (duas), a lesão de Pedro Nuno e a saída de homens com a acutilância de Fábio Abreu.

Paços de Ferreira, Santa Clara e Farense
Estas são três equipas que se destacam por criarem perigo através da bola parada, uma característica que, por vezes, permite contrariar a tendência global de um jogo. Dos três emblemas, o destaque maior vai para o Farense, aquele que melhor aproveita, muito por culpa das venenosas entregas de Ryan Gauld (lidera a Liga em passes para finalização de bola parada, com 20).

Famalicão
O Famalicão soma um número de golos certamente muito abaixo das expectativas que gerou para a sua segunda época após o regresso à Liga NOS, mas ainda assim há que destacar os minhotos pela quantidade de golos obtidos através da marcação de livres directos, naturalmente muito acima das probabilidades esperadas nesse tipo de lances, como por exemplo o inesperado golo de Jhonata Robert (0,04 xG) frente ao Boavista.

A diferença que uma época faz

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Comparando os dados de golos e expected goals da Liga 20/21 com a edição anterior, é tudo menos surpreendente encontrar o Sporting de Rúben Amorim na liderança dos maiores incrementos, gerais e de bola corrida. Os “verde-e-brancos” estão a marcar mais 0,82 golos por jogo, compensando a redução nos tentos obtidos de bola parada com um aumento bastante assinalável de 1,01 golos por jogo de bola corrida.

o Famalicão destaca-se novamente pela negativa, com menos 0,73 golos de bola corrida por partida, um decréscimo ao qual não serão alheias as saídas de Pedro Gonçalves, Fábio Martins e Toni Martínez, assim como a prolongada ausência de Anderson.

O Benfica perde também, mas desta feita no domínio dos golos de bola parada. Nélson Veríssimo era tido como o principal responsável por esta área e foi “despromovido”, neste caso com péssimos resultados, visto que os “encarnados” passaram para menos de metade na qualidade de ocasiões criadas de bola parada, com provável ligação também à saída de Rúben Dias.

Por fim o Rio Ave, onde a quebra é clara, tanto no número de xG criados, como nos golos “reais” obtidos, factor que se cruza com a “monumental” perda de Mehdi Taremi, autor de 37,5% dos golos e dos xG vila-condenses. Um avançado capaz de ter peso (de nível europeu) no marcador, até pelas faltas que sofre/conquista.

Os casos de Pedro Gonçalves e Darwin

Do colectivo ao individual, porque é personalizando nos craques que estes dados ganham outro interesse. Escolhemos dois nomes mediáticos da Liga em curso, com números de Expected Goals muito diferentes: Pedro Gonçalves (Sporting) e Darwin Nuñez (Benfica).

[ Os mapas de remates e Expected Goals de Pedro Gonçalves e Darwin na Liga 20/21 ]

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Pedro Gonçalves
Vai continuando a surpreender, com golos. Já leva 12, mais sete do que na época passada, com menos 20 jogos disputados. O “médio-cada-vez-mais-ofensivo” surpreende ainda mais na eficácia, ao somar mais sete golos do que o esperado (12 vs 5,36 xG), acumulando golos de dificuldade elevada (e consequente probabilidade reduzida), seja de pé esquerdo, direito ou até de cabeça.

Darwin Nuñez
A transferência-recorde da Liga chegou com “selo” de goleador, mas provavelmente seria melhor julgado, por esta altura, pelas assistências (já soma seis) e xA (Expected Assists) acumuladas do que propriamente pelos tentos e aproveitamento das ocasiões que totaliza (três golos vs 6,02 xG). Nota-se alguma dificuldade na colocação do remate, visto que 62% dos disparos do uruguaio vão para fora e oito dos 14 remates à baliza que já executou foram para a área central inferior da baliza, zona esta onde normalmente os guarda-redes se encontram.

Com valores semelhantes de xG, Pote tem quatro vezes mais golos que Darwin Nuñez, o que é ainda mais surpreendente visto que o uruguaio é um ponta-de-lança de raiz e joga em zonas mais avançadas.

Ainda pensa que os Expected Goals servem apenas para sentenciar o justo vencedor de uma partida de Futebol, a “martelo”, ou será que, devidamente enquadrados e utilizados, podem servir para compreendermos melhor o jogo da nossa paixão?

TacticalSuperSub
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No verão de 2020 deu sequência à paixão pelo Futebol no twitter, oferecendo análises e grafismos originais que chamaram a atenção dos mais atentos. No início de 2021 foi convidado pela GoalPoint para juntos fazerem ainda mais e melhor.