Em Fevereiro de 1930, o norte-americano Clyde Tombaugh, um curioso em astronomia e sem formação na área, descobriu Plutão, o (agora) planeta-anão que há muito se esquivava aos olhares dos cientistas que procuravam avidamente o Planeta X. Clyde foi a primeira pessoa a vislumbrar o corpo celeste, cuja existência já havia sido detectada muitos anos antes, na década de 40 do século XIX, sem ser sequer observado.

Ao analisarem a massa de Neptuno, e através de cálculos matemáticos complexos, cientistas perceberam, através das órbitas deste planeta, bem como de Úrano, em torno do Sol, que um outro objecto se moveria na orla do nosso sistema solar. Só faltava observá-lo directamente para confirmar a sua existência, e esse privilégio teve-o Clyde Tombaugh.

No Futebol, a procura por “estrelas” ou outros “corpos celestes”, na esperança que brilhem intensamente no futuro, transformou-se também ela numa ciência, na qual a matemática e a estatística ganham um peso cada vez maior e diferenciador. Quem já o percebeu e agiu para abraçar este mundo novo, sem preconceitos e receios infundados, está já um passo à frente da concorrência, e quem demorar a reagir ficará, fatalmente, para trás.

A resistência ao uso da estatística para as mais variadas análises futebolísticas ainda persiste, em especial no nosso país, embora se assista a uma mudança gradual de atitude que faz antever um futuro diferente. Aqueles que já perceberam o potencial desta vertente beneficiam há algum tempo de uma “ferramenta” que lhes permite analisar desempenhos de equipas e jogadores adversários a diversos níveis de profundidade, em períodos temporais definidos, da forma que mais interessa às suas estratégias; possuem uma ideia sobre a performance dos seus próprios atletas e equipas; mas também antecipam-se à concorrência quando o assunto é scouting de novos talentos.

Num universo de diversos escalões, países, competições e divisões, é possível um clube, ou outra entidade, identificar o Jogador X, em contrapondo ao Planeta X no exemplo astronómico que apresentei acima, sem o ver actuar. A estatística acumulada permite descobrir jogadores por aquilo que estes estão a realizar nos seus clubes e campeonatos, “escondidos” do mundo, dando às equipas de scouting uma vantagem sobre todas as outras que confiam unicamente na observação in loco de atletas. Observação essa que se mantém fundamental em qualquer uma das situações, só que há quem chegue primeiro.

Lá fora até no feminino a estatística impera

A percepção da importância da estatística está a chegar a todas as áreas do Futebol, e foi com satisfação – e alguma surpresa – que, aquando na nossa participação no último evento Soccerex, em Oeiras, nos dias 5 e 6 de Setembro, constatámos o grande interesse de uma ampla plateia em relação último Mundial Feminino, que decorreu este Verão em França. Como é sabido, a GoalPoint acompanhou de forma intensiva a competição, com ratings de todos os jogos, bem como eleições do “onze” de cada fase e da prova, bem como a melhor jogadora.

A análise estatística final sobre a evolução do Futebol feminino no seu campeonato do Mundo foi acolhida com grande interesse pela referida plateia internacional, pelo que não nos passa pela cabeça que também em Portugal a resistência a esta ferramenta fundamental não quebre em definitivo nos tempos mais próximos, lançando o nosso Futebol para uma era de modernidade que nos permita manter no topo do Futebol mundial. Mas há perigos ainda a combater.

Nas mãos erradas

Recentemente, surgiram notícias na imprensa inglesa de que o médio do Sporting, Bruno Fernandes, teria sido descartado pelo Manchester United por não ter uma percentagem de acerto de passe suficiente alta para “o jogo de posse” da equipa inglesa. Duvido seriamente de que esta tenha sido uma conclusão tirada pela equipa de análise de desempenho e scouting do United, por roçar a total falta de rigor. Esta conclusão está ferida de descontextualização em relação aos estilos de jogo das duas equipas (United e Sporting), sistemas de jogo que condicionam o tipo de passe (de risco ou mais conservador) e até o tipo de jogadores que rodeiam o internacional português.

Olhando para o que Bruno Fernandes fez na época transacta, e comparando-o com Paul Pogba (jogador que serviu, alegadamente, de comparativo para descartar o português), é verdade que o francês teve mais eficácia de passe global (83% contra 74%), mas a observação de um jogador tem de ser bem mais profunda.

A “falta de qualidade” de passe de Bruno Fernandes…

A “desculpa” ignora, por exemplo, que a distância média de passes certos de Bruno Fernandes em 2018/19 foi de 17,7 metros, acima dos 16,4 de Pogba ou dos 15,9 de Kevin De Bruyne, do Manchester City; que a profundidade de passes certos do “leão” (4,1 metros) é bem maior que a dos dois outros jogadores (2,6 e 1,1 metros), reflexo do próprio estilo de jogo dos atletas, já para não falar da forma como as equipas actuam; que Bruno faz uma percentagem bem maior de passes longos (14%, contra 12% do francês e 9% do belga); ou que a percentagem de passes verticais do sportinguista é de 38%, para 30% de Pogba e 28% de Kevin. E ainda há os golos que o português marca, as ocasiões flagrantes que cria ou a sua qualidade de remate, que faz corar muitos craques europeus – converteu 17% dos remates que fez, contra 12% de Pogba e 7% de De Bruyne, e 73% dos seus disparos foram colocados (56% e 50%).

Caberia Bruno Fernandes no Manchester United? Pessoalmente acredito que sim e certamente os seus números seriam diferentes, influenciados pelo próprio estilo que ambas as formações apresentam. Há que saber ler os números e estes de nada servem nas mãos erradas. Pensamos estar entre as “mãos certas”.

[Pode ver a sessão integral da Soccerex que contou com a participação GoalPoint neste vídeo]