O FC Porto abriu a recta final pós-COVID da Liga com um trambolhão em Famalicão, que pode vir a custar uma Liga na qual, até ao apito inicial, o “dragão” dependia só de si. Ao todo a turma de Sérgio Conceição perdeu três partidas na Liga em curso, tantas quanto o rival perseguidor Benfica. Mas será que estas derrotas apresentam algo em comum que ajude à sua explicação? Foi o que decidimos verificar.

Os “dragões” perderam em três momentos diferentes da temporada, a saber:

– Logo a abrir, na primeira jornada, em casa do recém-promovido Gil Vicente por 2-1
– No fecho da 17ª jornada, em casa, frente ao Sporting de Braga por 2-1
– Ao reabrir a Liga, na jornada 25, em Famalicão por 2-1

Maldição minhota?

Ora o registo acima apresentado permite desde logo perceber dois detalhes em comum, que nada dizem, fora da dimensão da curiosidade: o Porto perdeu apenas frente a emblemas minhotos e sempre pelo mesmo resultado. Será que os pontos em comum se ficam por aqui? Observemos os sumários estatísticos destas partidas, com especial atenção aos Expected Goals (xG), os golos esperados para cada equipa, em função das situações de remate que somaram.

No plano defensivo não existe paralelismo entre as três derrotas, embora salte à vista a curiosidade de, nos dois desaires mais recentes, Marchesín ter sofrido golos nos únicos remates enquadrados que teve de enfrentar, dois em cada partida. O guardião portista somou, aliás, o seu segundo erro resultante em golo frente ao “Fama”, o que o coloca mais próximo do máximo da Liga (3, partilhado por dois guardiões) nesta variável pouco elogiosa. Convém no entanto relembrar que o guardião, agora debaixo de fogo, foi o MVP “azul-e-branco” em Barcelos, não só para o algoritmo GoalPoint Ratings como também para os nossos seguidores, sendo visto como muitos como a razão pela qual os “dragões” não terão encaixado ainda mais golos na abertura da Liga. Este facto, somado à produção ofensiva permitida ao Gil Vicente e aos Expected Goals acumulados pelo Famalicão, anulam uma leitura transversal do desempenho defensivo “azul-e-branco” como principal justificação comum às três derrotas somadas.

Ainda no plano defensivo, destaca-se um pormenor que serve de “teaser” ao que destacaremos já em seguida: os “dragões” permitiram apenas duas ocasiões flagrantes desperdiçadas pelos adversários, no conjunto das três derrotas, uma frente ao Gil Vicente (Rodrigo) e outra ante o Famalicão (Toni Martínez).

Esta é a “estatística” que interessa Sérgio…

Já no plano ofensivo a história é diferente. Os “dragões” somaram entre 13 e 16 remates em cada uma das partidas comparadas e nunca fizeram menos de cinco remates enquadrados à baliza adversária. Apesar de tudo, estes números dizem pouco, se lidos isoladamente e sem a contextualização oferecida pelos Expected Goals, ou não apresentasse o Porto uma média de um golo a cada 7,9 remates totais e a cada 2,8 disparos enquadrados. A perigosidade e o aproveitamento das ocasiões usufruídas pelo Porto dirá algo mais.

O FC Porto beneficia em média de quase três ocasiões flagrantes de golo por jogo na Liga NOS (2,3), o terceiro melhor registo da prova (atrás de Braga e Benfica), concretizando cerca de 40% dessas ocasiões (Benfica concretiza 42%, valores em linha). Ora no conjunto das três derrotas somadas, os “dragões” desperdiçaram nada menos que 11 ocasiões flagrantes de golo, a uma média de 3,7 por jogo ou seja, o “dragão” esbanjou lances na cara do golo acima da média de ocasiões que cria habitualmente, nos três jogos que perdeu.

[ Os GoalPoint Ratings de alguns dos “dragões” mais ofensivos quantificam o desperdício ]

GoalPoint-Famalicão-Porto-Liga-NOS-201920-Ratings
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O jogo de maior desperdício surgiu logo a abrir, com o Gil, com cinco lances flagrantes perdidos, três deles protagonizados por Tiquinho Soares. Seguiram-se duas ocasiões desperdiçadas na recepção ao Braga e mais quatro frente ao Famalicão, desta feita com Luis Díaz em destaque, com duas na sua contabilidade.

No total dos três jogos é esta a contabilidade de lances claros de golo desperdiçados, por jogador:

JogadorOcasiões Flagrantes Perdidas
Soares4
Luis Díaz2
Zé Luís1
Corona1
Alex Telles1
Marega1
Pepe1
Fonte: GoalPoint / Opta

No final da partida, Sérgio Conceição afirmou que “as estatísticas não ganham partidas”, e está correcto. A análise estatística no contexto do Futebol serve sim (entre outras coisas) para preparar partidas, procurando padrões e pistas que ajudem a entender porque se ganham ou perdem, de modo a que no futuro não exista qualquer denominador comum que explique tão bem porque não atingimos o objectivo: vencer. O desempenho dos “dragões” na cara do golo, nos jogos em análise, acaba por deixar pistas que ajudam a explicar parcialmente porque somou o Porto a sua terceira derrota na Liga. Próximo passo? Aproveitar as pistas para tentar identificar as causas. E é para isso que servem os analytics.


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