O spot lançado pela RTP para promover a transmissão da Supertaça que SL Benfica e Sporting CP disputarão no próximo dia 9 de Agosto gerou, desde a primeira hora, enorme polémica entre os adeptos mais atentos e fervorosos de ambos os clubes. Entre os “leões” vinga o argumento de que achincalha o clube e o troféu em disputa, centralizando em Jesus e em algumas frases do passado uma importância excessiva e provocadora. Não deixa de ser curioso relembrar que boa parte da aceitação e euforia leonina em redor da chegada do treinador campeão assentou precisamente no “golpe” dado ao rival, para agora a crítica de alguns “leões” assentar precisamente nessa abordagem à qual a RTP dá (natural ainda que brincalhão) seguimento.

entre os “encarnados” reclama-se falta de respeito por Rui Vitória e (também) a atribuição de excessivo relevo à mudança de Jesus para Alvalade, não escondendo assim o desconforto de uma novela que não deixou muitos adeptos benfiquistas satisfeitos, enquanto outros (os que nunca apreciaram sobremaneira Jorge Jesus), desejam ver-lhe retirada a importância na história recente da “águia” o mais depressa possível. O vídeo não ajuda, logo o vídeo é mau.

A unir ambas as “facções” surge a ideia de que o vídeo promocional é trocista e que ofende o sagrado: os clubes  e protagonistas envolvidos. Pelo meio sobressai a ideia que resulta clara desde o início do defeso: o jogo da Supertaça será o “jogo de Jesus”, por mais que os adeptos mais críticos (do vídeo) desejassem que não fosse. Uma vitória leonina será não só a vitória do “leão” sobre a “águia” bicampeã, mas também o triunfo de Jesus sobre um Benfica que, supostamente, não o quis. Já a vitória do Benfica de Rui Vitória poderá constituir um sinal claro de que afinal há “águia” para lá do legado de Jesus e que o carismático treinador não será o “milagreiro” que se dizia ser. São dois cenários simultaneamente apetitosos e preocupantes, para os que vivem, mais do que o futebol, o clubismo exacerbado.

Estas reacções só admiram quem anda desatento. Em Portugal existe algo sagrado e naturalmente vedado ao humor ou a qualquer abordagem mais descontraída, e não falo nem de política nem de religião. Não refiro sequer o futebol, como provavelmente o leitor esperaria. Falo mesmo…. do “clube”. O meu, o seu, o do vizinho. Nisso ninguém pode tocar. Não há piada construída sobre o nosso clube que tenha graça. Não há tirada aceitável quando as nossas cores estão em jogo. Com o clube não se brinca, e os profissionais do ramo (os humoristas) já o perceberam, na sua maioria, com maior ou menor dificuldade, maior ou menor “aperto”, sendo hoje raro encontrar profissionais do humor que abordem o futebol ou que o façam num tom realmente provocador, como o fazem noutros temas, uma opção muitas vezes cobarde e que não ajuda à evolução necessária, mas compreensível quando, por vezes, a violência da vertigem clubística ameaça passar das palavras aos actos.

Todos sabemos que isto não faz sentido. Temos noção do quão primário é, com tantos temas sérios na vida, dar tamanha importância ao que não o tem, vivendo o futebol sob a lei de um texto sagrado existente apenas na região mais medieval do nosso intelecto ao qual dou o nome de… “talibanismo do emblema”.

As gerações vão passando e a referida “religião” não esmorece. Renova-se, contribuindo decisivamente para a estagnação de um futebol que, neste e em tantos outros aspectos específicos, se distancia de outras Ligas e culturas desportivamente bem mais avançadas (Inglaterra, Estados Unidos). Nestas, existindo espaço para a paixão pelas cores, vive-se esse sentimento sem necessariamente guardar o cérebro numa gaveta.

Para que não decorra deste texto qualquer noção errada de pseudo-superioridade intelectual, assumo, sem hesitação, que também eu já fui devoto desta ortodoxia. Com o passar dos anos, da vida real, e também após uma passagem (muito) pedagógica pelo mundo do futebol profissional, mudei o mindset. Continuo a gostar de futebol (mais do que nunca talvez) e a ter preferência clubística. Mas felizmente perdi, como noutras áreas do “saber”, tiques mais próprios da puberdade intelectual, entre eles o preconceito de que, no futebol, não há espaço para a ligeireza e descontracção.

Exemplo: Em 2013 a NBC promoveu os direitos de transmissão da Premier League com uma caricatura generalizada da prova, clubes, desporto em si e até da suposta ignorância norte-americana em relação ao futebol, tudo com o apoio da Premier League e seus clubes. 

O mais certo será a RTP retirar do ar o vídeo. E assim vencerá, mais uma vez, o “talibanismo do emblema”, uma das expressões mais objectivas do nosso atraso cultural futebolístico. O futebol é entretenimento, espectáculo, não uma batalha de seitas. Os adeptos que não o percebam não podem admirar-se que até aos dirigentes lhes escape em que negócio estão, de facto, envolvidos.

PS – Já após a publicação deste artigo de opinião foi anunciado o pedido da FPF dirigido à RTP no sentido desta retirar do ar o vídeo promocional.