Ocupação Territorial, uma nova forma de olhar a posse de bola

-

No que ao futebol diz respeito, a percentagem de posse de bola foi das primeiras estatísticas a entrar-nos casa adentro, através da televisão. Sem grande explicação, como em muitas outras, e quase sempre sem que quem a difunde perceba sequer como é calculada, o seu uso foi-se massificando e entrou no discurso dos adeptos, treinadores, analistas, etc.

A posse pela posse… diz pouco

Mas o que é então a posse de bola? A resposta correcta é: depende. Para algumas fontes é simplesmente a percentagem de tempo que cada equipa tem a bola, com melhores ou piores acertos consoante a mesma esteja em jogo ou fora do campo, ou com melhores ou piores acertos consoante o jogo esteja mais caótico e sem claro controlo da bola por qualquer das equipas.

No entanto, a maioria das fontes de recolha e fornecimento de dados estatísticos tem em conta o número de acções com bola ou o número de passes completos. Ou seja, na hipótese extrema de um jogador estar parado durante 15 segundos antes de fazer um passe, esses 15 segundos teriam um peso importante no primeiro método, mas contariam apenas como uma acção no método que se baseia na contagem de acções.

A verdade é que não existe uma forma única e muito menos certa de a medir, menos ainda se o objectivo for usar esse indicador para aferir o domínio do jogo. Vejamos o exemplo seguinte.

[ O mapa de ligações na recepção do Famalicão à Belenenses SAD ]

Clique para ampliar

Na recepção do Famalicão à Belenenses SAD, a equipa de Silas terminou o jogo com 58% de posse de bola. No entanto, e apesar de o jogo até ter terminado empatado, os “azuis” tiveram mais vezes a bola na área adversária, fizeram mais do dobro dos remates e acumularam cinco vezes mais Expected Goals do que o Famalicão. Qualquer pessoa que tenha visto o jogo concorda que os “azuis” estiveram mais perto da vitória, mas a posse de bola indica um ascendente do Famalicão.

Olhando o mapa de ligações, grande parte dos passes certos famalicenses foram ente os dois centrais titulares, sendo que [15] Riccieli até foi substituído ao minuto 66. É difícil chamar a isto de domínio, certo?

Da Posse de Bola à Ocupação Territorial

Mais do que ter a bola, interessa colocá-la em zonas que causem desconforto ao adversário, e é isso que procuro medir com uma nova métrica, que baptizei de Ocupação Territorial.

Ao contrário da posse de bola, que é tipicamente mostrada em percentagem de uma equipa contra outra, a ocupação territorial é uma medida mais qualitativa do que quantitativa. Com a ocupação territorial, o volume de acções em si é expurgado e o cálculo é uma média da distância de cada acção com bola em relação à baliza adversária, em metros. Confuso? Voltemos novamente ao Famalicão – Belenenses SAD.

[ O mapa de acções com bola de Famalicão e Belenenses SAD, no mesmo jogo ]

Como se pode ver, há uma grande concentração de acções do Famalicão em zonas perto da própria baliza, enquanto a Belenenses SAD somou mais acções na área adversária, até duas na pequena área, e conseguiu chegar a zonas perto da baliza de Luiz Júnior, sobretudo pelo corredor esquerdo. Em média, cada acção do Famalicão foi feita a 62,6 metros da baliza de Kritciuk, enquanto as da Belenenses SAD registaram média de 62,2. Valores muito semelhantes, que espelham melhor o resultado do que a “enganadora” posse clássica de 58% – 42%.

Mas fui mais longe. A diferença entre duas acções, uma a 70 metros e outra a 80, é praticamente nula, mas a diferença entre duas acções, uma a 20 metros e outra a 10, é bastante grande. Por isso “quadratizei” a distância média de cada acção, após inverter as distâncias, de modo a valorizar as mais próximas da baliza adversária. Assim, uma acção em cima da linha de golo vale 109,4 (a distância máxima de um ponto do campo até à linha de golo) ao quadrado, enquanto uma acção em cima da linha de golo do própria baliza vale zero… ao quadrado.

No final das contas, a métrica é normalizada para valores de 1 a 100, de modo a ser mais intuitiva para quem está habituado a consumir os valores de posse de bola. Neste caso, Famalicão e Belenenses SAD acabaram com valores de Ocupação Territorial de 43,5 e 46,2, respectivamente.

Como se pode ver, ao contrário da percentagem de posse de bola, os dois valores não somam 100, e isso é intencional. No limite, se duas equipas estiverem a “jogar vólei”, com passes de um lado ao outro do campo, ambas terão valores muito abaixo de 50, porque nenhuma delas teve efectiva Ocupação Territorial.

Casos extremos na Liga NOS 20/21

É sempre interessante, após criar uma nova métrica, verificar quais foram os casos limite numa determina prova. Eis dois bons exemplos.

[ As acções com bola do Benfica frente ao Boavista, na Luz, e do Rio Ave na visita a Guimarães ]

Contra o Boavista em casa, o Benfica teve uma ocupação territorial de 74,7. A madrugadora expulsão de Chidozie ajuda a explicar boa parte do mapa dos “encarnados” nessa partida, mas o caso da visita do Rio Ave ao Vitória SC é bem distinto. Na deslocação ao Afonso Henriques, Carlos Mané marcou ao minuto 23, e aos 32 minutos os vila-condenses já venciam por 2-0. A abordagem no resto da partida foi naturalmente mais expectante, e a equipa de Miguel Cardoso acabou com uma ocupação territorial de 31,7, a mais baixa da época até agora.

Analisando a época inteira, estas são as médias de Posse de Bola e Ocupação Territorial das 18 equipas da Liga NOS.

EquipaPosse de BolaOcupação TerritorialDiferença
Sporting56.450.9-5.5
Porto57.156.2-0.8
Benfica60.059.1-0.9
Braga53.050.1-2.9
P. Ferreira46.346.40.0
Vitória SC49.250.61.4
Santa Clara48.546.9-1.6
Moreirense48.647.4-1.3
Rio Ave50.646.4-4.2
Belenenses SAD47.248.71.5
Tondela47.247.40.2
Gil Vicente47.648.71.1
Portimonense51.648.7-2.9
Famalicão51.445.4-6.1
Farense44.349.35.0
Nacional49.946.4-3.5
Boavista45.947.81.9
Marítimo45.246.00.8


Pela negativa, a maior diferença é mesmo o já falado caso do Famalicão
, equipa que, durante grande parte do campeonato, registou números de posse de bola acima da média, mas com grandes dificuldades em marcar golos ou criar ocasiões. No entanto, não deixa de ser curioso ver o líder Sporting surgir logo a seguir.

A equipa de Rúben Amorim destaca-se sobretudo pela forma equilibrada como gere as partidas. A Ocupação Territorial tem sempre duas vertentes (a conseguida e a permitida) e o Sporting é exímio a não permitir ao adversário que se chegue à sua baliza, a partir do momento em que está a vencer.

No gráfico abaixo podemos ler a Ocupação Territorial, segmentada em três estados:

  • A VERDE: A Ocupação territorial conseguida, quando o resultado é desfavorável. Aqui, temos um indicador de quão agressivas ofensivamente as equipas se tornam nos momentos em que estão a perder
  • A AZUL: A diferença entre ocupação territorial conseguida e permitida, quando o jogo está empatado. Aqui, sobressaem as equipas que mais procuram a vitória em situações de igualdades, e que ao mesmo tempo conseguem proteger a baliza nesses momentos.
  • A AMARELO: A ocupação territorial permitida, quando o resultado é favorável. Aqui, o indicador mostra as equipas que menos aproximações perigosas permitem aos adversários, a partir do momento em que estão a vencer.

Como se pode ver, cada uma das equipas do top-3 destaca-se num dos momentos.

O Benfica tende a ser forte em situações de igualdade, mas depois não gere bem essas vantagens, permitindo que o adversário se aproxime da sua baliza. O Porto é fortíssimo a chegar à frente nos momentos em que está a perder (já conquistou 15 pontos dessa forma), e o Sporting é excelente a gerir as vantagens que atinge, sem se desequilibrar muito.

As linhas de tendência mostram que o domínio do “momento amarelo” é o mais preditivo da classificação. Ou seja, apesar de o Sporting até não ser uma equipa super propositiva, o facto de manietar as iniciativas do adversário a partir do momento em que se encontra em vantagem, explica em parte o sucesso da época a nível interno.

A isso não será indiferente a influência do jogador que, nos principais campeonatos europeus, mais acções defensivas regista dentro dos meios-campos adversários.

A cada 90 minutos em campo, João Palhinha soma 3,2 acções defensivas para lá da linha de meio-campo, mais do que qualquer outro na Europa, e a imagem retrata bem o quão impressionante e decisivo é o seu raio de acção para que o Sporting defenda mais alto e não permita aos adversários chegarem perto da sua baliza.

Os casos de Paços de Ferreira e Santa Clara, pela positiva, e do Boavista, pela negativa, ajudam a validar a teoria de que saber defender bem e longe da baliza, a partir do momento em que consegue vantagem no marcador, é dos atributos mais importantes de uma equipa de sucesso. Os açorianos venceram mesmo os nove jogos em que estiveram na frente em algum momento, enquanto o Paços ganhou 13 dos 16. Já o Boavista esteve a vencer em 11 ocasiões e acabou por só terminar por cima em quatro desses jogos.

Algumas curiosidades da Liga NOS

  • O Tondela é a única equipa que regista maior ocupação territorial quando está a vencer (52,0) do que quando está a perder (50,4)
  • O Marítimo é a equipa que mais muda os seus comportamentos consoante o resultado, sobretudo quando está a ganhar. De 48,5 com derrota e 46,7 com empate, passa para 36,5 quando está a vencer, e permite 70,4 aos adversários nesses momentos
  • O Benfica é a equipa que menos muda a Ocupação Territorial consoante o resultado (61,5 | 60,0 | 58,3)

⬆️⬇️ Equipas europeias em Ocupação Territorial, por estado do jogo

  • Do adversário, quando em vantagem: ⬆️ Roma, Man. City, Bayern ⬇️ Crotone, Huesca, W.B.A.
  • Diferença equipa/adversário, quando empatados: ⬆️ Man. City, Barcelona, Bayern ⬇️ Elche, Benevento, Genoa
  • Da própria equipa, quando em desvantagem: ⬆️ Barcelona, Man. City, Inter ⬇️ Elche, Schalke, Arminia Bielefeld

Profissional de Futebol? Então isto interessa-lhe

GoalPointPro-trim2A GoalPointPro é a unidade da GoalPoint Partners que presta serviços a clubes, agentes, treinadores, jogadores e outras entidades ligadas ao Futebol profissional, nacional e internacional.
Contacte-nos para [email protected], ou visite esta página para saber mais.

Hernâni Ribeiro
Hernâni Ribeiro
Formado em estatística e gestão de informação, e Data Scientist profissional. É Head of Analytics na GoalPoint e responsável pela GoalPointPro