Já olhámos para quase tudo o que interessa sobre o passado “encarnado” de Jorge Jesus, bem como as implicações da sensacional mudança do treinador português para o Sporting CP. Debruçamo-nos agora sobre as mudanças para o clube, treinador e para o futebol português em geral que a chegada de “JJ” ao Sporting podem representar no futuro próximo.

 

1. UM NOVO SISTEMA

Jorge Jesus (foto: J. Trindade)
Jorge Jesus (foto: J. Trindade)

O Sporting não sabe o que é jogar em 4-4-2 como sistema base há muitos anos, sendo que a última vez que o fez (com sucesso consistente, leia-se o título de campeão) foi com Lazlo Boloni. Depois disso também Paulo Bento privilegiou o 4-4-2, mas numa variação (4-1-2-1-2) muito diferente daquela em que o novo treinador leonino alicerçou o seu sucesso ao serviço do Benfica nos últimos seis anos.  A não ser que para lá de mudar para Alvalade, Jesus reserve mais surpresas, é de prever que o Sporting virará a agulha para o sistema preferido pelo treinador bicampeão, após épocas consecutivas a alinhar primordialmente em 4-3-3, ainda que com variações.

Esta alteração não é de somenos num clube que deverá continuar a apostar no produto da sua formação, pelo menos no curto/médio prazo. Sendo verdade que um projecto de formação de sucesso passa por formar jogadores aptos a interpretar diversos sistemas de jogo, é um facto que a academia leonina assenta também ela no 4-3-3 como base de trabalho e desenvolvimento dos diversos jogadores que ofereceu ao futebol português, sendo prova mais evidente dessa opção a preponderância que os extremos têm na História dos maiores casos de sucesso do projecto leonino (Cristiano Ronaldo, Nani, Ricardo Quaresma e, ainda que numa fase embrionária do projecto, Luís Figo).

Esperam-se assim mudanças que a verificarem-se serão mais profundas do que apenas uma alteração gráfica do alinhamento do “onze” leonino nas transmissões televisivas, com consequências para lá da equipa principal e cuja extensão será directamente proporcional ao período de duração de Jorge Jesus em Alvalade.

 

2. CONSISTÊNCIA DEFENSIVA E… GOLOS

Ewerton e Salvador Agra
Salvador Agra perante Ewerton (foto: J. Trindade)

Após 319 jogos à frente do Benfica, Jorge Jesus terminou a sua era “encarnada” com menos de um golo sofrido por jogo (0,81). Apesar do seu futebol ser conhecido pela vertente ofensiva, Jesus notabiliza-se por tentar criar condições para as suas equipas não serem colocadas em situações complicadas, do ponto de vista defensivo. Prova disso é o facto de todos os clubes que treinou, num passado recente, registarem uma média próxima de um golo sofrido por jogo. Nos desafios mais exigentes (Braga e Benfica) conseguiu manter-se claramente abaixo dessa fronteira, com a curiosidade de Braga ter representado o seu melhor registo, com 0,6 golos sofridos por jogo. Já o Sporting, nos últimos anos, apenas com Leonardo Jardim conseguiu sofrer menos de 0,9 golos por encontro, Conclusão? A qualidade defensiva dependerá também dos jogadores com que contar mas é de esperar que as melhorias que Jorge Jesus venha a incutir no “leão” comecem precisamente pela eficácia defensiva, variável à qual muitos atribuem a génese de qualquer candidato a campeão.

Jorge Jesus no Benfica
Clique para conferir os números de “JJ” no Benfica

No extremo oposto do relvado encontramos as variáveis pelas quais as equipas de Jesus mais impressionam: os golos. E este é outro factor do qual o Sporting pode beneficiar, sobretudo aos olhos dos críticos que identificaram no futebol praticado sob o comando de Jardim e Marco Silva um modelo demasiado previsível, de procura excessiva do cruzamento e com pouca profundidade/criatividade na hora de atacar pelo corredor central. Para lá de 70% de vitórias, Jesus termina os seis anos de “águia” ao peito com uma média de 2,1 golos marcados por jogo.

Uma entretida navegação por vídeos dos melhores golos do Benfica sob o comando de “JJ” permite identificar algo que dispensa horas de análise intensiva de jogo: os “onzes” de Jesus procuram o golo das mais variadas formas, escolhendo aquelas que mais se adequam ao perfil dos jogadores em campo. Não é por isso de esperar ver novamente o Sporting a cruzar incessantemente por alto num jogo em que Slimani (ou um seu substituto futuro) estejam ausentes mas sim recorrer a diversas soluções para ultrapassar as barreiras defensivas que os “leões” irão enfrentar na maioria dos jogos, a nível interno.

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