O futebol tem o poder de hipotecar a inteligência do adepto mais fervoroso, sem olhar a cores. Não interessa se falamos de um “hincha” com a quarta classe ou de um doutorado académico, o fenómeno é transversal e, infelizmente, de exteriorização passível de provocar intensos sentimentos de vergonha alheia. E Portugal é, hoje mais do que nunca, uma verdadeira montra desta forma de (mal-)estar no desporto-rei.

Com o “aquecer” da luta pelo título da Liga NOS 2017/18, devidamente incendiada pelo discurso dos responsáveis dos “grandes” e seus emissários comunicacionais, não admira que as mentes mais susceptíveis ao “emburrecimento” emocional incorram na criação daquelas que certamente lhes parecem ser sofisticadas teorias de explicação alternativa de uma realidade que preferem não enfrentar. No exercício pouco intelectual destes teóricos, a antevisão do eventual insucesso (combustível indispensável ao exercício criativo que a seguir descrevo) nunca assenta primordialmente na culpa própria ou sequer da fraca sorte, mas sim em processos e forças ocultas que conspiram contra o que deveria ser incontornável triunfo das suas cores.

Diz-me quantas faltas cometes e eu julgo na hora

Não sendo um fenómeno novo, a segunda volta da Liga NOS assistiu ao ressurgimento da teoria de que alguns (ou mesmo todos, depende do grau de devaneio) emblemas “pequenos” facilitam perante os “grandes”, sempre um ou os dois rivais, claro. Ciente de que há que dar o mínimo sustento à teoria, o proponente desta linha de pensamento serve-se sobretudo do número de faltas cometidas pelas equipas, concluindo, ou pelo menos sugerindo, que um emblema “pequeno” que comete menos faltas contra um rival do que as que cometeu contra a sua equipa está claramente comprometido (leia-se “vendido”) e que “só não vê quem não quer”. Em alguns casos o número de faltas cometidas é complementado com a avaliação do número de remates e situações de golo, efectuadas contra ou permitidas ao adversário.

Esta teoria da conspiração obviamente despreza um sem número de factores que qualquer adepto na posse de todas as faculdades necessárias ao exercício da inteligência deve ter em conta, quando analisa o futebol.

A tese ignora, em primeiro lugar, tudo o que diz respeito ao próprio jogo. Variáveis tão básicas como os “onzes” que disputam o(s) jogo(s), o contexto das equipas e que opções tácticas são tomadas em cada jogo, a equipa de arbitragem, jogos contra outros adversários que não os “grandes”, condições meteorológicas e o próprio decorrer do encontro são invariavelmente ignoradas nestas formulações.

Em segundo lugar, e num plano ainda mais fantasioso e infantil, a tese pressupõe uma facilidade extraordinária em convencer dirigentes, técnicos e/ou um número significativo de jogadores a “entregarem os pontos”, como que se de um corpo único de fácil corrupção se tratasse, alheio a princípios, objectivos, sonhos de carreira e noites dormidas em consciência, tudo em nome do fácil favorecimento colectivo daquele rival poderoso que teima em povoar os nossos pesadelos de adepto.

A esta teoria surge ainda associada outra, a da “mala”, que consiste em rapidamente justificar qualquer boa exibição (infelizmente episódica) de um emblema de ambições mais humildes frente ao nosso clube com a atribuição um “prémio” financeiro por um rival, à margem dos regulamentos.

A equipa que mais “facilita” é sempre a mesma

Existem então equipas de futebol que facilitam? É possível que sim, embora esse seja certamente uma ocorrência bem menos frequente do que a análise simplista dos “factos” tão em voga prenuncia. Esta realidade, a existir, sucederá (como é público) com muito mais frequência por influências bem mais poderosas do que as exercidas na nossa imaginação pelos clubes rivais (como por exemplo o “mercado negro” de apostas) e será certamente de identificação bem mais complexa do que a oferecida pelos brilhantes teóricos que a denunciam com a mesma facilidade e preparação teórica com que estrelam um ovo.

Mas há de facto uma “equipa” que, em Portugal, facilita sempre. A equipa dos adeptos “doentes”, sobretudo dos “grandes”. Facilitam na forma como guardam na gaveta a sua consciência crítica e intelectual, a favor das “cassetes” que lhes são servidas pelos dirigentes, invariavelmente mais preocupados com a manutenção do seu status quo do que com a tão desrespeitada “verdade desportiva”. “Papam grupos” com o apetite e facilidade com que, em crianças, se predispuseram a acreditar no Pai Natal.

Por esta altura, entre os que até aqui tenham chegado na leitura, existirão alguns que, tendo já incorrido ou difundido estas formulações, estarão agora a pensar algo como “de facto, por vezes parece que não tenho nada na cabeça“. Não há que ter vergonha disso e essa reacção é, aliás, merecedora de felicitação, pois nunca é tarde para purificar o nosso intelecto do armagedão de propaganda clubística que nos é oferecido, diariamente, no futebol português. Basta não abdicarmos do dito, o intelecto.