(este artigo está escrito em português do Brasil)

Escrevo a presente crônica como um fecho de minha participação aqui no GoalPoint sobre  o Mundial 2018. E nessa incursão derradeira pretendo oferecer um diagnóstico – pessoal – do desempenho da Seleção Brasileira no torneio. Como escrevi noutros espaços, vim na expectativa pela conquista do hexacampeonato, como a redenção pelo ocorrido em 2014, pelo que saio largamente decepcionado, mas procurando manter os pés no chão.

Como é possível imaginar, após uma derrota no quartos-de-final diante da Bélgica, o clima entre os adeptos brasileiros é de tragédia. Ninguém vale nada! Tite está ultrapassado, Neymar é uma farsa, Alisson é um frangueiro, Marcelo é uma peneira, Paulinho não consegue dominar uma bola, Gabriel Jesus não serve para jogar futebol, Coutinho não tem repertório e Fernandinho, bom, esse foi, por razões óbvias, o alvo predileto da ira nacional.

Esperei o tempo passar, a poeira baixar, a espuma da fúria secar – as coisas se assentarem, enfim – para procurar fazer uma análise menos apaixonada, com maior frieza e distanciamento emocional e, assim, poder depurar quais foram verdadeiramente os erros cometidos ao longo da trajetória.

O mérito de Tite

Em primeiro lugar, é importante pontuar que Tite fez, indiscutivelmente, um brilhante trabalho no decorrer do apuramento ao Mundial. Nas mãos de Dunga, o Brasil era o sexto colocado na tabela, apresentando um futebol pífio, correndo sério risco de não se apurar. Nas duas últimas partidas com o antigo treinador, empatou em casa em 2-2 com o Uruguai, após estar vencendo por 2-0, e, fora, também em 2-2 contra o Paraguai, após estar perdendo por 2-0. A instabilidade era a nota característica de um time sem confiança. No total, foram duas vitórias (Peru e Venezuela), três empates e uma derrota.

Nesse caminho, eliminações nos quartos-de-final para o Paraguai na Copa América 2015 (3-4 nos pênaltis, após 1-1 no tempo normal) e na primeira fase da Copa América Centenário (2016). Fragilidade defensiva, inconsistência ofensiva e ausência de qualquer tipo de padrão tático foram as marcas do período em que Dunga esteve no comando. Tite assumiu e logo venceu oito jogos seguidos (com direito a um 3-0 sobre a Argentina no caminho), o que levou o Brasil a ser o primeiro time, salvo a anfitriã Rússia, a se classificar para o Mundial 2018. E mesmo já classificado, concluiu o apuramento sem mais derrotas e jogando um futebol de alto nível. Na última rodada, diante de um Chile, atual bicampeão continental, que precisava desesperadamente do resultado para se apurar, mais um “passeio” do Brasil e vitória por 3-0. Isto não pode ficar esquecido, sob pena de se deixar o que houve de bom escoar na avalanche de críticas desmedidas.

A qualificação inatacável

Tite deu ao Brasil uma estrutura tática funcional e confiável, conseguiu fazer com que o time atuasse bem mesmo na ausência de Neymar, conferiu solidez defensiva e um repertório ofensivo razoavelmente vasto. Isto se viu nos amigáveis preparatórios para o Mundial, com vitórias, por exemplo, sobre a Alemanha e a Croácia, sem sustos e com imposição técnica. Especialmente, recuperou a autoestima em um balneário devastado após o vexame no Mundial anterior e deu à claque a esperança de dias melhores, o que claramente se pôde ver a partir da presença maciça de brasileiros em longínquo território russo.

Com efeito, não se pode, por exemplo, querer comparar 2014 com 2018. Em 2014, ninguém temia o Brasil, todos os adversários encaravam a canarinho “de igual para igual”, desde a estreia contra a Croácia, até a quase eliminação nos oitavos-de-final diante do Chile, para nem falar nos dez gols sofridos nos últimos dois jogos. Em 2018, todos os adversários que o Brasil enfrentou atuaram defensivamente – exceto a Sérvia, que já não tinha nada a perder. Suíça e Costa Rica preocuparam exclusivamente em se defender; o México até investiu algo no contra-ataque, mas também se acovardou no campo de defesa a maior parte do tempo; a Bélgica foi a primeira a tentar fazer algo enquanto tinha a bola, mesmo assim atuou de forma cautelosa. Talvez a França fosse a única equipe do Mundial em condições de tentar se impor diante do Brasil, mas possivelmente não corresse o risco. Enfim, recuperou-se o respeito e isto não é pouco após o ocorrido em 2014.

Os erros de Tite

Passemos, pois, a examinar mais de perto os erros de Tite – que não foram tantos, em número muito menor do que os acertos. Não vi problemas de relevo na montagem da equipe titular na preparação para o Mundial. O time que se apresentou para a estreia contra a Suíça tinha mesmo de ser aquele. Porém, é possível apontar erros na convocatória quanto aos reservas. O primeiro deles é a inclusão do avançado Taison, um jogador que – como todos previam – Tite simplesmente não teve coragem de utilizar em nenhum momento, tão longe estava do nível exigido para a principal competição de futebol do planeta. O outro, também evidente, foi a inserção do “trinco” Fred que, segundo revelou posteriormente a comissão técnica, estava lesionado desde o início da preparação, pelo que – nem é preciso dizer, mas vamos lá – deveria ter sido cortado e substituído por alguém em condições físicas adequadas.

Há outros equívocos – menos evidentes, mas ainda assim palpáveis – que podemos apontar. O primeiro deles é que Tite não se preocupou em buscar peças que pudessem oferecer alternativas para alterações táticas, especialmente no setor de meio-campo. O impacto causado por Douglas Costa contra Costa Rica e Bélgica mostra que é um fator que deve ser levado em consideração na construção do elenco. Tite se preocupou muito em encontrar reservas imediatos para “especialistas”, ao invés de optar pela diversidade e versatilidade. O segundo erro foi não abrir espaço no elenco para encaixar Arthur e Luan do Grêmio. O primeiro especialmente, um “trinco” de estilo moderno, técnica refinada, muita qualidade no passe e, embora já previamente vendido ao Barcelona, ainda desconhecido mundialmente, o que propicia um fator de surpresa que pode influenciar na dinâmica de jogo, tal como deixou claro Renato Augusto diante da Bélgica: fez um gol e esteve muito perto de anotar o de empate logo em seguida. Provável titular absoluto em 2022, Arthur não poderia ter ficado de fora da lista de 23 de agora. Acredito que, muito possivelmente, tomaria o lugar de Paulinho na equipe titular no decorrer da competição. Luan, embora tecnicamente não tão completo como o ex-companheiro de clube, propiciaria alternativas, pela versatilidade que possui, cabendo tranquilamente no lugar, por exemplo, de Taison. Tite falhou, portanto, na construção do elenco, um pouco por falta de experiência, outro tanto pela teimosia que lhe é característica.

Já no transcorrer do Mundial, o erro mais óbvio de Tite foi a insistência em Gabriel Jesus, que simplesmente não se encontrou em campo em nenhum momento. A meu sentir, é bom jogador e tem futuro, tecnicamente possui mais recursos do que Firmino, mas não viveu um bom momento no Mundial e deveria ter sido substituído por este. Mundial é momento e o de Firmino era visivelmente melhor. Faltou a Tite a experiência, o traquejo para enxergar que não estava numa competição de 38 jornadas (na qual se insiste em quem tem mais a oferecer no longo prazo), tal como está acostumado, mas sim num torneio de no máximo sete jogos, com duração de um mês. As mudanças precisam ser rápidas, as decisões devem ser tomadas sem maiores delongas, mas Tite ficou demasiado “preso” ao time que desenvolveu ao longo do apuramento, esperando que desabrochasse e, como se diz, morreu com ele afogado.

Momentos antes do Brasil-México

Este o erro mais evidente, mas pode-se apontar também Paulinho, que em nenhum momento justificou a permanência entre os 11. Jogador voluntarioso e explosivo, mas que peca pela baixa qualidade técnica, especialmente no passe, e ainda não é um marcador dos mais destacados. Fez um Mundial de se lamentar e deveria ter perdido o lugar no time titular. É certo que, com a suspensão de Casemiro, as opções ficaram restritas diante da Bélgica, mas muito pelo fato de se ter um jogador lesionado – Fred – entre os 23 convocados. Paulinho, após o Mundial, se despediu do Barcelona e retornou ao futebol chinês, o que parece revelar qual é o seu verdadeiro nível.

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