Opinião | Benfica, o e-mail que ninguém encontra 📩

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Ao empatar com o Portimonense em casa, para a Taça da Liga, num jogo em que esteve a vencer por 2-0, o Benfica pode ter comprometido em poucas semanas três dos quatro troféus que podia conquistar na época em curso, ficando agora dependente de resultados de terceiros. Seja qual for o desfecho do caso, os “encarnados” atingem um final de segundo semestre de 2017 de verdadeiro anti-clímax quando comparado com os primeiros seis meses do ano.

Com ou sem Taça da Liga, resta à “águia” aplicar toda a sua energia na Liga, uma novela com capítulo determinante já no próximo dia 3 de Janeiro, aquando da recepção ao Sporting. Um cenário curto, apesar dos apenas três pontos que separam o Benfica da liderança, um mal menor perante o clima de “crise” que o campeão nacional viveu nos últimos meses.

SEMESTRE DO TETRA ➡ SEMESTRE DE "TRETA"O Sport Lisboa e Benfica empatou 2-2 frente ao Portimonense Sporting Clube /…

Publié par GoalPoint.pt sur mercredi 20 décembre 2017

A “águia” produz menos?

Centrando a nossa atenção na Liga NOS, não deixa de ser curioso perceber, através dos números, que o Benfica não está tão pior assim, em termos de produção. Os “encarnados fazem mais remates enquadrados do que faziam por esta altura da temporada transacta (7,3 a cada 90 minutos contra 6,4 nas primeiras 15 jornadas de 2016/17), melhoraram a taxa de conversão (15,2% contra 12,4%), permitindo os mesmos remates enquadrados (cerca de três a cada 90m). O comparativo com semelhante evolução dos rivais permite perceber que, mais do que piorar a sua produção, as “águias” ficaram na mesma “paragem”, enquanto que Porto e Sporting subiram significativamente os seus índices, quantitativa e qualitativamente. A Liga está mais difícil e, provavelmente, o Benfica não se preparou para tal.

O que fez o Benfica “rei das vendas”?

No “olho do furacão” surge naturalmente o “réu” tradicional: o treinador. Rui Vitória será responsável por alguns erros, é certo, mas será o treinador o único ou sequer o principal culpado da forma titubeante como o Benfica vai progredindo na época?

É para mim difícil acreditar que sim perante outros factos, a meu ver, mais relevantes e até não explicados. Por esta altura já poucos o recordam, mas importa relembrar que o Benfica encaixou cerca de 130 milhões de euros em vendas no último defeso. Nesse processo perdeu quatro jogadores influentes, dos quais três constituíam óbvio desafio de substituição, Ederson, Nélson Semedo e Mitroglou (o quarto nome é o de Lindelof, a saída mais fácil de colmatar, até com soluções já existentes no plantel, uma opinião facilmente sustentada pelos números).

A este cenário juntavam-se os “alertas” que já vinham do passado, como seja a inexistência de uma alternativa de qualidade perante a ausência, tão previsível quão recorrente, de Fejsa, a igualmente recorrente indisponibilidade de Grimaldo ou a total dependência do “motor” Pizzi, na produção ofensiva “encarnada” (embora neste caso a chegada de Krovinovic tenha constituído uma excepção à regra, de efeito tardio e ainda por consolidar).

O que fez o Benfica neste cenário? Pouco, ou quase nada. Os “encarnados” investiram apenas cerca de nove milhões de euros em 13 reforços, dos quais apenas um, “Krovimodric“, comprovou acrescentar. Pelo caminho não só não resolveram qualquer dos problemas criados pelo sucesso comercial do Verão, como criaram mais alguns.

O exemplo dos guarda-redes… atirados à fogueira

Abdicando de uma análise exaustiva, até porque a prosa já vai longa, centro-me no caso mais inexplicável: o do guarda-redes. A “águia” viu partir um guardião de topo (Ederson), que defendia 82% dos remates que enfrentava e resolvia com sucesso 88% das saídas pelo ar (e que pelo caminho ainda mostrava excelência no capítulo do passe), para entregar a baliza a uma dupla sem o “BI de desempenho” necessário face às exigências da época (objectivo “penta”, qualificação Champions mais difícil em caso de insucesso, sinais de aposta mais forte dos rivais).

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Svilar: lançado rumo ao estrelato ou… à fogueira?

Criticar detalhadamente o desempenho de Bruno Varela e Miles Svilar com base nos números seria um exercício de resultado tão previsível como injusto. Mais do que os golos que já sofreram e os erros que cometeram (Varela lidera a tabela de jogadores que cometeram mais erros resultantes em golo na Liga, Svilar reparte o mesmo registo com outros três jogadores na Champions League), importa recordar que são ambos jovens (no caso de Svilar demasiado jovem, correndo-se no seu caso o risco de “queimar” um jogador cujo potencial está à vista de qualquer observador atento isento de clubite). E se no caso de Svilar é possível imaginar que, dentro de uns anos, possa replicar as qualidades de Ederson, já no que toca a Varela torna-se incompreensível como pôde o Benfica comportar as limitações (ex.: no capítulo do passe e a sair dos postes) que o guarda-redes formado no Seixal iria naturalmente trazer, enquanto titular.

É este o “e-mail” que ninguém encontra. Aquele em que a “águia” fecha os termos do negócio da vinda de um guarda-redes com desempenho e perfil adequados não só às necessidades directas que a posição exige, num clube como o Benfica, como também ao papel de “comandante” a que a função tantas vezes obriga, na coordenação do eixo defensivo. Pelo caminho os “encarnados” comprometem o futuro de um guardião que, no contexto correcto, poderia assumir o lugar de “sombra” fiável (Varela) e o de outro que, só no tempo certo, deveria ser “lançado à fogueira”, de modo a preservar o cumprimento do seu potencial (Svilar).

Conclusão? O Benfica desperdiçou um ano de “vacas gordas”, não só não resolvendo problemas existentes como criando novos, um contexto no qual Rui Vitória dificilmente será o único ou sequer o principal responsável.

Todo este tema só não é ainda mais incompreensível porque, no fundo, ilustra um clássico do futebol, o de um clube que atinge um patamar hegemónico e “relaxa” a clarividência com que prepara o futuro. Que o diga o FC Porto, que só agora parece dar sinais de retoma de erro semelhante, cometido há cinco anos.

Pedro Ferreira
Pedro Ferreirahttps://goalpoint.pt
Co-fundador da GoalPoint Partners, em 2014. Desempenhou entre 2011 e 2013 os cargos de Secretário-Geral da SAD do Sporting Clube de Portugal, Director da Equipa B e da Academia Sporting.
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