Ricardo Quaresma tem o perfil de jogador com o qual fui muitas vezes inclemente na avaliação e nas expectativas. Recordo-me de outros como Pedro Barbosa. Para a maioria dos adeptos os momentos de “génio” protagonizados por este tipo de jogadores resultam em “créditos infinitos” perante posteriores displicências.

Ronaldo já ganhou (quase) quase tudo, merecidamente. Vai tendo o prémio justo que a persistência por vezes reserva aos “trabalhadores”. Já Quaresma aguarda a consagração que nem sempre toca aos “fantasistas”.

Sempre me inclinei futebolisticamente para Cristiano Ronaldo. Não tanto por lhe identificar maior talento (no início de carreira eram ambos “fantasistas”) mas por se perceber bem cedo que Ronaldo queria ser o melhor, enquanto Quaresma queria ser… Quaresma.

Comigo sempre funcionava ao contrário, por vezes com injustiça. Ao associar tamanho talento a certos jogadores acaba por ser pouco misericordioso com aquilo que (à distância) me parecia desperdício. Recordo dos anos em que surgiram (primeiro) Ricardo Quaresma e (logo a seguir) Cristiano Ronaldo. Na altura discutia com amigos quem ia ser “o melhor do mundo”. Um exercício que já era, por si, um “esticão” mas quando somos jovens o futuro é fácil de antever pois já temos o mundo todo na mão. Depois, com o avançar dos anos, descobrimos que nada sabíamos, mas isso são contas de outro rosário.

Ronaldo não hesitou em abdicar do futuro “fantasista” para personificar progressivamente o perfil “mustang” (curiosamente a alcunha, a meu ver errada, de Quaresma): um jogador físico, explosivo e letal, que pouco ou nada faz lembrar hoje o miúdo que chegou à Premier League em 2003. Já Quaresma, falhando a afirmação internacional, nunca desistiu do que queria ser: o jogador dos momentos especiais.

Ronaldo já ganhou (quase) quase tudo, merecidamente. Vai tendo o prémio justo que a persistência por vezes reserva aos “trabalhadores”. Já Quaresma aguarda a consagração que nem sempre toca aos “fantasistas”. E, ao que parece, está disposto a lutar por ela. Por tudo isto gostava que o Euro 2016 fosse o momento do Ricardo.

Porque o trabalho e o talento determinado merecem ambos prémio.