“Nada será como dantes”. Este é, talvez, o vaticínio mais ouvido e lido – e ao mesmo tempo o mais vago – desde meados de Março, quando o mundo ocidental se viu perante o drama de ter de parar, “travão a fundo”, em praticamente todas as actividades que fazem a sociedade mover-se. Ao mesmo tempo que Governos e entidades tentam descobrir formas de controlar o Covid-19 e permitir o regresso a uma espécie de normalidade, também no Futebol se procuram soluções para que a época 2019/20 a nível nacional e europeu se conclua e os jogos sejam disputados, como parece ser o caso da maioria dos países – incluindo Portugal. Uma urgência que ultrapassa a simples paixão pela modalidade.

A sua mera sobrevivência está em causa, quer no seu todo, quer nas unidades que o sustentam, os clubes. Um pouco por todo o lado surgem emblemas que avançam para o “lay-off” de funcionários, para a redução de salários dos jogadores e técnicos, ou mesmo suspensão de pagamentos. Alguns clubes importantes de Ligas poderosas ameaçam fechar portas perante a ausência de receitas, ao mesmo tempo que as obrigações e despesas se mantêm mais ou menos constantes. Em simultâneo deparamo-nos com a evidência de que os nossos hospitais não estavam preparados, os heróicos profissionais de saúde afinal eram mal pagos, os sistemas de saúde estavam sub-orçamentados; e as notícias de potenciais transferências milionárias no Futebol, mesmo neste contexto, não parecem abrandar. Estaremos todos loucos?

Um travão na “lei da selva”

Um dos maiores clubes da Alemanha, o Schalke 04, está em perigo de fechar, dizem as notícias. Mas será caso único? Certamente que não. Se no Futebol amador fala-se já em jogadores a passar fome em Portugal, no profissional haverá situações de desespero entre aqueles que não ganham os milhões dos grandes craques ou, ganhando, não gerem as suas vidas de forma responsável. E se tal acontece com os jogadores, o mesmo aplica-se aos clubes. Estes ou preparam o futuro de forma diferente, ou correrão novos riscos, que chegam de vários lados. É urgente que a sustentabilidade dos clubes volte ao centro do debate, de forma a travar a irracionalidade que tomou conta do Futebol.

Não querendo entrar em discussões filosóficas ou ideológicas, a verdade é que assistimos há anos a transferências astronómicas, salários de jogadores em níveis obscenos, comissões milionárias para agentes que orbitam e alimentam-se do dinheiro que circula na modalidade, clubes propriedade privada de bilionários que fazem das instituições os seus brinquedos de fim-de-semana, injectando dinheiro de tal forma que subverte a própria competitividade do jogo e choca com as próprias regras dos organismos que tutelam o Futebol, a FIFA e a UEFA. As mudanças fundamentais têm de acontecer aqui, na forma desregulada como tudo acontece. Será crível que os clubes se auto-regularão? Ou terá essa regulação de vir de cima?

A forma como se procederá foge-me por completo, mas acredito que essas mudanças vão acontecer. São inevitáveis, ainda que não se realizem todas as necessárias, ou que se verifiquem a níveis de profundidade insuficientes. Actualmente, os clubes vivem acima das suas possibilidades, algo que em 2010 obrigou a própria UEFA sentir a necessidade de criar o Fair Play financeiro, um mecanismo que “visa melhorar a saúde financeira global do futebol europeu de clubes”. Muitos têm sido os emblemas alvo do escrutínio do organismo, alguns sujeitos a punições e limitações, pois a tentação de se gastar quantias astronómicas em craques e salários, muitas vezes recorrendo a fortunas de proprietários, não só criava uma espécie de “bolha” que fragilizava a própria lealdade da concorrência nas competições, como colocava em risco os próprios clubes.

Medidas essenciais

Nos anos 80 e 90 muito se falou em Portugal da necessidade de os clubes serem auto-sustentáveis, fugindo à dependência de “mecenas”. E esse problema parece ter regressado e agudizado a crise de alguns clubes, pouco ou nada preparados para lidar com a realidade quando o “tapete” lhes é retirado de debaixo dos pés. Assim, acredito que o bom-senso prevalecerá e serão colocadas em prática medidas de solidez financeira própria dos clubes, para que estes vivam sem a dependência de financiamentos externos de diversa índole. E como será isso atingido? De uma forma resumida:

Tectos salariais: As Ligas nacionais, em coordenação com os seus clubes, terão de encontrar uma plataforma de entendimento para a fixação de um tecto salarial. Em Espanha, a La Liga estabeleceu tectos salariais aos seus clubes no início da presente temporada, através de mecanismos específicos que contam com auditorias às contas, passando, entre outros detalhes, pelas transferências realizadas. O objectivo era o de travar a inflação galopante nos salários – que no caso do Barcelona, o mais gastador, foi fixado em pouco mais de €671M (!) – e salvaguardar o futuro das provas. Temo que esta medida tenha de ser generalizada e apertada, reduzindo substancialmente o máximo que cada clube pode pagar ao seu quadro de jogadores.

Limitação às injecções desreguladas de capital: O valor de mercado dos jogadores cairá a pique. Esta parece ser uma consequência natural da falta de liquidez dos clubes nesta altura, que perderam a quase totalidade das suas receitas. Os únicos que poderão ainda manipular o mercado a seu bel-prazer serão os que se precaveram e têm finanças sólidas ou os que têm por detrás o poderio financeiro dos seus proprietários. Este facto irá criar um desequilíbrio ainda maior entre estas potências financeiras e os outros clubes, pelo que a UEFA – que já limita a possibilidade de os proprietários injectarem indiscriminadamente dinheiro nas equipas – terá de reforçar o controlo desses movimentos, evitando assim o monopólio dos mercados de transferências por parte de uma minoria de emblemas e mantendo a competitividade das provas.

Controlo dos valores de transferências: Essa medida visará promover a queda abrupta dos valores gastos na contratação de jogadores, algo essencial para que, com o tempo, os clubes reequilibrem as suas contas. O perigo vem depois, quando essa recuperação se der. Não creio que os clubes, em tempo de vacas um pouco mais gordas, resistam à tentação de voltar a gastar descontroladamente, pelo que terá de ser criado um mecanismo para que não se repita a “lei da selva” do mercado de transferências, sob pena de os problemas regressarem na ocorrência de outra qualquer crise global. Racionalidade precisa-se.

Menor dependência dos direitos televisivos: o futebol parou por completo. As emissoras e detentores de direitos de transmissão vêem o seu negócio esvaziar-se e o pagamento aos clubes dos direitos televisivos (parte já pagos, outros por liquidar) também parou. Este é um dos dramas que assolam os clubes. Se há alguns que recebem pouco das televisões e já vivem menos dependentes desses montantes, há os que sustentam a sua actividade nessa fonte de receita – que atingiu valores perto dos 1,7 mil milhões de euros, por exemplo, na Premier League. Esta realidade remete-nos para a necessidade já referida anteriormente, de os clubes encontrarem formas mais sustentadas de solidez financeira, que prevejam a perda abrupta de algumas das receitas fundamentais. Se tal acontecer, todas as outras premissas virão por arrasto, ou seja, salários e valores de transferências terão de encontrar um nivelamento racional. A própria competitividade das Ligas beneficiará com isto.

Menos poder para agentes de jogadores: Ainda há poucas semanas foi revelado o valor que os clubes portugueses pagam em comissões a empresários. Esse valor, no total, atingiu os €83M, e estamos a falar de uma Liga em que o poder financeiro dos clubes é limitado. Os agentes são, em alguns casos, um dos principais sorvedores de recursos dos clubes e inflacionadores dos mercados de transferências e salários. Por mais difícil que seja remar contra o poder de figuras com tanta influência, a acção dos agentes tem de ser regulada, bem como as comissões que recebem. Tudo rigorosamente escrutinado.

Ligas com menos clubes: Debate antigo é o número de clubes por Liga. É sabido que quanto menos equipas um campeonato tem, mais competitivo este é e mais liquidez financeira gera aos emblemas participantes. Para a recuperação da saúde financeira do futebol é necessário aumentar a sua competitividade e atractividade, e tal só é possível diminuindo o número de equipas por prova. A situação actual em vários países é insustentável.

Acima das possibilidades

Entre profecias de que o Covid-19 é um mensageiro da natureza para nos salvar de nós próprios e ao ambiente, a teorias de que este é o momento para introspecções e epifanias pessoais, surge a constatação de que dificilmente o mundo será o mesmo após solucionarmos o problema. Não acredito, de forma alguma, que a óbvia consciencialização colectiva de que não somos indestrutíveis e de que, na realidade, pouco controlamos nas nossas vidas nos vá mudar como espécie – capaz dos feitos e criações mais extraordinários e, ao mesmo tempo, das acções mais egoístas e cruéis tendo como premissa o nosso interesse individual.

Não duvido que, mal o mundo se abra novamente à chamada “normalidade”, a maioria voltará a correr desenfreada para grandes superfícies a consumir como se não houvesse amanhã, pouco depois de os muitos “amanhãs” terem ficado em suspenso durante meses (alguns para sempre), pouco incomodados com os efeitos das nossas acções, a nossa pegada de carbono, os malefícios de uma vida centrada no superficial. É essa a nossa natureza, a natureza humana. Mas há consequências das quais não poderemos fugir, por mais que nos tentemos enganar. Durante muito tempo tentaram convencer-nos de que vivíamos “acima das nossas possibilidades”. De uma forma dramática, como se de um pesadelo se tratasse, chegamos facilmente à conclusão de que não eram os sistemas de saúde, de educação, de protecção dos cidadãos que nos faziam viver “acima das nossas possibilidades”. O Futebol, esse sim, vivia e ainda vive bem acima, e terá de arrepiar caminho.