A discussão está instalada. O Mundial de 2018 terminou e um dos factos mais relevantes que saiu do rescaldo da prova é o facto de a posse de bola, aparentemente, ter deixado de ser o paradigma do sucesso, para quem apresentasse argumentos tácticos e de qualidade individual para tal. Este é um debate fundamental, tendo em conta o que os últimos dez anos de futebol nos quiseram ensinar. E a culpa é de Pep Guardiola, que chegou a afirmar:

“O que eu quero, o meu desejo, é ter 100% de posse de bola. Com ela, temos mais possibilidades de criar algo e menos de sofrer golos”

Já percebeu certamente onde quero chegar. Guardiola foi o grande responsável pelo regresso do paradigma da posse de bola em força ao futebol europeu e até Mundial – é verdade, não foi o primeiro a aplicá-lo -, a um nível quase extremo no Barcelona, de forma menos vincada no Bayern e no Manchester City. Ao ponto de influenciar os sucessos de selecções como Espanha e Alemanha rumo a títulos europeus e mundiais. Sim, a influência de Guardiola chegou a esse ponto, com os seleccionadores destes países a aproveitarem inteligentemente os mecanismos de jogo que alguns dos seus internacionais desenvolveram entre si.

Eis que chegamos a 2018 e, aparentemente, tudo mudou. Mas será que mudou mesmo? Se olharmos, em primeiro lugar, para o novo campeão do Mundo, sim, é caso para dizer que mudou mesmo. Desde 2002 que não havia um campeão a vencer a final com menos posse de bola – Brasil, com 44%, seguindo-se Itália com 55% em 2006 e Alemanha com 61% em 2014. Desta vez, França não teve mais de 35% de tempo com bola perante a Croácia. E não foi caso único da selecção gaulesa durante a prova, pois, ante a Argentina, nos oitavos-de-final, não passou dos 40%, e nas “meias” registou 36%, o suficiente para atirar a Bélgica para fora da decisão.

Os casos extremos de Alemanha e Espanha

Ao olharmos para o que foi o Mundial, saltam à vista de todos duas selecções que terminaram com uma impressionante média de posse de bola: Espanha e Alemanha. Não foram longe na prova, demonstrando uma grave inoperância na frente com vista a transformar esse domínio em vantagem no marcador. Os espanhóis terminaram mesmo como a equipa com mais posse de bola média no Mundial, nada menos que 75%, e não foram além dos oitavos-de-final, perdendo com a Rússia nas grandes penalidades – nesse jogo tornaram-se na primeira equipa a tentar mais de 1000 passes num só encontro do Mundial. A segunda formação com mais bola foi a Alemanha, com uma média de 72%, e nem da fase de grupos passou. Mas há mais, como pode conferir na tabela seguinte das dez equipas com mais posse no Mundial… mais a campeã França.

Equipa% posse de bolaFase alcançada
Espanha75%Oitavos-de-final
Alemanha72%Fase de grupos
Argentina66%Oitavos-de-final
Arábia Saudita59%Fase de grupos
Suíça59%Oitavos-de-final
Brasil59%Quartos-de-final
Croácia57%Final
Inglaterra54%Meias-finais
Japão53%Oitavos-de-final
Portugal53%Oitavos-de-final
França49%Campeã

Fonte: GoalPoint/Opta

Croácia e Inglaterra são excepções neste panorama, no qual vemos formações como a Argentina, para além das duas que referimos anteriormente, a mostrarem muitas dificuldades para consumar em golo o domínio territorial que alcançaram. Ou mesmo o Brasil, deixando de lado a Arábia Saudita, que entra aqui um pouco como “outsider”. Ou será que é mesmo assim? Será certamente, mas há um detalhe na formação orientada por Pizzi que nos fez olhar para além da mera posse de bola: a qualidade no ataque, seja ela estrutural ou meramente contextual.

Se no caso da Arábia Saudita, quarta selecção com mais posse de bola médio no Mundial (apesar de ter realizado apenas três jogos), a questão é mesmo estrutural (falta de qualidade generalizada no ataque), há outras selecções consagradas cuja ineficácia na hora de concretizar é, acreditamos, temporária, ou contextual relativamente a este Mundial. Um olhar para algumas das principais estatísticas ofensivas, como passes para finalização, criação de ocasiões flagrantes de golo e taxa de concretização, deixa-nos com a ideia de que a posse de bola, por si só, não explica tudo o que falámos acima e não será certamente esta a causadora dos maus resultados de certas selecções.

EquipaPasses finalização p/jogoOcasiões flagrantes p/jogo% taxa conversão
Alemanha19.01,72,8%
México11,50,55,0%
Arábia Saudita8,70,05,4%
Marrocos8,30,35,9%
Brasil16,22,27,7%
Espanha13,51,39,7%
Suécia8,21,810,9%
Argentina9,50,810,9%
Portugal9,80,811,3%
Uruguai8.01,611,6%
Croácia11,11,112,4%
Inglaterra10,11,612,8%
Bélgica12,32,615,1%
Colômbia7,31,315,4%
França8,30,617,3%

Fonte: GoalPoint/Opta

As contas são simples de fazer. Por mais bola que se tenha, como foi o caso da Alemanha – que ainda por cima foi a equipa que mais passes para finalização realizou por jogo, com um bom número deles a tornarem-se ocasiões flagrantes -, quando a competência ofensiva é praticamente inexistente, não há sucesso possível. Os germânicos registaram uma taxa de concretização dos seus remates de apenas 2,8%, um número assustadoramente baixo para uma selecção do seu gabarito, campeã do Mundo até este certame da Rússia. A clara baixa de forma dos seus avançados é uma boa explicação para o desastre, como foram os casos de Mario Gómez e Thomas Muller. Mas não foi caso único.

Espanha criou um número apreciável de passes para remate, mas poucas ocasiões flagrantes, o que contribuiu apenas para uma taxa de conversão em golos mediana. O mesmo aplica-se para equipas como Marrocos (que encantou, mas faltou-lhe claramente um goleador e um homem que soubesse estar no sítio certo na área), Arábia Saudita (que não criou uma única ocasião flagrante) ou mesmo o Brasil, exímio a criar passes para remate (só Neymar fez 23) e ocasiões de golo claras, mas com uma conversão de apenas 7,7%. Depois, no extremo oposto, França. A campeã do Mundo foi uma das equipas com percentagem de posse de bola abaixo dos 50%, criou poucas ocasiões flagrantes (0,6 por jogo), mas foi a selecção em todo o Mundial com a mais elevada taxa de conversão dos seus remates, nada menos que 17,3%.

As tendências e o futuro

Muito se diz que os Mundiais estabelecem tendências para o futebol. Esta é uma afirmação verdadeira, mas apenas em parte. Neste Rússia 2018 marcaram-se 31 golo de bola parada, 26 deles a partir de pontapés de canto, muito por culpa, como foi referido na análise à competição para o SAPO Desporto, das experiências que se realizaram na prova, do regresso às marcações individuais nos cantos, em detrimento de à zona, e que, aparentemente, não terá resultado como esperado.

Acredito que os Mundiais são palco para estes pequenos testes e detalhes de jogo marcarem tendências, para ficarem ou serem esquecidos. Questões como estratégias, tácticas, modelos e filosofias de jogo são estabelecidos no futebol de clubes, e não o inverso. Como já referi anteriormente, foi Guardiola a influenciar selecções, e não o contrário. É verdade que França ganhou jogos e o Mundial, recuada e na expectativa do erro, que Alemanha e Espanha dominaram a posse e ficaram cedo pelo caminho, que selecções como a Rússia, a terceira com menos posse (36%), chegou aos quartos-de-final, e jogos houve em que selecções quase sem bola, ganharam. Essa é uma tendência que poderá prolongar-se em certames deste tipo e em provas a eliminar, onde a estratégia momentânea traz frutos. Mas não acredito que tal se transfira para o futebol de clubes e para as Ligas.

Retirava-me do futebol se a posse de bola não funcionasse“, disse Guardiola, esse sim um definidor de tendências. E acredito que continuará a funcionar, mesmo tendo consciência que os treinadores, com os anos, aprenderam a lidar e a bloquear “tiki-takas” e ideias similares, e que, no treino, já não há grandes segredos. Há é que saber usá-la e criar os mecanismos ofensivos que a faça dar frutos. Não acredita? Deixo, a seguir, como seriam as classificações na Liga NOS, Premier League e La Liga se fossem ordenadas pela posse de bola. Tire as suas próprias conclusões.

PosiçãoEPLLa LigaLiga NOS
1Manchester CityBarcelonaBenfica
2TottenhamReal MadridRio Ave
3ArsenalBetisFC Porto
4LiverpoolReal SociedadSporting
5ChelseaCelta VigoChaves
6Manchester UtdLas PalmasBraga
7SouthamptonSevillaEstoril
8WatfordEibarOs Belenenses
9BournemouthVillarrealPortimonense
10LeicesterAth. BilbaoBoavista
11Crystal PalaceValenciaVitória Guimarães
12EvertonAtl. MadridVitória Setúbal
13West HamGironaPaços Ferreira
14HuddersfieldLa CorunaAves
15SwanseaEspanyolMoreirense
16BurnleyMalagaFeirense
17BrightonLeganesMaritimo
18NewcastleLevanteTondela
19StokeAlaves
20West BromGetafe

Fonte: GoalPoint/Opta