Há muito que os adeptos se habituaram a usar as palavras “atitude”, “garra” e outros sinónimos para explicar o sucesso ou insucesso de uma equipa. Se a exibição é boa, houve “atitude”. Se o desempenho é sofrível, faltou “garra”. A frequência com que recorremos a estas “muletas” andam de mão dada com a intensidade das nossas emoções futebolísticas e o grau de conhecimento que temos do jogo.

Estas “métricas” acabam por funcionar como os signos, e daí o sucesso secular da astrologia: perante a minha incapacidade para explicar ou compreender a realidade recorro a muletas populares, nas quais opto por acreditar, mesmo sem saber bem porquê. Até aqui nada de realmente grave, ou não estivessem os nossos media cheios de “astrólogos”, na hora de nos explicar e assim valorizar o Futebol. Mas já lá vamos.

Comecemos pelas palavras de um jogador, o médio Christoph Kramer, campeão mundial em 2014, que descobrimos no twitter do “nosso” Luís Cristóvão.

“O jogo é muito mais acerca de coisas do futebol do que a maioria pensa”, afirma Kramer. Ele deve sabê-lo, bem melhor do que eu. Joga o jogo, num patamar de exigência elevado e num Futebol pouco dado a “astrologias”, o germânico.

O adepto tem a tendência para reduzir o que vê em campo a questões de mentalidade e “atitude”. Mas o chegar tarde aos lances, não aparecer no local certo ou falhar um duelo individual tem, na maioria das vezes, explicações futebolísticas, quando o que devia ser a excepção passa a ser recorrente, num jogo. Essas explicações são não só individuais (ex.: qualidade dos atletas, condições físicas) como também colectivas (as opções tácticas e estratégicas, o trabalho que é feito durante a semana, escondido do olhar público).

Por vezes, o resultado desse trabalho futebolístico confunde os adeptos. Como é possível que a mesma equipa que mostrou esta “atitude” recentemente mostre outra “mentalidade” passado poucos dias? A resposta até é normalmente simples, mas raramente a encontramos, quando confrontados com estes dilemas: provavelmente porque o que mudou nada tem que ver com as “métricas” que referimos.

A recente (e convincente) vitória do Sporting sobre o Braga terá gerado em muitos adeptos leoninos essa dúvida acerca da sua equipa. Muitos deles terão tido dúvida semelhante (e feito a sua leitura) quando o adversário agora batido visitou e saiu goleado da Luz.

A explicação mais simples do que se passou em Alvalade é bem mais futebolística do que um eventual milagre psicológico ocorrido em poucos dias. Keizer apresentou uma grande “surpresa”, na forma como dispôs a sua equipa. O holandês optou por três centrais, um deles Borja adaptado, laterais/alas bem abertos e um meio-campo que, pela sua disposição e características, se superiorizou aos homólogos do Braga. A “surpresa” correu bem aos “leões”, que pareciam ter “outra atitude”, da quantidade de remates realziados dentro da área (6) à posse (chegou a ultrapassar os 70%) passando pela conquista de duelos individuais (63 ganhos, contra 49 do adversário).

Para alguns adeptos “guerreiros” os seus jogadores terão entrado em campo com má “atitude”. Mas por esta altura o leitor, inteligente, já estará a juntar as peças e a concluir o óbvio: o jogo foi preparado pelos bracarenses tendo em vista cenários nos quais não se inscrevia a “surpresa” de Keizer e suas consequências. E isso não significa menos preparação ou pior “atitude”. Significa apenas e só… Futebol.

O facto de o adepto reduzir o treinador a uma espécie de “educador de infância” e opções estratégicas e tácticas a um pormenor tão inconsequente como o seria num jogo de matraquilhos é natural e compreensível. O que é menos natural e aceitável, num país com a importância que o Futebol tem em Portugal, é ver programas televisivos e colunas de opinião jornalísticas preenchidos por quem, ao invés de valorizar a riqueza do jogo, opta por reduzi-la, por ignorância.

Para quando conteúdo futebolístico que aponte à discussão do Futebol, em substituição da insuportável dialéctica do debate de “Clubebol”? Uma pergunta que parece dirigida mais aos responsáveis dos media, mas que suspeito só terá resposta quando o segmento dos patrocinadores e anunciantes bater o pé.

Até surgir a resposta deixo-lhe uma dica. Na próxima vez que vir, ouvir ou ler alguém reduzir um jogo de futebol à “mentalidade”, “atitude” ou “garra”, sem óbvias razões para o fazer, mude de canal ou vire a página. A sua paixão pelo Futebol merece mais.