Opinião | Nélson Semedo, o menor dos problemas da Selecção

-

A derrota de Portugal frente à Alemanha por 4-2 iniciou uma série de debates sobre o que correu mal, avaliações tácticas, reparos a opções do seleccionador Fernando Santos, num atira-culpas típico – obviamente legítimo – de quando as coisas correm mal. O “culpado maior” para muitos foi Nélson Semedo, pois foi pelo seu flanco que a Alemanha construiu a maioria dos seus lances de perigo e foi por aí que Robin Gosens aproveitou a “auto-estrada” lusa para causar estragos. Ora, essa simples conclusão parece-me, além de muito redutora, totalmente injusta. Escrevia este texto quando José Mourinho “veio” em meu auxílio – sem saber – num artigo no jornal The Sun.

“Em Portugal toda a gente culpa Nélson Semedo pela derrota com a Alemanha, porque os golos apareceram pelo lado dele. Mas a situação seria a mesma, independentemente do lateral-direito. Não foi culpa do Semedo, mas sim da situação em que ele foi colocado” (José Mourinho)

Esta constatação tive-a bem cedo no jogo, “a olho”, algo que fui comentando com os meus colegas da GoalPoint – com a concordância destes. O lado direito de Portugal não estava a funcionar e Semedo estava a levar com “as culpas” simplistas que caem sempre nestas alturas, sem a noção do peso das dinâmicas colectivas (ou falta delas) nos eventos de uma partida. Não quero com isto dizer que os jogadores têm sempre a absolvição garantida, socorrendo-se deste argumento, mas este pareceu-me um caso gritante em que o jogador é mais vítima da inoperância colectiva e das opções do treinador do que réu por culpa própria.

Para afastar desde já a ideia muitas vezes vista de que o lateral-direito foi “ultrapassado” vezes sem conta, quatro detalhes fundamentais, recorrendo aos dados objectivos do jogo: 1 – Nélson não foi driblado uma única vez; 2 – Robin Gosens não tentou um único drible em todo o jogo; 3 – O alemão tentou dois cruzamentos, nenhum eficaz; 4 – Semedo fez um bloqueio de cruzamento. Fica difícil, perante estes factos, não perceber que a “auto-estrada” para Gosens percorrer foi “asfaltada” pelas opções tácticas, a má leitura do jogo a partir do banco, com reflexo no posicionamento dos jogadores. E essa constatação abre-nos a porta para um olhar mais aprofundado sobre o que aconteceu.

Duplo-pivot a ver jogar

Não vos quero cansar com demasiada informação, pelo que recorro aos nossos mapas mais importantes deste jogo para uma mais rápida informação visual. A começar por dois jogadores que, parecendo que não, tiveram um forte impacto no… desempenho de Nélson Semedo: William Carvalho e Danilo Pereira – também eles vítimas das opções, o que explica muita coisa. Os “heatmaps” e mapas de acções com bola dizem muito – os de acções defensivas e recuperações vão pelo mesmo diapasão, embora com dados residuais, pelo que não coloco aqui. Ambos fixaram-se em zonas centrais, mesmo que mais recuadas, aventurando-se pouco nas alas.

[ Os “heatmaps” e mapa de acções com bola de William e Danilo ]

A ideia era clara, conseguir ombrear com os fortes alemães na titânica luta do meio-campo, equilibrando assim as operações no eixo central. A intenção era boa, mas “de boas intenções está o inferno cheio” e por aqui começou o mau jogo de Portugal, pois Joachim Löw não caiu na “armadinha”.

Como poderá constatar pelos mapas abaixo, de passes ofensivos valiosos e passes aproximativos (com redução de distância para a baliza em pelo menos 25% e pelo menos dez metros), os germânicos privilegiaram as entregas para as alas ou para as zonas interiores laterais, deixando um enorme vazio no eixo central do meio-campo e até da grande área. Danilo e William, bem como Pepe e Rúben Dias, ficaram a “marcar-se uns aos outros”, com os centrais (e os laterais) a terem de lidar ainda com incursões diagonais de Müller, Havertz e Gnabry.

[ À esquerda os passes ofensivos valiosos da Alemanha, à direita os passes aproximativos ]

[ As conduções aproximativas da Alemanha ]

goalpoint-GER-carries-vs-POR-19Jun-SELEC
Clique para ampliar

Em progressão com bola, nas conduções aproximativas (mapa acima), os jogadores alemães também privilegiaram as alas e as zonas interiores laterais, mais uma vez deixando William e Danilo a ver jogar, sem possibilidade de aplicar acções defensivas relevantes. Facto que se prolongou durante tempo demais, não se compreendendo a demora em desfazer esta dupla. Quem pagou as favas? Os laterais, em especial Semedo.

Escolher entre o mau e o péssimo

BOTOES

Sem ajuda de nenhum dos médios-defensivos, tanto Raphaël Guerreiro, na esquerda, quanto Nélson Semedo, na direita, viram-se desamparados na tarefa de travar a “Cavalgada das Valquírias” alemãs, que surgiram em velocidade, de trás, com elementos colados à linha (Gosens na esquerda do ataque, Joshua Kimmich na direita) e outros a surgirem nas tais zonas interiores, como Müller, Gnabry ou Havertz. E em diversas ocasiões, e em alguns golos, deu para perceber que nem Bernardo Silva, nem Renato Sanches, nem Rafa, nem mais ninguém aparecia a tapar as subidas destes alemães, dando ajuda aos laterais.

[ Mapas de Gosens, Gnabry e Havertz ]

E foi este o cenário com que, no caso, Nélson Semedo se deparou. Em vários lances, Gnabry surgiu entre o central da direita e Semedo, em posição privilegiada de finalização, em simultâneo com Gosens, este colado à linha. A Semedo deparava-se uma escolha difícil, ou quase impossível para o êxito. Se em diversos momentos se notou que o lateral luso tinha claras ordens para fechar por dentro, nestes lances em específico, na grande área, e caso tivesse “livre arbítrio”, a escolha iria dividir-se sempre entre atacar Gnabry, em plena área, ou Gosens, na linha. E Semedo escolheu sempre bem – Gnabry, aliás (ou quem surgia ali), pouco ou nada fez a não ser arrastar adversários -, acorrendo àquele com maiores possibilidades de marcar. Mas isso obrigava a deixar Gosens, que surgia sem marcação, sem nenhum outro português na cobertura e com liberdade para integrar-se na área.

[ “Heatmap” e acções com bola (direita) de Nélson Semedo ]

Em suma, Nélson Semedo foi “atirado aos leões”, sem alternativa a não ser escolher o mal menor, mas seria quase impossível, perante o desamparo completo, evitar o descalabro que se verificou pelo seu lado. Como diz José Mourinho, e bem, “a situação seria a mesma, independentemente do lateral-direito”, nós arriscamo-nos a dizer que nem João Cancelo (muitas vezes falado) teria resolvido. Nem ninguém. E no fim fica demonstrado que, para exercermos o nosso legítimo direito à crítica, deveremos munir-nos da informação o mais completa possível, e não rendermo-nos ao óbvio.

Pedro Tudela
Pedro Tudela
Profissional freelancer com 19 anos de carreira no jornalismo desportivo, colaborou, entre outros media nacionais, com A Bola e o UEFA.com.