Andrés Iniesta anunciou a saída do Barcelona no final da temporada, após 22 anos em que não conheceu outras cores que não as do “blaugrana”, enquanto profissional. Disse o discreto espanhol que já não era capaz de apresentar o nível que um clube como o Barça merece, um momento bonito e condizente com o que sempre foi, dentro e fora de campo.

Para lá de humilde, Iniesta é perspicaz. O médio tem razão na análise que faz, prestes a terminar uma época na qual soma apenas dois golos e três assistências em cerca de 2.627 minutos de futebol jogado. Mas mais importante do que a forma como termina é a imagem que deixa para o futebol.

Andrés sempre foi tudo menos o protótipo do futebolista moderno. A sua imagem está longe do protótipo de “craque” atlético, que Cristiano Ronaldo tornou sinónimo de sucesso, ao ponto de, em brincadeira entre amigos, dizermos que Iniesta tinha mais aspecto de contabilista do que de jogador de futebol. Um estereótipo tão perigoso, nesta era do politicamente correcto, como alheio à magia que sempre mostrou com uma bola à sua frente.

O perfil atípico do espanhol não se ficava apenas pelo facto de não mudar de cor de cabelo todas as semanas ou não partilhar regularmente a sua vida privada nas redes sociais, algo que também o separou da “nova vaga”. Iniesta sempre foi correcto e discreto, dentro e fora das quatro linhas.

Iniesta nunca ofereceu motivos superficiais de distração que escondessem aquilo que realmente interessava: o talento e a inteligência em campo. O facto de ter actuado muito tempo ao lado de um outro jogador igualmente tão genial quão discreto, Xavi, tornou a sua presença combinada única e inesquecível, muito para lá da “chuva” de títulos que conquistaram.

Para a História, Andrés Iniesta não deixa Bolas de Ouro, polémicas inesquecíveis, penteados que viraram moda ou marcas de roupa interior. Mas deixa algo bem mais importante: o exemplo de que é possível estar entre os melhores, deixando um legado de ética profissional e discrição mediática que apenas um talento incrível com a bola nos pés permite eternizar, no futebol dos dias de hoje.