A 5 de Abril o futuro de Jorge Jesus no Sporting parecia seriamente comprometido. O Sporting preparava-se para defrontar o Atlético em Madrid após uma derrota traumatizante em Braga, com o treinador a “entregar os pontos” na sala de imprensa, naquilo que parecia ser a primeira página do epílogo de uma época mais uma vez abaixo das expectativas (e investimento) do clube, adeptos e opinião pública em geral. Passadas menos de duas semanas a situação mudou radicalmente. Porquê? Porque Jorge Jesus terá oferecido, na minha opinião, os 12 dias mais brilhantes da sua carreira. Passo a explicar.

A minha avaliação não decorre de qualquer detalhe técnico-táctico que normalmente suscita este tipo de reconhecimento, mas sim da forma como geriu aquela que foi (é?) provavelmente a crise mais atípica e difícil com que um treinador de um “grande” português foi confrontado nas últimas décadas. Sobre a crise, essa, já muito foi dito e pouco ou nada tem que ver com o futebol jogado. Mas a forma como Jorge Jesus a geriu, no que respeita à gestão do grupo que comanda e à sua imagem externa, essa sim teve visíveis consequências dentro de campo, com benefícios para o próprio, equipa e adeptos que, muitos deles, fariam já contas à sua saída há menos de 15 dias.

Durante esta fase o Sporting defrontou Paços de Ferreira, Atlético de Madrid, Belenenses e Porto. Mais do que levar o “leão” à vitória em todos os jogos, o que conseguiu, Jesus conduziu os seus jogadores à reconquista de adeptos e críticos, atingindo registos até então difíceis de prever. O mesmo Sporting que, a dada altura, permitia mais remates à sua baliza do que alguma vez tinha “autorizado” sob o comando de “JJ”, enfrentou tantos disparos (2) do Paços de Ferreira como os que permitiu aos “tubarões” Atlético de Madrid e FC Porto. Golos sofridos nesses jogos? Zero. Não fosse a excepção da deslocação a Belém e Jesus e seus jogadores teriam apresentado uma folha de serviço limpa, mas nem por isso deixaram escapar a vitória, também nesse jogo.

O futebol leonino que Jorge Jesus apresentou esta época pode não encantar, no plano quantitativo ou qualitativo, mas uma coisa é certa: o treinador sportinguista mostrou, nos últimos 12 dias, o “serviço” que separa os verdadeiros líderes dos demais treinadores, num contexto onde provavelmente todos esperariam o contrário, grupo no qual me incluo.

O mesmo “mestre da táctica” que outrora concluiu épocas empurrado por jogadores, apresta-se a terminar 2017/18 como o timoneiro que equilibrou uma nau que muitos previam que naufragasse. O brilhantismo da sua actuação ultrapassa muito o plano técnico e, provavelmente, só teremos conhecimento da sua extensão e detalhe numa qualquer biografia com publicação agendada dentro de muitos anos, da autoria do próprio ou de um dos seus comandados.