(este artigo está escrito em português do Brasil)

Pode um brasileiro torcer pela Argentina? A pergunta tomou de assalto um grupo de Whatsapp que congrega cerca de 250 adeptos brasileiros que estão na Rússia, num debate acalorado e apaixonado, enquanto a Argentina discutia a vaga no “playoff “na partida diante da Nigéria – que viria a vencer por 2-1. Alguns afirmavam que seria mais ou menos como um adepto do Benfica torcer pelo Sporting, ou Porto, ou vice-versa, na Champions League – ou seja, inaceitável. Outros sustentavam que não há razão para torcer contra um vizinho e a favor de equipas de outro continente.

É importante consignar, para situar o debate, que a rivalidade entre Brasil e Argentina é de caráter essencialmente – ou quase exclusivamente – futebolística, visto que a relação – política, militar e econômica – entre os países é desde sempre amistosa. Convém, contudo, perscrutar o porquê de tal rivalidade esportiva.

O primeiro ponto é: porque a rivalidade é [tão] maior com a Argentina do que com o Uruguai? Deveras, o Uruguai é historicamente um rival muito mais ingrato à seleção canarinha, conquistou o título do Mundial em 1950 sobre o Brasil – e no Brasil – e é a seleção mais vezes campeã da Copa América. Já se enfrentaram também numa semifinal de Mundial, em 1970, desta feita com vitória brasileira. Brasil e Argentina, embora tenham se enfrentado mais vezes (4), jamais se encontraram numa fase tão derradeira da competição. Estiveram frente a frente em três torneios consecutivos: o Brasil venceu em 1974 (2-1, Grupo A da segunda fase) e em 1982 (3-1, Grupo 3 da segunda fase), mas em ambas as situações, as duas equipes foram eliminadas – e houve um empate por 0-0, em solo argentino, em 1978 (a Argentina acabou por se classificar após a polêmica vitória por 6-0 sobre o Peru).

O ambiente entre brasileiros e argentinos aqueceu antes do Argentina-Islândia

O confronto mais “quente” ocorreu em 1990, pelos oitavos-de-final, quando a Argentina, que vinha trôpega, conseguiu vencer por 1-0 – gol de Caniggia, em bela jogada de Maradona -, em jogo que o Brasil esteve no controle durante a maior parte do tempo. Esta última vitória, inclusive, é reproduzida no famoso cântico entoado pela claque argentina “Brasil, decime qué se siente”, criada para o Mundial 2014.

Ademais, o Uruguai tem uma relação histórica um pouco mais conturbada com o Brasil, uma vez que o território que atualmente pertence ao Uruguai chegou a ser temporariamente incorporado pelo Brasil (à época, ainda parte do Império português) – era a “província Cisplatina” – e foi preciso buscar a independência por meios não propriamente pacíficos. De todo modo, são turbulências remotas, ainda que relembradas em monumentos existentes em solo uruguaio.

Entrada da Argentina e da Croácia em campo

Rivalidade artificial

Então – repiso – qual é a razão? Em parte, a rivalidade Brasil-Argentina é demasiado vitaminada – diria até artificialmente – por setores da imprensa de ambos os países, numa postura, de certo modo, romântica. Em síntese, acreditam que isto alimenta o futebol. De outra parte, se extrai um pouco também dos confrontos entre os dois países a nível de clubes, intensos e recorrentes na Copa Libertadores da América nas últimas três décadas especialmente. É certo, ademais, que, neste mesmo período, foram, com alguns altos e baixos, as seleções mais representativas do continente, vez que o Uruguai tem tido presença inconstante em Mundiais (esteve fora em 1994, 1998 e 2006), enquanto Brasil e Argentina têm estado sempre lá e costumam avançar até as fases finais.

É possível também atribuir a uma disputa – mais implícita do que ativa – que os dois países nutriam pelo protagonismo econômico regional, até a Argentina, a partir da década de 1990, mergulhar numa crise econômica gravíssima da qual nunca mais conseguiu se recuperar totalmente, enquanto o Brasil ascendia até chegar a ser a quinta maior economia do mundo, embora atualmente também vivencie situação crítica de forte recessão. Ao fim e ao cabo, é considerada, por todos os lados, a maior rivalidade entre seleções do futebol mundial.

Pois há quem não concorde muito com isso e eu mesmo sou um deles. Por um lado, já visitei a Argentina inúmeras vezes, fui sempre muito bem recebido, tenho admiração por vários fatores que notabilizam aquele país e não vejo muito sentido em desviar o meu apoio para seleções de outro continente (exceto, no meu caso particular, a Portugal, por razões óbvias) em detrimento de vizinhas. E, nesse sentido, faço constar que mesmo aqueles brasileiros que vão contra a Argentina, se levantam a favor dos demais vizinhos de continente, como o próprio Uruguai, ainda que estejam antes na linha de preferência a Colômbia e o México, cujo povo se assemelha, na alegria e irreverência, ao brasileiro muito mais do que os outros.

Paixão inabalável

Ademais, a paixão que os argentinos demonstram pelo desporto e por sua seleção é realmente inspiradora. O ocorrido por ocasião do Mundial de 2014 demonstra isso mesmo. Uma multidão de argentinos viajou o longo trecho terrestre até o Brasil, carregando uma mochila com duas ou três mudas de roupa, sem qualquer programação, muitas vezes com ticket para apenas uma partida ou outra, mas dispostos a acompanhar sua seleção até o fim. Eu mesmo me recordo bem que regressava de Brasília para Belo Horizonte (cerca de 730km) de ônibus, após ter presenciado o Argentina 1×0 Bélgica, pelo quartos-de-final, quando me deparei, no terminal de ônibus, com um grupo de aproximadamente uma centena de argentinos, que buscavam um assento disponível em algum dos veículos que fariam o trecho logo mais. De Belo Horizonte, tomariam outra condução até São Paulo (mais 570km, totalizando 1300km, mais do que o suficiente para ir e voltar de Faro a Braga ou de Lisboa a Madrid), local da próxima partida, semifinal contra a Holanda.

A imensa maioria não tinha sequer ingresso para tal jogo, nem ao menos hospedagem reservada. Segundo dizem os relatos, muitos, ao chegar ao Rio de Janeiro para a final com a Alemanha, dormiram em acampamentos improvisados na praia, outros em praças, ao relento; muitos não conseguiram ticket para a partida e assistiram ao jogo no telão instalado em Copacabana. Enfim, não me parece fácil desejar o mal a gente disposta a sacrifícios tão grandes, pois é justamente isso que eu admiro no futebol: o amor incondicional ao desporto.

No presente momento, estou já há 18 dias longe de casa, com potencial para mais 17, dormindo em habitações nem sempre muito confortáveis, por vezes sem banheiro privativo, me alimentando erraticamente, com dificuldade imensa de comunicação num país que – embora extremamente receptivo – pouco fala inglês, me deslocando por grandes distâncias em comboios lotados, tudo para, se Deus quiser, poder ver presencialmente o Brasil buscar a sexta estrela em Moscou no dia 16 de julho. Então, se me pedirem para torcer contra a Argentina, peço desculpas, mas não posso.