“Quantos quilómetros correu o Zé Manel?”

Esta é uma pergunta frequente que nos fazem, via twitter ou facebook, após um jogo. Informamos sempre que, por um lado, não trabalhamos com dados que o permitam aferir (os dados Opta que analisamos centram-se nas acções com bola) e, por outro, que esses dados são irrelevantes, lidos sozinhos e alheios a outros indicadores.

O futebol não é atletismo. Se o fosse não tinha uma bola e objectivos que divergem bastante de uma maratona ou uma corrida de 100 metros. Mas quero com isto dizer que os quilómetros percorridos pelos jogadores não interessam? Nada disso. Mas da forma como são apresentados nas transmissões e media, de facto, não interessam e até servem conclusões erradas.

A França acaba de se sagrar campeã Mundial. O futebol dos comandados de Deschamps pode não ter agradado a todos, mas é justo afirmar que os gauleses foram, no mínimo, pragmáticos, muito sólidos defensivamente e mais acutilantes na hora de aproveitar as oportunidades de que dispuseram. E, pelo caminho, fica-se agora a saber que os campeões do mundo correram, em média, 8,52 quilómetros a cada 90 minutos, registo que os coloca como… a décima equipa que menos distância percorreu entre as 96 que disputaram os últimos três mundiais. E esta hein?

Clique para ampliar (fonte: Reddit / u/paicmhsc)

Este interessante apanhado (cujo mérito pertence ao redditor u/paicmhsc, e cujo trabalho mais detalhado sobre o tema recomendamos) tem muitos outros pontos de interesse, mas a questão principal é a mesma que se coloca de cada vez que Messi decide jogos correndo pouco mais do que os guarda-redes presentes em campo: de que interessa a quantificação simples dos quilómetros percorridos pelos jogadores, conforme nos é dada? Nada.

O futebol é um jogo colectivo com bola e em função desta. Nesse sentido, a distância percorrida com a mesma, quebrando linhas, ou os percursos concluídos na recuperação da dita têm natural relevância, mas não é isso que nos é normalmente oferecido. Aliás é muito raro encontrar essa informação, por características que marcam o actual mercado da recolha de dados estatísticos de futebol.

A quantificação simples da distância percorrida pelo jogador, tantas vezes interpretada erradamente pelo adepto como sinónimo de “trabalho”, pode querer dizer muitas coisas, e nem sempre positivas, como aliás o exemplo francês o ilustra: equipas melhor organizadas, ofensiva e defensivamente, exigem naturalmente menos correria aos seus intérpretes (quem não se lembra do auge do Barcelona de Guardiola, quando a bola circulava pelo que aparentavam ser dez jogadores “parados”, por comparação com os demais adversários?).

Por oposição, equipas com pior organização e/ou menos recursos tendem a ter de correr mais, normalmente atrás da bola/adversário. Em suma: um jogador pode correr muito num jogo, mas será que o fez pelos melhores motivos? E o que fez com bola e em função desta? É impossível (e errado) dar relevância às distâncias percorridas sem ter em conta outras variáveis tão ou mais importantes num jogo de futebol.

Kante-FR
Se lhe perguntasse, sem consulta, que jogador francês percorreu maior distância por jogo, que nome diria?

Por fim, e para que não sobrem mal entendidos, não quero com isto sugerir que grandes distâncias percorridas são sinónimo de mau/ineficaz futebol. Basta para isso revisitar a tabela acima apresentada para a Alemanha campeã do mundo de 2014 ficar no décimo lugar (não deixando de ser curioso encontrar apenas duas equipas de 2018 no “top 20”). Há que ter em conta também o estilo de jogo das equipas, sendo natural que a (mais directa) Suécia’18 tenha corrido mais do que a campeã do mundo. E ainda assim está apenas no 61º posto da geral dos últimos três mundiais. O tema merece um estudo mais profundo, mas os números da “correria” parecem sugerir que em 2018 assistimos a um Mundial, de modo geral, mais organizado, no que toca à disciplina táctica das equipas presentes.

Uma curiosidade para terminar: sabe quem foi o jogador que percorreu mais quilómetros a cada 90 minutos no campeão do mundo? A resposta instintiva será Kanté, mas está errada: foi Griezmann, com 9,9 km a cada 90 minutos, contra 9,7 do enérgico médio recuperador. E é por isto que recolher e estudar estatísticas é mais interessante e útil do que parece. Ao contrário do que tantas vezes é sugerido pelo céptico, os números não devem afrontar ou assustar, mas sim fazer-nos sorrir e dizer: “interessante, não sabia. Quero descobrir mais”.