Opinião | “Raspanete” de Fernando Santos na altura certa

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Em conversa informal com um amigo brasileiro – que tem também nacionalidade portuguesa e torce pelas cores lusas como poucos que conheço -, este transmitiu-me uma ideia que tem cimentado nos últimos tempos: Portugal tem, finalmente, um “elenco” suficientemente homogéneo em termos de qualidade para se apresentar no Mundial de 2022, no Qatar, como um verdadeiro candidato ao título. Os recentes elogios de todos os quadrantes à equipa das “quinas” (com Jürgen Klopp à cabeça), dão solidez a esta ideia, a qual também partilho.

Portugal tem, hoje em dia, um número vasto de soluções de grande qualidade em todos os sectores do terreno, ao ponto de a ausência de Cristiano Ronaldo não surgir já como um “drama” inultrapassável, inclusive para defrontar as mais fortes selecções mundiais. O recente afastamento da “final four” da Liga das Nações não mancha esta constatação, pois uma derrota ante a campeã do Mundo, a França, não envergonha ninguém.

O problema, se é que existe, mostrou-se no jogo de fecho da prova, na vitória por 3-2 na Croácia, que actuou quase toda a segunda parte com dez jogadores. Portugal ganhou, mas Fernando Santos, ciente de que a Selecção Nacional tem outras responsabilidades, maiores que as de há alguns anos, e que precisa de “dar o salto” qualitativo final, não poupou nas palavras no final desse jogo. Nunca tínhamos visto o Engenheiro ser tão contundente numa crítica aos seus jogadores. No entanto, esta iniciativa do seleccionador nacional chegou na altura certa, no momento em que será necessário separar as boas equipas das excepcionais.

[ As estatísticas principais dos 6 jogos de Portugal na fase de grupos da Liga das Nações ]

Mentalidade competitiva, um valor inegociável

O que diferencia as equipas que vencem das outras? Aquelas que se mantêm no topo e conseguem chegar sempre mais longe, estando um passo à frente das demais? Sim, Portugal é campeão da Europa e da Liga das Nações, mas terá estofo para vencer um Mundial? As que o atingem, são aquelas que conseguem combinar uma grande profundidade de talento com algo que não pode ser colocado em causa: o interesse comum. Para tal, as grandes selecções fazem do colectivo a sua grande força e da mentalidade certa a ferramenta para o maior sucesso. Portugal só o alcançará quando der o passo seguinte em termos de mentalidade e foi nessa tecla que Fernando Santos tocou.

“Voltámos a não ter intensidade na primeira parte. Cinco jogos sem sofrer golos e depois… Estes jogos não se ganham jogando bonitinho. Fizemos o 2-1, mas voltámos ao mesmo ritmozinho, permitindo que a Croácia fizesse o segundo golo com menos um. A jogar assim temos dificuldade em ser o que somos”

O que correu mal? Certamente muita coisa, em especial nos momentos defensivos. Não foi propriamente no ataque que Portugal esteve mal, embora tenha mostrado números algo diferentes dos alcançados nas cinco jornadas anteriores. A Selecção marcou três golos e aproveitou da melhor forma os erros adversários (usufruiu de quatro ocasiões flagrantes, mas só criou duas por mérito próprio, abaixo da média de 2,8 das cinco jornadas anteriores), com uma competência ofensiva expressa em 18% de remates convertidos, bem acima da média anterior de 10%. Não esteve tão bem a criar passes para finalização (10 contra 14,4) e apostou bem mais nos passes verticais do que antes (170 para 157,2) e menos nos laterais (273 para 296), o que aliado ao menor número de entregas e de menos passes curtos (131 contra 184,4), faz pressupor um menos cuidado e menos paciência na construção. Mas é na defesa que Fernando Santos terá tido mais motivos para o tal “raspanete”.

Variáveis defensivasJornadas 1 a 5 (p/90)VS Croácia
Acções defensivas no meio-campo adversário11,014
Acções defensivas no 1º terço40,835
Acções defensivas no terço intermédio12,618
Tentativas de desarme32,022
Desarmes16,212
Desarmes no 1º terço7,85
Intercepções11,017
Recuperações de posse no meio-campo21,031
Algumas estatísticas defensivas de Portugal frente à Croácia vs. a média das primeiras 5 jornadas da Liga das Nações

Portugal até aumentou o número de acções defensivas no terço intermédio e no meio-campo adversário, mas acabou com menos tentativas de desarme e menos desarmes efectivos, inclusive no primeiro terço, o que explica em parte a facilidade com que Kovacic marcou, por exemplo, o segundo golo da Croácia. Fernando Santos “cansou-se” de falar em querer “ganhar” em vez de jogar “bonitinho”, e quando se referiu à atitude, teve o cuidado de separar esta da entrega que, diz o técnico, continua a existir. Mas frente à Croácia, em especial nos momentos defensivos, faltou a Portugal aquela mentalidade de querer vencer e não dar “o flanco” a uma equipa adversária de qualidade, se preciso fosse jogando feio.

Tendo em conta as mexidas que o seleccionador realizou para este jogo em relação aos anteriores, e concedendo que Portugal já fez jogos piores sob o comando do Engenheiro, mesmo em termos defensivos, encaro este grito de alerta final, num tom para ser compreendido seriamente pelos seus jogadores, como a consciência do treinador para o facto de a turma lusa estar no ponto de viragem da sua identidade, de uma equipa muito boa, comandado pelo “melhor do Mundo” Cristiano Ronaldo, para um conjunto com uma mentalidade competitiva condizente com o profundo talento que a compõe. Resta saber se a mensagem foi interiorizada pelos receptores.

[ As stats e ratings de todos os jogos de Portugal na Liga das Nações 2020/21 ]

UNL 20/21SUMGPRMVPPASxG
4-1
0-2



0-0



3-0
0-1
2-3

Pedro Tudela
Pedro Tudela
Profissional freelancer com 19 anos de carreira no jornalismo desportivo, colaborou, entre outros media nacionais, com A Bola e o UEFA.com.
GoalPoint

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