O FC Porto arrecadou o seu 28º título de campeão nacional, confirmado matematicamente a uma jornada do fim. Uma conquista que colocou termo a quatro temporadas consecutivas de vitórias benfiquistas, e isto num ano em que, para muitos, o “dragão” apresentava-se no palco dos candidatos com mais fragilidades do que em outras temporadas em que não conseguiu conquistar o seu grande objectivo.

Essas fragilidades não se prendiam, concretamente, com falta de qualidade no plantel. Ela sempre existiu nos diversos sectores. Essa discussão girou em torno da profundidade dessa qualidade. E isto tudo numa temporada em que o clube, por diversos motivos, não esteve particularmente activo no mercado de transferências. As limitações no campo financeiro, importas pela UEFA – segundo as notícias amplamente veiculadas -, impediram o Porto de contratar mais do que apenas um guarda-redes no mercado de Verão, Vaná, ao Feirense. Por sinal, um jogador nunca utilizado na Liga NOS esta temporada. A recuperação de jogadores que, noutras épocas, foram considerados de qualidade insuficiente para as necessidades portistas foi a estratégia possível. Agora, essa opção parece ter sido a mais correcta.

“Vai dar treinador”

O actual técnico do Sporting, Jorge Jesus, disse há uns anos sobre o portista: “Vai dar treinador”. Estava este ainda a dar os primeiros passos na carreira. Vários clubes depois, Sérgio Conceição teve uma experiência no Nantes, de França, onde começou a revelar, verdadeiramente, qualidade para outros voos. Algo confirmado agora neste FC Porto. Este primeiro grande título de Conceição no Dragão não é, nem de perto, um acidente de percurso, mas sim o corolário lógico de uma evolução. E o arranque da temporada foi o primeiro sinal disso mesmo.

Se o Porto, como referi acima, era considerado talvez o menos favorito à conquista do título, de entre os três candidatos, os primeiros sinais de saúde futebolística da equipa, logo na pré-época, e no arranque na Liga, deram imediatamente a entender que havia que contar com um “dragão” em grande nível. Sérgio Conceição teve, na minha opinião, três grandes méritos para conseguir montar um grupo capaz de conquistar o campeonato: noção exacta das limitações do plantel; afinada perspicácia para perceber quais as principais qualidades dos seus jogadores, em especial os regressados de empréstimo; a percepção do melhor modelo de jogo, assente num versátil 4-4-2 que potencia as características dos seus atletas, mas com flexibilidade para alterar o sistema para 4-3-3, sem que a equipa perdesse gás. Isto porque percebeu que matéria-prima tinha entre mãos e qual a melhor forma de a potenciar.

Após um olhar para a evolução das exibições de alguns desses atletas (seis, para ser mais preciso) ao longo das últimas temporadas, com base nos GoalPoint Ratings, fica clara a ideia de que, ao já bom desempenho de alguns, conseguiu juntar outros nomes que, num passado recente, falharam no Dragão, mas que em 2017/18 deixaram uma marca vincada.

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Opções tácticas, discurso forte

Todos nós que trabalhamos em áreas de análise futebolística, quer seja editorial, quer mais analítica, e também os adeptos, podemos discutir o acerto desta ou daquela táctica, a preferência pelo 4-4-2, o 4-3-3 ou qualquer outra solução “milagrosa”. Ou até, como eu e outras pessoas próximas, não entender porque, em alguns jogos, Conceição optou por utilizar dois laterais direitos (é certo que Ricardo Pereira com a tarefa de extremo), ou mesmo quatro laterais num jogo (Miguel Layún, Alex Telles, Ricardo e Maxi Pereira na famosa primeira parte na Amoreira, contra o Estoril), mas equívocos – e nem o afirmo que o tenham sido – todos cometem. Mas a verdade é que, no final, os resultados apareceram. Na minha opinião, tal deve-se à forma como Sérgio Conceição consegui tirar o melhor da esmagadora maioria dos seus jogadores, quer pela tal percepção táctica e individual das características de cada um, quer pelo discurso forte, agressivo (no bom sentido) e amplamente motivador dos seus jogadores.

O comparativo, em cima, do desempenho de seis futebolistas que Conceição herdou do passado, com Julen Lopetegui, José Peseiro e Nuno Espírito Santo na equação, mostra isso mesmo, em especial nos homens da frente, dois deles resgatados do “exílio”.

Os exemplos de Yacine Brahimi, Moussa Marega e Vincent Aboubakar são paradigmáticos. Se Iker Casillas, Iván Marcano e Hector Herrera (este com uma ligeira quebra, até pelo posicionamento mais recuado, mas não menos influente) mantiveram o bom desempenho passado, os três da frente tiveram melhorias significativas. O caso mais flagrante é o de Marega. O treinador soube exactamente como tirar o máximo proveito do maliano, aproveitando a velocidade e força física do jogador, em movimentos de ruptura, para “desfazer” defesas, ou encostando-o à direita em momentos em que era necessário explorar o adiantamento de laterais-esquerdos. Apesar das claras insuficiências técnicas, Marega foi, talvez, o jogador mais importante nesta conquista do FC Porto, perdendo o título de “patinho feio” para assumir o epíteto de “Rei Marega”.

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E mesmo Aboubakar, proscrito por Nuno Espírito Santo, teve grande importância na primeira metade do campeonato, não nos podendo esquecer de jogadores como Brahimi (quase dispensado por NES) ou Sérgio Oliveira, muito pouco utilizado na época passada no Nantes de Conceição, mas que na segunda metade desta temporada entrou na equipa, mantendo um elevado nível exibicional – contrariando a tal ideia de falta de profundidade e soluções no plantel.

O discurso apaixonado, de apelo à garra e à ambição dos jogadores, é a imagem de marca de Conceição, e este facto será, acredito, um dos segredos do treinador para ter transformado uma equipa de recursos aparentemente limitados face à realidade do clube, na equipa mais consistente de 2017/18. Podemos afirmar que Sérgio Conceição foi o treinador certo na época certa, o ideal para o contexto muito especial do “dragão”.