“Os pseudo adeptos que vão ao Teatro Sá da Bandeira, que estão lá umas peças para rir e descontrair. Isto aqui é um jogo de homens”

Foi assim que, após a vitória caseira sobre o Tondela, Sérgio Conceição se dirigiu a alguns adeptos portistas que, após terem pago bilhete, resolveram expressar o seu descontentamento com a exibição do seu clube.

O treinador dos “azuis-e-brancos” reforçou ainda que “se querem espectáculo vão ao Coliseu“, deixando no ar a ideia de que um jogo de futebol não tem como propósito entreter quem a ele assiste. Sou, portanto, levado a acreditar que, na ideia de Sérgio Conceição, os adeptos devem investir o seu tempo e poupanças simplesmente para ter o privilégio de ir a um estádio apoiar a sua equipa. Uma atitude tão prática e desligada de raciocínio que, de preferência, nem devem pensar para que serve o apoio, visto que mesmo quando não estão a vencer, como era o caso, não têm o direito de mostrar o seu descontentamento.

Esta é uma visão do futebol que eu não partilho. O desporto nasceu também como uma forma de entreter as pessoas e foi por isso que se tornou popular. Também não me parece que pelo facto de se tratar de um jogo de homens – pelo menos o Porto vs. Tondela, não o futebol em geral – se deva esperar dele menos espectáculo do que de um jogo de mulheres, tal como Sérgio deixa a entender. Basta comparar o número de pessoas que atrai em média um jogo de futebol de cada um dos géneros.

Esta é, portanto, uma declaração que, no que à lógica diz respeito, não faz o mínimo sentido. No entanto, ironicamente, sou obrigado a concordar com ela, pelo menos na perspectiva de um adepto do FC Porto ou de um clube português no geral. Sobre a forma como o FC Porto tem jogado este ano, com foco particular no “clássico” do último domingo, já deixei aqui algumas ideias, mas há outras evidências preocupantes sobre o futebol português que importam mostrar neste contexto, e que me levam à mesma conclusão de Sérgio Conceição: se quer espectáculo, vá ao teatro, ou… veja outro campeonato.

Comecemos pela bola. Até Sérgio Conceição concordará que é difícil jogar futebol sem ela, mas em Portugal somos mesmo especialistas neste contrasenso.

LigaAcções com bola
Inglaterra59.1
Itália58.8
Alemanha57.9
Holanda57.2
França57.2
Espanha56.9
Turquia55.3
Rússia53.9
Portugal50.7
MÉDIA56.4

Médias por jogador, por jogo, na época 2018/2019, até 07/10/2018

Em Portugal, um jogador toca em média 50,7 vezes na bola a cada jogo. Os encontros têm (ou deviam ter) 90 minutos em todo o lado, mas por cá quem paga o seu bilhete vê menos futebol que os outros, mais concretamente 11% menos futebol que a média dos outros países e 15% menos do que Premier League, por exemplo. Pode parecer pouco mas, no final de um jogo em Portugal, viram-se menos 185 acções com bola do que num jogo em Inglaterra, ou menos 141 do que na média de todos os outros campeonatos. Claro que o espectáculo não é só isto, mas é um primeiro indicador preocupante.

O conceito de espectáculo em si tem o seu grau de subjectividade. Mesmo aplicado ao futebol, cada pessoa valoriza as coisas de forma diferente, mas poucas discordarão que raramente há espectáculo sem golos, ou pelo menos sem aquilo que leva a eles, os remates à baliza e a criação de situações de finalização, seja através de um passe ou de um desequilíbrio individual. Vejamos como se compara Portugal em relação às outras ligas nesses itens.

LigaRemates enquadradosPasses p/ finalizaçãoDribles eficazes
Alemanha9.315.111.6
Espanha8.714.514.4
França8.314.215.5
Holanda9.915.015.4
Inglaterra9.314.514.0
Itália8.716.912.4
Rússia8.314.96.4
Turquia8.514.413.6
Portugal8.6 (-2%)13.7 (-9%)9.0 (-45%)
MÉDIA8.814.812.6

Médias por jogo, na época 2018/2019, até 07/10/2018

Esta temporada até se tem acertado mais na baliza do que em épocas anteriores, mas mesmo assim estamos abaixo da média europeia. Só em França, na Turquia e na Rússia se enquadram menos remates do que por cá, mas o panorama piora se analisarmos a forma como são criadas essas ocasiões. Em nenhum país se criam menos ocasiões de bola corrida do que em Portugal e, se olharmos ao espectáculo que vem da fantasia e do drible, estaríamos 50% abaixo da média europeia se não fosse o campeonato russo.

Este é, realmente, um cenário negro para quem procura entretenimento num estádio de futebol em Portugal, mas calma, porque pode piorar. Confesso que não fiz nenhum vox populi muito científico, mas tentei imaginar o que um adepto de futebol não gosta de ver quanto se desloca a um estádio e cheguei a três variáveis: Faltas, Passes falhados e Duelos aéreos. O leitor já deve estar a adivinhar, e bem. Por cá temos de tudo isso, e como ninguém.

LigaFaltas% Passes falhadosDuelos aéreos / Acção
Alemanha24.121%6.2%
Espanha26.519%5.5%
França26.620%5.7%
Holanda24.921%5.6%
Inglaterra22.020%6.0%
Itália26.217%4.8%
Rússia25.822%5.8%
Turquia27.220%6.2%
Portugal32.1 (+26%)23% (+18%)6.3% (+11%)
MÉDIA26.120%5.8%

Médias por jogo, na época 2018/2019, até 07/10/2018

As faltas são mesmo o item mais escabroso. Em Portugal fazem-se 26% mais faltas do que no resto da Europa e 46% mais do que na Premier League. Num campeonato em que se vê tão pouca fantasia individual – veja-se a média de dribles – , não deixa de ser curioso que os defesas tenham que recorrer tanto à falta. Aliás, só na Rússia e em Portugal se vêm mais faltas do que tentativas de drible, e se achava que os turcos eram agressivos, está na altura de repensar essa opinião, pois há menos cinco apitos por jogo no campeonato turco do que na Liga NOS.

Talvez tudo isto seja por os homens portugueses serem mais homens que os outros, pelo menos na óptica de Sérgio Conceição. Podia até ser um motivo de orgulho se essa virilidade nos trouxesse algumas conquistas nas epopeias europeias que enfrentamos, mas não é isso que se tem visto.

Este é o país que, enquanto vai piorando no ranking da UEFA, tem entre os seus principais treinadores homens que acham que espectáculo é no teatro, mas não só. É o país que tem uma Liga Profissional que multa as mascotes por abraçarem jogadores e os cortadores de relva por proporcionarem uns efeitos visuais diferentes nas televisões de quem ainda tenta assistir ao triste futebol que tem.

Sérgio Conceição tem razão, e é pena. Hoje em dia um português que queira espectáculo deve evitar os estádios de futebol. Pelo menos até mudarem as pessoas que pensam assim.