A cortina caiu sobre o Mundial 2018. Agora só daqui a quatro anos, um pouco mais tendo em conta as datas atípicas que irão fazer do Qatar 2022 o primeiro Mundial “de Inverno” da História. Sobra pouco por dizer, tendo em conta a cobertura ímpar que fizemos do torneio, mas há ainda espaço para o foco sobre vencedores e vencidos, para lá do óbvio resultante dos troféus individuais e colectivos.

Os vencidos

Neymar deu tiro no pé e caiu (rebolando, demasiado)

Não fosse este um artigo de opinião e seria incompatível colocarmos um jogador que terminou o torneio com um rating (para muitos incompreendido, mas já lá chego) de 7.90 no lote dos vencidos. Mas é precisamente pela dissonância entre o seu desempenho e o seu comportamento que o brasileiro merece constar deste lote.

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Em campo, Neymar produziu muito mais do que quase sempre lhe foi creditado. E essa recusa em reconhecer a sua influência, muitas vezes suportada em referências (ex.: o tema das perdas de posse) totalmente descontextualizadas, tem explicação precisamente no comportamento que o brasileiro adoptou neste Mundial.

Não foi por culpa de Neymar que o Brasil não chegou mais longe no torneio. Mas foi certamente por culpa do próprio que o “astro” sai da Rússia com uma imagem de enganador, teatral, conflituoso e mimado, que apenas prejudica as cada vez mais reduzidas chances de atingir o patamar de reconhecimento e admiração atingido por Cristiano Ronaldo e Messi.

Portugal, no sentido colectivo, não apareceu

Em termos de resultados não se pode dizer que Portugal tenha desiludido, sobretudo se recordarmos o Mundial 2014. Mas se tivermos em conta o futebol produzido pela Selecção na Rússia e como ele se resumiu a pouco mais do que um Cristiano Ronaldo a desafiar todos aqueles que já o davam por acabado no final de 2017, a desilusão é objectiva.

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Os factores dariam uma grande discussão, mas a verdade é que Portugal não foi uma equipa, em termos de produção, ao contrário do que sucedeu em França há dois anos, onde mesmo não encantando, foi-se apresentando como um bloco capaz de ultrapassar as dificuldades e a menor inspiração. Jovens apostas como Bernardo Silva, Gonçalo Guedes ou Bruno Fernandes não apareceram, William Carvalho e Gelson acusaram talvez os problemas pessoais que vinham atravessando. E com tudo isto a Selecção não apareceu e, quando apareceu (frente ao Uruguai, sobretudo na segunda parte), foi eliminada. Melhores dias virão certamente, e com eles a esperança que Fernando Santos siga o exemplo de Deschamps, retirando lições para o futuro.

Brasil, Casemiro e pouco mais (para o esperado)

O Brasil era o favorito dos estatísticos (que se aventuram no domínio das previsões) à conquista do Mundial 2018, tal como já o tinha sido em 2014. E, tal como sucedeu há quatro anos, nem à final chegou. Aliás, desta feita, apesar da imagem global deixada ser ligeiramente mais positiva, até caiu mais cedo, terminando num “cinzento” sexto lugar que acaba por sugerir irónica ligação ao real objectivo que a “canarinha” apresentava: o hexa.

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Sendo certo que o Brasil de Tite esteve longe de deixar a imagem “clueless” do “escrete” de Scolari, a verdade é que Neymar, Coutinho e companhia abandonaram a Rússia com um selo de “esforço pouco objectivo”. A tentação de centralizar as culpas em Neymar ou Gabriel Jesus acabará por esconder a verdadeira reflexão que o futebol brasileiro ainda não fez, num torneio onde apenas um “canarinho” pode dizer que comprovou (caso ainda fosse necessário) o seu estatuto de imprescindível: Casemiro. Quando faltou, acabou.

VAR

No primeiro Mundial com recurso a vídeo-árbitro foi bom ver desaparecer golos em fora-de-jogo e outros desfechos polémicos, mas esperava-se maior objectividade e transparência nas decisões, sobretudo quando muitas delas acabaram por ser decisivas no percurso das selecções envolvidas. O campeonato do Mundo é suposto mostrar o que de melhor existe no futebol e, no contexto da arbitragem, não deixa de ser curioso o facto de terem sido os homens do apito que pisaram a relva a deixar melhor imagem do que propriamente os colegas que se sentaram nos “estúdios”, no seu apoio.

Joachim Low

Nenhuma desilusão surpreendeu tanto com a protagonizada pelo campeão do Mundo. Sob o comando do mesmo seleccionador e vinha de uma campanha de qualificação que apenas atestava o seu favoritismo, a eliminação alemã na fase de grupos caiu que nem uma bomba, num grupo que até se afigurava acessível. Muitas leituras se têm feito sobre o tema, embora me pareça que as mais importantes já vinham sendo identificadas na própria Alemanha, na antecâmara do torneio.

Leroy Sane
A opção de Low em deixar Sané fora da convocatória foi outro motivo de debate na Alemanha, ainda antes do arranque

Mais do que duvidar da qualidade dos jogadores germânicos e do sistema que os forma, talvez as razões residam nas opções desportivas (e até políticas) que estiveram na base nas escolhas de Joachim Low (ex.: episódio da fotografia de Ozil e Gundogan com o Presidente da Turquia, Erdogan). O torneio russo foi, aliás, exemplificativo de como um contexto débil pode influenciar o futuro de equipas que, pela qualidade dos seus protagonistas, podiam e deviam ter chegado mais longe, sendo a Espanha e Argentina bons exemplos complementares disso mesmo.

 

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