Vitória não falhou. Quem falhou fui eu, numa avaliação limitada, motivada por uma noção errada de que, no contexto que o Benfica iria atravessar, apenas um pulso público forte polvilhado de “chicote” seria possível fazer frente às dificuldades.

A História demonstra-nos, fora do futebol, que a prática de uma liderança eficaz não se limita ao exercício de uma personalidade “bélica”. No entanto, e talvez porque José Mourinho e Jorge Jesus tenham criado em muitos de nós essa relação inconsciente ente causa e efeito, também eu fui um dos que não previu grande futuro para Rui Vitória no Benfica, no contexto que encontrou.

É certo que não coloquei em causa a sua capacidade técnica. Mas o contexto que Vitória iria encontrar, carregado de adversidades que lhe eram alheias (as saídas de Jesus e Maxi, uma pré-temporada exigente pré-definida, uma aparente falta de aposta no plantel ao nível de outras épocas, etc.), aliado ao seu perfil “conciliador”, levou-me a crer que o agora treinador campeão iria falhar.

Vitória não falhou. Quem falhou fui eu, numa avaliação limitada, motivada por uma noção errada de que, no contexto que o Benfica iria atravessar, apenas um pulso público forte polvilhado de “chicote” seria possível fazer frente às dificuldades. É fácil falhar nestas circunstâncias: quantas vezes na vida antevemos um desfecho baseado em preconceitos cuja origem não sabemos bem qual é, a não ser quando somos confrontados com o falhanço da nossa antevisão?

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Rui Vitória provou que é possível ganhar no pior dos contextos sem recorrer a tudo o que não seja o trabalho que faz com a sua equipa. As suas conferências de imprensa não ficaram na memória. Os seus soundbytes raramente “viralizaram” As suas provocações foram inexistentes. Existiu sim um trabalho complementado por postura serena, recuperando quase dez pontos de desvantagem quando chegou a estar estendido no “ringue”, a ouvir a contagem regressiva. Pelo caminho bateu recordes, tudo isto sem comprometer o estatuto “encarnado” nas restantes competições disputadas.

Em Inglaterra sucedeu algo semelhante, embora muito mais espectacular. Claudio Ranieri e Rui Vitória provaram, cada um à sua dimensão e graus de dificuldade, que no futebol moderno é possível ser um vencedor sem “mind games” e projecção de perfis conflituosos que, por vezes, nem correspondem à real personalidade dos protagonistas que os promovem. O Rui e o Claudio provaram que eu estava errado. E ainda bem. Quem me manda fazer previsões baseadas em “achómetro”?