A jornada 7 da Liga NOS era aguardada com alguma expectativa por colocar em confronto quatro dos cinco primeiros classificados da tabela. No sábado, o líder Braga recebeu o Rio Ave, antes de o campeão FC Porto se deslocar ao Estádio da Luz para o segundo grande “clássico” da época.

O primeiro grande embate da jornada dignificou as expectativas. O Rio Ave jogou como uma verdadeira equipa “grande”, procurando ter a bola e circulando-a com qualidade, frente a um Braga sempre muito astuto estrategicamente a explorar da melhor forma as fragilidades do adversário. O encontro deu empate e no ficou a sensação de termos assistido a um jogo entre duas das melhores equipas do campeonato.

A fasquia estava, portanto, elevada para Benfica e Porto no dia seguinte, mas, neste caso, o jogo esteve longe de cumprir o que se espera de um grande “clássico”.

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Se o elevadíssimo número de faltas (44) é algo a que já nos vamos habituando neste tipo de jogos – a média prévia a este confronto era de 35,4 e em 16/17 tivemos 54 faltas num Porto vs Sporting -, houve outros indicadores elucidativos quanto à qualidade do futebol praticado no Estádio da Luz.

No total falharam-se 221 passes, mais do que em qualquer outro jogo do campeonato esta época. O FC Porto, mesmo tendo menos posse de bola, falhou 113, e também bateu o seu recorde da temporada neste capítulo. Atente-se, por exemplo, ao mapa de ligações dos “dragões”.

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O mapa de ligações de passes do FCP

Pode parecer apenas um conjunto de riscos, mas diz muito mais do que se possa pensar à primeira vista. Desde logo, a principal ligação do FC Porto foi de Felipe para… Casillas, e há outras coisas que saltam à vista neste gráfico. Moussa Marega, por exemplo, quase só conseguiu passar com eficácia para Maxi Pereira, e o seu principal parceiro do ataque, Soares, nunca “comunicou” com ele, nem recebendo nem oferecendo qualquer passe.

No entanto, se entre atacantes isso pode ser encarado com relativa normalidade, há uma ligação ainda mais importante que não existiu no conjunto portista. Sérgio Conceição surpreendeu ao jogar com Otávio mais recuado e alinhado com Danilo Pereira, fazendo destes dois jogadores os médios responsáveis pelo início da segunda fase de construção, e talvez por essa falta de entrosamento (ou talvez não), não se viu um único passe eficaz entre estes dois médios do FC Porto.

O que nos leva a outro recorde e a um dos motivos por de trás do anterior: a quantidade de duelos aéreos que se viram na partida. Ao todo foram 66, ultrapassando em sete duelos aéreos o anterior maior registo da época, que aconteceu num… Aves vs Tondela. Como se este dado não fosse suficientemente elucidativo, diga-se que em “clássicos” o anterior maior registo desde 2014/2015 – altura em que a Opta começou a recolher dados para a Liga NOS – eram 51 duelos aéreos, num Benfica vs Porto de 2014/2015, que ficou 0-0. Neste gráfico fica bem visível a anormalidade do jogo de domingo.

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A evolução da quantidade de disputas aéreas em “clássicos”

Portanto, tivemos 29% mais duelos aéreos do que o anterior maior registo e 46% mais do que a média dos últimos 25 “clássicos” prévios a este. Também aqui o FC Porto se destacou ligeiramente em relação ao Benfica (35 contra 31) e igualou um máximo que pertencia ao Benfica de Jorge Jesus contra o FC Porto de Lopetegui.

Olhando o gráfico, este era um problema que já se vinha a agravar. Enquanto até no futebol inglês se vai evoluindo no sentido de deixar para trás o tradicional “kick and rush”, um modelo datado e que se pensava estar a ficar para trás, nos “clássicos” em Portugal esta é cada vez mais a tendência. Dos oito piores registos nos últimos 26 jogos, cinco deles aconteceram nas últimas duas épocas.

Resta-nos a esperança de ver mais equipas como o Braga e o Rio Ave, ou mesmo Belenenses, Vitória de Guimarães, e outras que têm tentado chegar ao sucesso de formas mais “amigas da bola”, a ter êxito. Não só para termos direito a alguns bons espectáculos numa Liga cada vez mais desinteressante, como para ver se a tendência negativa se inverte, também, ao nível dos clubes que nos representam lá fora.