Os desafios de Fernando Gomes

Há alturas na vida em que os homens (e as mulheres) têm de mostrar o seu valor . E esta é a hora de Fernando Gomes, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, que, a meu ver, precisa de resolver com sucesso três equações no mais curto espaço de tempo sob pena de prejudicar de forma nefasta o futebol português.

Seleccionador. Paulo Bento viu o seu contrato renovado até 2016, antes do Mundial, mas o que se passou no Brasil deve colocar em causa o trabalho do seleccionador e da sua equipa técnica. A renovação da selecção não foi feita, a convocatória final foi muito discutível e, pior do que isso, os resultados foram lastimosos. Se tudo correr normalmente a era Bento termina no último minuto do jogo com o Gana e depois é preciso saber escolher. E aí Fernando Gomes terá de agir com independência mas respeitando sempre uma ideia-mestra; o sucessor de Paulo Bento deve ser alguém que não olhe a nomes, que respeite o ADN do futebolista português e, acima de tudo, que saiba incutir nos jogadores que não há nenhum que seja mais importante do que outro. Alguém que no campo da coragem, e apenas neste campo, siga o exemplo de Luiz Felipe Scolari; ou seja que não revele problemas em retirar um Rui Costa do “onze” ou um Luís Figo de campo, mesmo que ele seja capitão. Numa selecção não há, nem pode haver, vacas sagradas. Há um país a defender.

Ronaldo. É preciso ter memória. Ronaldo é já o melhor marcador de sempre da selecção, a ele devemos a presença no Mundial mas isso não pode servir de justificação para tudo. O problema de Ronaldo, e isso viu-se há quatro anos com a célebre frase “falem com o Queiroz”, é que não tem perfil de capitão, o qual assenta como uma luva a Bruno Alves. Ronaldo não pode ser um problema, tem de ser sempre uma solução para Portugal brilhar ao mais alto nível. E Fernando Gomes, e apenas e só ele entre quatro paredes com Ronaldo, precisa de explicar que o exemplo deve partir do capitão. A defender, coisa que não faz prejudicando o equilíbrio da equipa, a festejar golos mesmo que sejam dos colegas, algo que faz pouco, a dar a cara depois dos insucessos. E sublinhar a Ronaldo que ele é que é o privilegiado por representar a selecção do seu país e que ninguém tem de lhe agradecer por não ter ficado em casa depois de ter vencido a Liga dos Campeões e de ter estabelecido inúmeros recordes individuais. Se a mensagem não passar, só há uma coisa a fazer; passar a braçadeira a quem saiba desempenhar as funções. E todas as partes ganharão.

Limitação de extra-comunitários. Fernando Gomes tem sido um dirigente credível e atento. Por isso deve ler jornais e estar atento às notícias do mercado no que diz respeito aos três grandes. Tirando Paulo Oliveira para o Sporting e a possibilidade de Rafa rumar à Luz, quantos portugueses são falados na imprensa para reforçar os três grandes? Quantos portugueses tinha o “onze” mais utilizado pelo campeão Benfica em 2013/14? Nenhum. Quantos portugueses jogaram com assiduidade no FC Porto na época passada? Varela, Licá e Josué, todos eles de saída do Dragão. Por isso, e sem grandes alternativas de valor entre os 22 e os 27 anos e com uma selecção envelhecida, só resta uma coisa a fazer: criar uma regulamentação que limite o número de extra-comunitários em nome do futebol português. E amanhã já é demasiado tarde para o fazer.

Se Fernando Gomes falhar um destes desafios, um que seja, o futebol português estará em causa mesmo que episodicamente, como aconteceu em Estocolmo, um triunfo surja. E isso é ver o imediato e desprezar o médio/longo prazo.