O treinador inglês Tim Sherwood (que todos recordarão pelas altercações com Jorge Jesus, mais do que pelos títulos) deu uma interessante entrevista ao The Telegraph, onde não só se assume como um treinador “old school”, como critica os novos métodos aplicados ao futebol, em particular nas áreas do scouting e análise estatística, deixando a ideia (não explicada) de que ambos os mundos não são (como seria de esperar) coexistentes e cooperantes.

Sherwoold junta-se assim a Lopetegui, citando dois casos recentes que me recordo, no grupo de treinadores que assumem publicamente alguma (ou toda) desconsideração pela análise estatística aplicada ao futebol. Para lá deste ponto, ambos os treinadores partilham pelo menos mais um ponto em comum: nada ganharam, até agora, no futebol sénior de clubes, enquanto treinadores. Mera coincidência? Certamente, mas não deixa de ser curioso.

Mais do que fazer o (fácil) “debbunking” das afirmações de Sherwood, considero, no entanto, mais interessante aproveitar o que afirma para melhor compreender o presente e futuro da “bola”, em particular o caso português. Vamos a isso.

O Scouting dos ricos

Sherwood critica, ainda que em jeito de queixume saudosista, o facto de o scouting (inglês) já não dedicar atenção (e opção) aos escalões inferiores do futebol britânico, naquela que é provavelmente a crítica mais compreensível no discurso do até há pouco tempo treinador do Aston Villa. A razão para que tal suceda é óbvia: com o advento da Premier League os clubes de topo do futebol inglês ganharam outros “apetites”, ao verem os seus orçamentos “engordados”, deixando não só de ter tanta necessidade em “pescar” barato, como também passando a ser confrontados com a urgência em garantir, a todo o custo, a permanência na Premier e Championship, por razões económicas.

Apesar de tudo o timing escolhido por Sherwood para verbalizar este lamento não deixa de ser irónico, ou não fosse Jamie Vardy, a actual sensação da Premier League, um exemplo de que, afinal, mesmo no futebol inglês ainda existem exemplos maiores daquilo que Sherwood afirma já não suceder.

Em Portugal o contexto é bem diferente: a pressão financeira sobre um futebol em crise empurra precisamente os clubes para a procura de novos talentos em divisões inferiores, um lado positivo da “pobreza”.

Os malandros da estatística

É na parte em que comenta o advento da análise estatística que Sherwood se despista em definitivo, num discurso que demonstra a reacção natural da ignorância mais do que uma crítica estruturada a uma “nova via” que, como qualquer outra, é não só passível de melhoria e aperfeiçoamento contínuo como não pode nunca ser encarada como única.

Renegar o contributo que os dados podem dar ao futebol, seja ao dirigente, treinador ou mero adepto, é tão imbecil como defender que a estatística tudo explica e tudo permite, em substituição da mera observação. É precisamente na colaboração entre ambos que reside o futuro de um futebol ainda melhor trabalhado e discutido com muito mais interesse, como já sucede noutros desportos.

Sherwood defende que “devemos ter fé nos nossos olhos”, contrariando um princípio que aprendemos desde cedo na escola (a de que os sentidos nos falham).

Os homens do futebol realmente inteligentes não são necessariamente os que sabem responder de imediato à pergunta “como se calcula a média de golos esperados de um jogador” mas sim os que, mesmo não sabendo responder, percebem a utilidade da questão e demonstram interesse em aprender e/ou rodear-se de quem os ajude a obter a resposta. Os outros… existirão sempre mas ganharão cada vez menos – e cada vez mais por acaso.