Esta época temos assistido em Inglaterra a um caso inesperado no que respeita à luta pelo título da Premier League. Falo obviamente do “underdogs” Leicester City que, comandado por Claudio Ranieri, tem excedido todas as expectativas que se podia ter no início da temporada.

Jogadores como Mahrez, Kanté e até Drinkwater têm-se revelado de uma qualidade estrondosa, fazendo já correr muita tinta na imprensa sobre possíveis transferências no mercado de Verão. Como é possível um clube desta dimensão estar no primeiro lugar da tabela classificativa, tendo um valor de mercado de 127,10 milhões de euros, contra, por exemplo, os 501,75 milhões do Manchester City, ou os 490 milhões do Chelsea? Como podemos observar no quadro abaixo, o Leicester foi muito incisivo nos jogadores a contratar, tentando um misto de atletas a custo zero/baixo custo com jogadores já feitos mas que podiam ainda explodir se bem trabalhados:

Hoje em dia a organização de um gabinete de scouting é uma das componentes estruturais mais importantes de um clube, podendo-se revelar até umas das maiores mais-valias, quer a nível financeiro, quer técnico-táctico. Saber onde ir observar, o que observar e como observar são três pilares do modus operandi destes departamentos. Um clube modesto que consiga, por exemplo, ter um olheiro em todos os campeonatos europeus e mundiais dos escalões jovens fica com uma base de dados mais do que suficiente para ir fazendo um plano de monitorização e recrutamento adequado. Nos dias de hoje surgem ainda diversas vantagens a nível de torneios. O famoso Torneio de Toulon, o Torneio de Viereggio ou a UEFA Youth League são competições que permitem a análise de muitos jovens na Europa de forma bastante acessível e prática.

Leicester: uma obra por “facturar”

No campo das novas tecnologias temos também um grande “boom”, onde aparecem cada vez mais ferramentas de análise como o Prozone Recruiter, o Wyscout ou até o português Talent Spy, onde é possível efectuar e partilhar relatórios com todos os elementos constituintes de um clube, ou até ver todos os jogos disputados de um jogador-alvo sem se sair comodamente do nosso escritório.

 

Os reis do Scouting “Low-Cost”
No caso do Leicester ainda é cedo para perceber os mais que certos proveitos das opções de mercado

Udinese e Basileia: fórmulas que funcionam há anos

Na Europa temos alguns bons exemplos de boas práticas deste scouting “low-cost”, o acima referido Leicester City, que nas últimas três temporadas tem apostado forte neste segmento, tendo um sucesso tal que levou a que o seu chief-scouter, Ben Wigglesworth, fosse contratado pelo Arsenal. Outros dois bons exemplos são a Udinese e o Basileia. Vejamos as contratações e vendas destes dois clubes.

Os reis do Scouting “Low-Cost”
Os italianos da Udinese há muito se notabilizam por comprar bem e vender melhor

Na Udinese há uma prática corrente de procurar talentos em mercados emergentes como os de Leste, da América do Sul e também África, tendo este clube umas das mais alargadas e completas redes de scouting mundiais. Como podemos ver pelos exemplos da tabela acima, os italianos facilmente tiveram um lucro total de cerca de 212 milhões de euros em algumas das contratações cirúrgicas que fizeram.

Nos suíços do Basileia a aposta recai bastante no mercado interno, mas também no continente africano, em países como a Argélia ou Egipto. Este é um clube que, a nível europeu, tem uma dimensão média, contudo tem demonstrado que sabe onde procurar jogadores baratos e de qualidade, tendo feito um lucro de cerca de 118 milhões de euros com alguns destes jogadores.

Os reis do Scouting “Low-Cost”
O Basileia consegue equilibrar a superioridade na liga suiça com uma política “low cost” eficaz

Não é preciso ter um investidor milionário num clube para se ter um plantel rentável e com potencial. Uma rede de olheiros bem montada no próprio país a nível dos escalões de formação, com recurso a olheiros graciosos e alguns contratados pelo clube, possibilita logo desde cedo a captação de jovens promessas que podem a vir ser trabalhadas pelo clube, tendo perfeita adaptação à cultura e estrutura do mesmo. Regiões como a escandinavo, o continente americano ou até asiático, continuam a ser um paraíso com inúmeros diamantes por lapidar à espera de serem descobertos.

Em Portugal deve-se, a meu ver, tentar melhorar ainda mais no que respeita ao scouting internacional, no sentido de uma acção mais cirúrgica, evitando gastar verbas tão elevadas. O jogador português é um dos mais inteligentes e fortes tecnicamente a nível mundial. Clubes como o Rio Ave, Paços de Ferreira e Belenenses conseguem já ombrear com os chamados “três grandes” e começam a ganhar uma nova expressão no que diz respeito à formação de jogadores.