Os “segredos” do ataque à área na Liga 20/21

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Aquele rectângulo 40 por 17 metros, residência do guarda-redes, guardada por linhas de quatro ou cinco defesas – também conhecida como grande área –, é a zona “dourada” para os atacantes, onde o perigo passa de iminente a permanente. Na época passada, nas Ligas Top 5 + Liga NOS, foram marcados 5579 golos. Em cada 20 golos, 17 resultaram de remates feitos dentro da área (85%).

A capacidade de chegada à área e consequente eficácia de remate são incontornáveis factores de sucesso numa equipa. Por isso, decidimos analisar algumas métricas que nos permitam identificar as equipas e jogadores da Liga NOS que operam com maior eficácia na área adversária.

[ O peso dos remates disferidos dentro da área, no total de remates de cada equipa da Liga NOS 20/21 ]

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Com as equipas ordenadas por classificação no gráfico (com dados até à 16ª jornada), identifica-se uma relação positiva entre a percentagem de remates dentro da área e a posição na tabela. É certo que casos como o Gil Vicente e o Farense fogem à norma, mas as respectivas posições não reflectem necessariamente o perigo que representam para os seus adversários.

Não será também surpresa que os “três grandes” sejam as equipas que apresentam maior peso dos remates que somam na área (~70%). Cada equipa tem as suas armas e devem usá-las em conformidade. No Braga, Carlos Carvalhal dispõe de Iuri Medeiros (recentemente lesionado), Galeno e Fransérgio, jogadores que se destacam pelo alcance e qualidade de remate, e que em muito contribuem para que menos de 60% dos remates dos “arsenalistas” ocorram dentro do rectângulo que define a área adversária.

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Analisámos também o número de ações por remate dentro da área (eixo vertical) e a qualidade das oportunidades criadas – através do valor do nPxG (non-Penalty Expected Goals) por remate, o número de golos esperados excluindo penáltis por remates (eixo horizontal).

Muitas vezes ouvimos dizer entre os adeptos das “águias” e “dragões” que “a equipa faz demasiadas fintas e passes na área, acabando por rematar pouco”. Isto verifica-se? A verdade é que sim… em parte. Nenhuma das formações remata pouco, mas a são o emblemas da Liga que mais ações somam por remate, dentro da área. No entanto, estas ações estão a gerar melhores situações de finalização, principalmente para o Benfica. Os “encarnados” têm o valor mais alto de nPxG por remate na Liga, o que volta a levantar dúvidas sobre a capacidade de finalização dos seus atacantes, em particular Darwin, cuja desinspiração já referimos, no último artigo.

Mas então quem mais ajeita, finta e passa a bola dentro da área, fá-lo para encontrar melhores situações de finalização, certo? Errado. Os dados não enganam e, se excluirmos o Benfica e o Porto, as equipas com mais ações por remate na área são aquelas com um nPxG mais baixo, ou seja, geram remates de pior qualidade. Isto explica-se sobretudo porque as equipas que menos toques precisam na área são as que melhor exploram a profundidade e as transições ofensivas, encontrando situações de finalização com menos defensores entre a bola e a baliza.

Os destaques positivos vão para o Sporting e o Paços, que não precisam de muitas ações na área para criar perigo e convertê-lo em golos. Seja através da procura do jogo exterior com o intuito de executar cruzamentos atrasados, ou através da bola nas costas das defesas adversária, a verdade é que os “leões” e os “castores” estão na ribalta não só na finalização, como na tabela classificativa.

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Uma das questões que nos suscitou mais curiosidade foi tentar identificar eventuais dependências excessivas por parte das equipas relativamente a jogadores, no ataque à área. Eis as conclusões a que chegámos:

  • O Porto é uma das equipas em que destacar apenas dois jogadores fica curto. Para além de Taremi (8,5), que lidera a liga nesta métrica, o dominador caudal ofensivo portista é também entregue a Marega (7,2), Luis Díaz (6,9) e Tecatito Corona (6,2).
  • No caso do Benfica, o destaque de Darwin não surpreende neste capítulo. Porém, o sistema de dois avançados promovido por Jorge Jesus não vê o seu segundo atacante (Luca Waldschmidt) entrar nesta lista. É Rafa, vindo de uma posição de extremo, que pega novamente destaque estatístico na turma “encarnada”.
  • A dependência do Santa Clara em relação a Thiago Santana (4,9) era demasiado evidente, tanto nos golos marcados, como nas ações na área. Moghanlou (1,9) e Crysan (3,8) não atingem valores equiparáveis ao brasileiro. Ainda assim os açorianos conseguem manter a boa forma, com Carlos Júnior a assumir um papel preponderante.
  • No Sporting as honras são repartidas entre o “miúdo” de 18 anos e o melhor marcador do campeonato. Tiago Tomás e “Pote”, ambos com 4,3 ações na área adversária, demonstram o entrosamento ofensivo e dinâmicas promovidos por Rúben Amorim. Feddal, com 1,9 ações por jogo, é o quarto “leão” nesta métrica, o que evidencia a importância das bolas paradas que, como vimos, nem sempre são aproveitadas.
  • O Nacional é a equipa com a maior diferença entre o primeiro e o segundo jogadores com mais ações na área. Há uma certa dependência em Brayan Riascos, o melhor marcador dos insulares, consolidando-se como a principal arma de perigo dos nacionalistas.
  • A irregularidade do Famalicão justifica o facto de somente cinco jogadores do “Fama” (com mais de 720 minutos) terem ações na área adversária. Este factor negativo acentua-se ainda mais quando se contabiliza a saída de Rúben Lameiras.

As diferenças no ataque à área

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Analisamos agora quatro dos jogadores com mais ações na área adversária – Taremi (FCP), Darwin (SLB), Sporar (ex-SCP, agora SCB) e Paulinho (ex-SCB, agora SCP) -, procurando tirar conclusões sobre as diferenças de ataque à área, não só na finalização mas também no passe, drible e duelos aéreos.

Ações com bola
Sporar apresenta uma mancha bem menos preenchida, pois é o jogador com menos minutos do lote. Taremi não preenche tanto como Darwin e vê-se que privilegia espaços mais centrais. O uruguaio e Paulinho, em contrapartida, pintam a área em zonas muito mais laterais e junto à linha final.

Remates
São notórios os padrões de eficácia na finalização, com Taremi a mostrar-se fantástico neste departamento e Sporar a aproveitar os poucos remates que soma. O iraniano parece procurar somente zonas centrais para rematar, evitando o remate cruzado. Já Darwin e Paulinho, menos eficazes, têm um alcance de remate muito mais lateralizado e procuram muitas vezes os disparos cruzados, de ambos os lados.

Passes para finalização
Os padrões revelam-se mais distintos, nesta métrica. Enquanto Taremi e Sporar parecem deixar a tarefa de servir os colegas para os “criativos” que têm à sua volta, Darwin e Paulinho, mais lateralizados, encontram vários passes e cruzamentos atrasados para zonas centrais, favoráveis à finalização.

Expected Goals (xG) por zona da área
Darwin e Sporar concentram o perigo na zona central direita da área e da pequena área respetivamente, Taremi é mais perigoso na zona central esquerda e Paulinho distribui o perigo que cria por várias zonas.

Duelos aéreos
Todos os jogadores têm uma concentração de duelos aéreos na entrada da pequena área, sendo que Sporar peca pela falta de volume de jogo.

Dribles
Não espanta que Taremi e Darwin sejam os que mais driblam, neste comparativo. Taremi é mais bem-sucedido do lado esquerdo, e Darwin do lado direito (100% de eficácia), mas visto que o uruguaio tende a partir do lado esquerdo a sua ineficácia desse lado, muitas vezes no cut-back, é preocupante. Não é, evidentemente, uma arma utilizada por Paulinho ou Sporar, sendo que o esloveno tem sido particularmente infeliz neste tipo de ação.

À viragem do campeonato, estão identificadas não só as tendências atuais das equipas, na hora de trabalhar a bola dentro da área, como também os jogadores mais influentes nessa zona do campo. Veremos que tendências se mantêm e que “vícios” se alteram, na segunda metade da época. E nós cá estaremos para as medir, desenhar e discutir convosco.

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No verão de 2020 deu sequência à paixão pelo Futebol no twitter, oferecendo análises e grafismos originais que chamaram a atenção dos mais atentos. No início de 2021 foi convidado pela GoalPoint para juntos fazerem ainda mais e melhor.