Paços 0 – FC Porto 1: “Dragões” loucos pela bola

A equipa de Julen Lopetegui somou o segundo triunfo na Liga e voltou a mostrar que, quando se considera amplamente superior, faz tudo para manter a bola em seu poder.

O FC Porto somou o segundo triunfo na Liga portuguesa na visita ao Paços de Ferreira, orientado pelo seu anterior treinador, Paulo Fonseca. Os “dragões” voltaram a mostrar, em especial na primeira parte, que ter a bola é a base da sua filosofia de jogo, enquanto os “castores” mostraram argumentos para uma temporada de bom nível.

Esta é, cada vez mais, “a equipa” de Lopetegui. O Porto joga segundo as ideias do técnico espanhol, que imprimiu toda a sua identidade na forma de jogar da equipa. Muita pressão sobre o portador da bola, defesa subida a encurtar espaços, médio-defensivo a definir por onde a equipa deve atacar e flexibilidade para mudar a direcção do jogo – muito futebol pelos flancos, a originarem 12 cantos. Do outro lado há um nome que ameaça tornar-se um caso sério ao longo da época: Jean Seri.

Os portistas acabaram com menos passes que frente ao Marítimo, quando efectuaram 697. Desta feita “apenas” 555, muito por culpa da reacção do Paços no segundo tempo. No primeiro, o Porto somava 322, caindo para 233 na segundo parte, altura em que a equipa teve de sofrer para segurar a vantagem. Os 65% de posse de bola reflectem o domínio “azul-e-branco”, mas é um número pálido face aos 73,8% da primeira parte (56,3% na segunda), quando os “dragões” tiveram de adaptar-se a uma realidade que os incomodam: não ter tanto a bola. Ainda assim, a qualidade de passe manteve-se, terminando com 85,9%.

Clique na infografia para ler em detalhe (infografia: GoalPoint)
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Pressão intensa

O domínio forasteiro assentou, sobretudo, na grande pressão da equipa sobre o portador de bola adversário. No início o Paços conseguiu cortar a ligação entre o meio-campo e o ataque portista, com o bom posicionamento dos seus médios, mas nunca os “castores” conseguiram sair com a bola controlada na primeira parte, pois a pressão contrária originava erros no passe. O Paços acabou a primeira parte apenas com 65,5% de passes certos. Por seu turno Casemiro, Rúben Neves e Evandro coordenaram todo o jogo do Porto, acabando o primeiro com seis desarmes, um alívio, quatro intercepções e oito recuperações de bola, mas também foi exímio a distribuir, com um total de 59 passes e 81,4% de precisão dos mesmos. Dos três elementos só Evandro esteve mais competente, com 90,9% de passes certos.

Atrás, Ricardo Pereira surgiu a lateral, no lugar de Danilo, e fez um excelente jogo, a defender e a atacar, com 83 toques, sete duelos ganhos (71,4%) e cinco recuperações de bola. Mas na frente esteve o segredo do triunfo. Jackson Martínez voltou a ser enorme, pois não só teve uma tremenda eficácia na hora de finalizar (um golo em dois remates), como foi incansável no trabalho para a equipa. Recuou para defender e dar linhas de passe, fez três desarmes e recuperou a bola duas vezes, para além de que criou duas ocasiões de golo. Deu o exemplo e foi recompensado com o golo, a cruzamento de Juan Quintero (o médio fez nove cruzamentos e esteve muito activo na direita).

Um caso Seri

Do lado do Paços, Sérgio Oliveira e Jean Seri foram as grandes figuras. O primeiro fez 41 passes (75,6% certos), 21 no meio-campo contrário, fez quatro cruzamentos (o máximo da sua equipa), foi quem mais rematou (por três vezes, uma no alvo) e quem teve mais bola da sua equipa (68 toques). A defender fez seis desarmes, duas intercepções e recuperou a bola cinco vezes (perdeu 20…). Seri, por seu turno, fez sete desarmes, recuperou a bola sete vezes e só a perdeu quatro. No passe esteve impressionante, com 37 e 94,6% de precisão (14 – 85,7% na metade portista). Estes dois elementos empurraram a equipa para a frente no segundo tempo, numa altura em que o Paços cortou o jogo do Porto e empurrou-o, colocando inúmeros elementos no ataque (os médios-ala passaram a defender mais dentro, dificultando a tarefa de Casemiro).

Mas no fim prevaleceu a maior qualidade e superioridade dos “dragões”. O Paços criou ocasiões e rematou à baliza – oito vezes, contra dez do Porto -, mas pecou na pontaria, pois apenas por uma vez atirou com boa direcção, apesar de cinco dos seus disparos terem acontecido já na grande área do Porto – que conseguiu quatro nessa zona. Contra factos não há argumentos.

Apontamento táctico*

Um bom jogo de futebol nesta segunda jornada da Liga portuguesa, entre Paços de Ferreira e FC Porto. Lopetegui mudou um pouco a dinâmica do seu 1-4-3-3, sendo que Quinteto, no corredor direito, deu pouca profundidade. Porém, ao flectir para o centro, o seu pé esquerdo conseguiu rematar e cruzar com bastante qualidade.

Rúben Neves preencheu bem o meio-campo fazendo uma exibição segura como médio box-to-box, e tanto defendeu ajudando Casemiro como apareceu bem na fase de criação e remate. Casemiro fez muito bem os equilíbrios defensivos, sobretudo na primeira parte, e na segunda, com a saída de Rúben Neves, mostrou ser insuficiente para fazer as coberturas nos corredores laterais. Evandro voltou a demonstrar um grande posicionamento a nível táctico e uma boa leitura do jogo e Olivér trouxe uma melhoria em relação à manutenção da posse de bola e, sobretudo, ao controlo do ritmo de jogo.

Destaque ainda para a boa exibição de Ricardo, que cada vez mais parece mais confortável na posição de defesa-direito, sendo que jogando mais avançado faz um maior uso da sua excelente capacidade técnica.

* O “apontamento táctico” é uma rúbrica da autoria de Miguel Pontes.