Antes da final da Liga dos Campeões 2018/19, Jorge Jesus foi entrevistado no relvado do Wanda Metropolitano, em Madrid, como novo treinador do Flamengo. Nessa entrevista, afirmou algo como: “Se vencer a Libertadores, poderei estar no Mundial de Clubes para defrontar um destes finalistas da Champions. Espero que sejamos nós, o Flamengo, e também o Liverpool”. Cerca de sete meses depois, o técnico português está muito perto de conseguir precisamente o que desejou, após afastar o Al-Hilal, da Arábia Saudita, por 3-1, precisamente o emblema que orientou anteriormente.

Este desfecho surge após um período em que Jesus revolucionou por completo o futebol do Flamengo, pegando numa equipa a oito pontos da liderança em nove jornadas e levando-a ao incontestado título do Brasileirão 2019ao mesmo tempo que conquistava a Copa Libertadores, numa final épica com o River Plate -, com 16 pontos sobre o segundo classificado Santos. Numa altura em que o “Mengão” vai tentar coroar-se campeão mundial, nada como olhar para a extraordinária época do emblema do Rio de Janeiro no campeonato brasileiro, ao mesmo tempo que comparamos esta carreira sensacional com a do anterior campeão, o Palmeiras.

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Palmeiras vs Flamengo. Neste exercício que fará, certamente, as delícias das discussões entre adeptos, não é difícil chegar a uma conclusão: o campeão de 2019 foi melhor que o de 2018, não só apenas pelos pontos conquistados (90 contra 80), pelos máximos estabelecidos (de pontos e golos desde que o Brasileirão é disputado por 20 clubes), mas também pelas estatísticas de desempenho.

A infografia que apresentamos diz-nos o essencial do que precisamos de saber. O campeão de 2019 rematou mais (15,4), enquadrou mais (5,8), finalizou melhor (15%), foi mais competente a entrar nas grandes áreas contrarias e a tentar a finalização (9,6) e criou mais ocasiões flagrantes de golo, embora de forma marginal (3,1 contra 2,7). Estes são os números que melhor reflectem a qualidade atacante das equipas e o Flamengo foi superior ao Palmeiras de 2018. Mas há outros momentos de jogo.

No passe também a equipa carioca mostrou qualidade extra, com uma eficácia de 85%, acima dos 80% da formação de São Paulo, algo que ganha ainda mais relevância se repararmos que o Flamengo realizou uma média bem superior de passes (463 vs 377), o que poderia ter influência negativa na eficácia. Mas não teve. E nem essa grande quantidade de entregas reduziu a tendência para o drible e o número de dribles eficazes, com o Flamengo a chegar aos 11,4, muito acima dos 7,0 do Palmeiras. Em suma, o “Verdão” apenas foi melhor nos momentos defensivos, apresentando mais desarmes e intercepções por 90 minutos. Algo que não espanta tendo em conta a filosofia ofensiva aplicada por Jorge Jesus nas suas equipas.

Flamengo pré e pós-Jesus

Mas este exercício esvazia-se um pouco, tendo em conta a importância de Jorge Jesus no nosso acompanhamento do Flamengo, se não olharmos para o que era a realidade da equipa antes de chegar o treinador português e depois – mesmo tendo em conta que antes de JJ o “Mengão” somava somente nove jogos do Brasileirão. E as diferenças são evidentes. A começar pelos golos.

Até à chegada do treinador luso, o Flamengo tinha uma média de 1,7 golos por 90 minutos, e passou a marcar 2,4, apesar de ter reduzido ligeiramente o número de remates de 16,3 para 15,1. Isto porque a qualidade dos momentos ofensivos melhorou substancialmente, contribuindo para uma subida dos remates convertidos de 10% para 16%. A verdade é que os próprios jogadores evoluíram bastante sob o comando de JJ, aumentando claramente a percentagem de ocasiões flagrantes convertidas, de 36% para 48%.

Mudança de estilo

No passe, aumentou também a quantidade das entregas (437,9 para 471,1), prova de uma mudança de estilo mais apoiado e organizado, e também a qualidade, embora não de forma tão expressiva (85% contra 84%). E no drible, a liberdade que Jesus gosta de dar aos jogadores e às suas qualidades, potenciando-as, veio ao de cima, com um aumento importante das tentativas de drible (21,8 vs 17,0), embora com alguma quebra natural na sua eficácia (54% – 58%).

Defensivamente, aqui sim há uma descida nos registos médios em alguns momentos, desde a chegada do treinador luso, muito por culpa, igualmente, da forma como a equipa conseguia apropriar-se dos jogos e impedir ataques adversários em zonas adiantadas. Assim, o Flamengo esteve um pouco menos sujeito à pressão contrária, baixando o número de desarmes (16,8 – 18,2), intercepções (8,3 – 9,1) e alívios (13,3 – 15,7). Mas aumentando as recuperações de posse (48,2 – 46,8), elogio para o melhor posicionamento colectivo.

Por estes números, não é difícil de perceber o impacto determinante que Jesus teve no futebol flamenguista, potenciando-o a patamares pouco vistos no futebol brasileiro e transportados com sucesso para a Libertadores. Resta saber se será suficiente para levar o “Fla” ao título mundial, estando já na final, onde encontrará o Liverpool, se os ingleses ultrapassarem o Monterrey, esta quarta-feira.