Penafiel 0 – Sporting 4: Ou como se ganha um jogo do banco

O “leão” goleou os penafidelenses por 4-0 num jogo de sentido praticamente único, mas foram precisas duas substituições na segunda parte para abrir a porta da vitória.

Slimani desbloqueou o jogo abrindo caminho à goleada nos últimos 20 minutos (foto: J. Trindade infografia: GoalPoint)
Slimani abriu caminho à goleada nos últimos 20 minutos (foto: J. Trindade infografia: GoalPoint)

Este não foi propriamente um jogo grande, um derby ou um “clássico” do futebol português, mas tem bastante para contar. O Sporting CP goleou o FC Penafiel por 4-0 e, à primeira vista, terá sido um passeio para os “leões”. E foi-o a partir dos 69 minutos, quando Slimani cabeceou para o 1-0. E até deu para Fredy Montero acabar com um longo jejum. Mas até esta altura o domínio da formação lisboeta esbarrava numa organização defensiva que parecia capaz de aguentar 90 minutos.

Não aguentou, mas deu muito boa conta de si. Marco Silva surpreendeu ao deixar Adrien Silva no banco, apostando num mais ofensivo André Martins ao lado de João Mário, no triângulo intermédio. A ideia, aparentemente, era simples, ou seja, fazer descansar Adrien e dar mais velocidade e capacidade de movimentação ofensiva à equipa. Porém, o Penafiel mostrou ter a lição bem estudada.

Porta fechada

Num 4-3-3 apoiado e bem estruturado, o Penafiel deu a iniciativa ao Sporting, cortando com eficácia uma das melhores armas leoninas no ataque, ou seja, as combinações e triangulações entre o médio-interior, o lateral e o extremo. Quando André Martins e João Mário se conseguiam soltar, foram algumas as vezes que Nani, na esquerda, e André Carrillo, na direita, apareciam soltos nas alas, recorrendo invariavelmente ao cruzamento. Só na primeira parte os “leões” efectuaram 15 centros em futebol corrido, mas na área estava pouca gente. Slimani era presa fácil para Pedro Ribeiro e Bura e apenas Nani conseguia aparecer a cabecear ao segundo poste, mas sem eficácia.

Os da casa conseguiam lidar bem com este futebol mais previsível do Sporting, quer na área, quer travando desde logo as tais triangulações a meio-campo. Isto porque Ferreira e Rafa Sousa tinham a tarefa relativamente facilitada de cair em cima de João Mário e André Martins, cortando logo esse “mal” pela raiz. Assim viu-se uma equipa forasteira com muita bola, muitas trocas de bola, posse, mas sem caminhos para a baliza. Tirando os muitos cruzamentos inconsequentes para a grande área, o Sporting efectuou, até ao intervalo, 278 passes, com apenas 77,3% de eficácia, teve 69,1% de posse de bola e rematou seis vezes, duas delas enquadradas – cinco disparos já dentro da grande área.

Na primeira parte Nani destacou-se precisamente no capítulo do remate, com três, um na direcção da baliza, enquanto William Carvalho dominou o meio-campo, sem grande oposição, diga-se – 53 toques na bola, o máximo da equipa nesta fase, 81,1% de eficácia, 31 passes no meio-campo adversário, 80,6% certos. João Mário fez poucos passes, 19, mas com 94,7% de eficácia. Cédric Soares mostrou-se afoito no apoio ao ataque, mas a defender patenteou dificuldades para travar Davi Mbala e Aldair, perdendo 18 vezes a bola (25 no final), o mesmo acontecendo a Jefferson na outra ala, com 14 perdas (26 no total). Paulo Oliveira e Naby Sarr estiveram algo descoordenados, mas conseguiram ainda assim nove e cinco alívios, respectivamente, com Oliveira a somar ainda cinco intercepções. Do lado do Penafiel, destaque para as cinco entradas de Dani Coelho, que conseguiu ainda dois alívios e cinco intercepções.

clique na infografia para ler em detalhe (infografia: GoalPoint)
clique na infografia para ler em detalhe (infografia: GoalPoint)

Montero desbloqueia o jogo… e a si próprio

Até que Marco Silva decidiu mudar, e fê-lo com acerto. A “solidão” de Islam Slimani na frente e a facilidade com que o Penafiel cortava as combinações leoninas terminaram com a entrada de Fredy Montero no jogo, para o lugar de André Martins – Adrien Silva rendeu William Carvalho. A lição dos da casa afinal só estava bem estudada pela metade e não previu esta mudança.

Montero passou a jogar junto de Slimani, mas a cair inúmeras vezes entre os defesas-­centrais e os médios-defensivos. Com esta pequena alteração, Pedro Ribeiro e Bura passaram a ter de se preocupar com a movimentação de dois elementos na sua zona, Ferreira e Rafa Sousa continuaram a tentar travar João Mário e (agora) Adrien, mas com a preocupação adicional de saber quem estava nas suas costas – neste caso Montero. E começou neste desequilíbrio a derrocada penafidelense. Montero passou a combinar com Slimani, bem como com Carrillo (depois Diego Capel) e Nani, e a aparecer solto na grande área. O meio-campo do Penafiel viu-se obrigado a recuar e as variações de flanco e circulação de bola do Sporting asfixiaram o seu adversário.

Os cruzamentos (11 na segunda parte, 26 no total) continuaram, mas agora com mais alvos na grande área, pelo que o 1-0 surgiu por Slimani, apagado na primeira parte, libertado das amarras por Montero na segunda. O argelino bisou dois minutos depois, isolado, Montero fez o 3-0 aos 82 minutos – o seu primeiro golo desde que bisou a 8 de Dezembro de 2013 contra o Gil Vicente, em Barcelos – e Nani fechou a contagem.

Nani influente

O golo foi, aliás, um prémio para Nani, que esteve sempre a bom nível. O internacional português rematou cinco vezes, duas enquadradas, criou uma ocasião de golo, cruzou seis vezes em jogadas corridas e fez a sua equipa jogar. Slimani apontou os dois primeiros da equipa, desbloqueando o impasse, isto num total de apenas três remates (33,3% de aproveitamento) e criou uma ocasião. Destaque ainda para Jefferson, com quatro passes para ocasião, Montero, com dois, um golo e uma assistência.

Os números finais mostram um Sporting que ganhou eficácia a partir de meio da segunda parte e que chegou ao golo com processos simples. Somou 505 passes, com apenas 77,6% de eficácia final, teve 67,4% de posse de bola, rematou 14 vezes, 11 de dentro da grande área contrária, e seis acertaram na baliza. Fica a questão: perante a diferença de desempenho entre o esquema habitual e uma solução com dois avançados, será que Marco Silva se sentirá tentado em mudar a filosofia de jogo da equipa?