“Temos de acarinhar todos se queremos voltar a discutir títulos, senão torna-se mais complicado para todos e não vou deixar que as coisas se tornem complicadas para mim”.

Esta é a frase que merece ser decifrada e foi proferida por Jorge Jesus no final da derrota, em Alvalade, com o Bayer Leverkusen a propósito dos assobios com que Teo Gutiérrez foi brindado quando foi substituído após (mais) uma exibição próxima da nulidade.

Mas, afinal, o que quer dizer Jorge Jesus com esta garantia de que não vai deixar que as coisas se tornem complicadas para ele próprio?

Ora bem, vamos dar um pouco de enquadramento. Jorge Jesus, pese embora os títulos conquistados em seis anos de Benfica, não foi convidado a renovar pelo clube pelo qual se sagrou três vezes campeão nacional em seis anos. Muitos acharão que Jesus podia ter ganho mais, outros consideram que Jesus cumpriu com êxito a sua estada na Luz. Eu sou daqueles que vai pela segunda opção, mas também sei que as dificuldades sentidas por Jesus em orientar um grande clube no estrangeiro nada têm a ver com as suas competências.

Na minha opinião, não vejo muitos treinadores no universo futebolístico com tanta competência ao nível do treino, devidamente transposta para os jogos oficiais. Jesus é excecional, mas é a falta de mundo e de algum contacto com a realidade que o tem impossibilitado de emigrar para um destino que lhe agrade.

Foi isso que aconteceu quando percebeu que Luís Filipe Vieira não queria renovar. Com o FC Porto ocupado, por via da persistência na aposta em Lopetegui – como deve estar arrependido Pinto da Costa -, o Sporting era o clube ideal para o ajuste de contas com o Benfica e talvez o único com empenho em contar com os seus serviços.

É verdade  que o estatuto de Jesus concede-lhe algumas benesses que outros treinadores não dispõem. Pode exibir a tal “taxa de bazófia” que já é uma imagem de marca, pode desprezar todas as competições em prol do campeonato, pode até dizer, erradamente na minha opinião, que Ruben Semedo tem muito a aprender e que vai ser ele a ensiná-lo, apesar do jovem ter sido formado naquela que é considerada uma das melhores academias do mundo. Jesus pode até ter dois critérios para os seus jogadores. Um mais rigoroso, outro mais suave que, por exemplo, Teo Gutiérrez conhece na perfeição – depois a gestão de balneário é outra conversa.

Vamos ser claros: para a maioria dos treinadores, os limites estão balizados num espaço que vai aumentando ou diminuindo conforme obtêm mais ou menos vitórias. Jesus faz parte daquele lote de treinadores que goza de um latifúndio para se espraiar.

Não pode é ir além desse latifúndio, que foi o que aconteceu na quinta-feira. Jesus ameaçou os adeptos. Deu-lhes a entender que podia bater com a porta, numa altura em que está a 27 meses do final do seu contrato.

Partindo do princípio que ninguém o chantageou para assinar pelo Sporting e que a SAD cumpre todas as suas obrigações (e não há motivos para pensar o contrário), Jesus pode ter legitimidade para fazer muita coisa. Mas não ultimatos.

Os adeptos são soberanos, tenham ou não razão. Não haveria clubes sem adeptos e percebe-se, de uma maneira indubitável, que os emblemas com sucesso pontual caem abruptamente quando não têm a força das massas.

Passado um limite, um limite perigoso, é bom que Jesus tenha a noção que se a bola não continuar a entrar – e convenhamos que nos últimos tempos as dificuldades têm-se acentuado – a paciência das bancadas vai esfumar-se num fósforo. Daí ao divórcio…

PS – Marco Silva foi sempre um treinador muito querido em Alvalade, porque teve a sensatez de perceber que enquanto os sócios estivessem consigo as coisas não se tornariam irremediavelmente complicadas para o seu lado.