Pinto da Costa vence de novo?

Em dois meses a confusão e desnorte deu lugar à calma candidatura ao título (foto: fcp)
Em dois meses a confusão e desnorte deu lugar à calma candidatura ao título (foto: fcp)

Se no final do mês de Maio me dissessem que, por esta altura, o contexto de Benfica, Porto e Sporting seria o actual teria alguma dificuldade em considerar o prognóstico credível. O Benfica, apesar de mais uma desilusão europeia, concluía uma época de regresso aos triunfos realmente significativos projectando discutir seriamente a hegemonia “azul-e-branca”. No extremo oposto surgia um FC Porto a registar uma das piores épocas que a memória me permite alcançar e emitindo sinais claros de alguma desagregação interna. Num plano intermédio, ainda que vencedor fruto do ponto de partida, surgia um Sporting altamente competitivo para o diferencial de recursos que apresentava face aos rivais o qual, não lhe permitindo discutir efectivamente o título lhe permitia um regresso justo e animador à Liga dos Campeões.

Passados poucos mais de dois meses o panorama é quase irreconhecível. O Sporting reagiu de forma célere e teoricamente eficaz ao percalço criado por Leonardo Jardim. Fruto disso e de uma estrutura quase inalterada até ao arranque da Liga 2014/15 protagonizou uma pré-temporada calma, mesmo apesar do abrandamento nos últimos jogos. Para lá do plano desportivo os “leões” mostraram-se aparentemente impassíveis aos acontecimentos extra-futebol que abalaram visivelmente o rival da segunda circular, parecendo (até hoje) não necessitar de vender para prosseguir caminho, fruto talvez da racionalização que vinham operando desde Janeiro de 2013. No entanto, na última semana tudo se modificou.

A tranquilidade “verde-e-branca” foi afectada por uma “guerra de mercado” envolvendo Rojo e Slimani, dois elementos fundamentais no decurso da época anterior (o argelino, como já aqui focámos, foi até o avançado leonino com maior influência nos resultados, mesmo facturando menos que o “desaparecido” Montero). Ainda é cedo para perceber o impacto que estes casos terão no plantel e no rendimento leonino mas uma coisa é certa: após um Verão calmo nada fazia prever os “tremores” em véspera de arranque de uma época de maiores ambições e aparente superioridade inicial face aos rivais fruto de um “xadrez” menos mexido.

O Benfica está como está. Dono de um “onze” que continua capaz de cilindrar, como foi possível observar na Supertaça frente ao Rio Ave, mas possuindo um plantel que apenas o mais optimista dirá ter idêntica capacidade aos últimos três, sendo que os “encarnados” se apresentam nas mesmíssimas competições que disputaram nos últimos anos. Mesmo após a entrevista de Luís Filipe Vieira ao canal do clube é ainda difícil perceber (para lá do que publicam os jornais) o que realmente se passou na Luz, por mais óbvia que seja a relação entre a desintegração do BES e a estratégia de mercado das “águias”. Os responsáveis dos campeões nacionais afirmam que ainda faltam chegar (o número varia consoante o porta-voz) soluções de qualidade inquestionável para o plantel benfiquista. Veremos, mas até as soluções de maior qualidade necessitam de tempo para se integrarem e renderem ao nível do que o Benfica necessita caso queira manter o nível exibido em anos recentes. Fica a ideia clara de que o Benfica fez o mercado que pôde mas não o que queria fazer, bem como terá disputado uma pré-temporada dimensionada para um fluxo de entradas e saídas que não conseguiu cumprir. A Supertaça permitiu, aliás, que algumas vozes dissessem que afinal está tudo muito melhor do que se dizia, alheios talvez ao facto de que o Benfica, pese o enorme domínio exercido, não só não conseguiu concretizar (Lima está sozinho, Derley por comprovar apesar das boas indicações) como esteve bem perto de perder o jogo já no prolongamento. A defesa “encarnada” dificilmente poderá escapar ao vazio deixado pela saída de Garay, pelo menos no imediato, mas tal como preconizámos no GoalPoint o tempo e os inúmeros dados estatísticos dirão se esta desconfiança se concretiza ou se não passará de um exercício de “achómetro” da minha parte.

E o Porto? Ao Porto falta, tal como a todos os outros, provar-se na hora das decisões mas é inegável que parece apresentar-se de cara totalmente lavada neste arranque, muito acima das expectativas generalizadas, quando já muitos vaticinavam um declínio do “dragão”. Chegaram reforços de qualidade e adequados às necessidades do plantel. Chegou um treinador que independentemente das dúvidas que possa provocar sobre a sua capacidade para liderar um projecto de futebol de clube dominador parece já ter conseguido algo até há dois meses improvável: impor a sua lei e uma aparente influência raramente antes vista num treinador “azul-e-branco” na hora de definir os alvos de mercado.

Qual o número exacto de espanhóis que deve ter o plantel do FC Porto? É uma discussão que não me sinto habilitado a ter. Mas os “dragões” parecem ter o número suficiente de soluções, sejam elas espanholas, colombianas ou argelinas para regressar ao papel que desempenharam no futebol português nos últimos trinta anos. E como isso poderemos estar a assistir ao que para alguns, menos atentos à História, poderá parecer uma surpresa: o momento em que Pinto da Costa sorri de novo e afirma uma frase celebrizada por Mark Twain: “A notícia da minha morte foi amplamente exagerada.” Por agora ainda é cedo para conclusões e o Porto tem, já na próxima semana, a primeira volta de um desafio decisivo, no bom e no mau sentido: a discussão do apuramento para a fase de grupos frente ao Lille. Ultrapassem os “dragões” esse teste e provavelmente o Porto que já muitos julgavam em queda estará de volta. Falhe o Porto essa prova fundamental e dificilmente escapará ao regresso a uma crise cuja fuga tão bem planeou.