Por que não estão os brasileiros felizes com a “Copa”?

Carlos Iavelberg, correspondente GoalPoint no Brasil explica o estado de espírito actual da nação do futebol que aparentemente não está tão feliz com o regresso da "Copa" com seria de esperar.

Faz 64 anos que o Brasil – que nós brasileiros gostamos de dizer que é o país do futebol – não recebia uma Copa do Mundo. Naquele longínquo ano de 1950 deixamos escapar o título para o Uruguai, no famoso “Maracanazo”. Nada mais normal que agora esperar uma população entusiasmada com a possibilidade de corrigir esse erro histórico que foi aquela derrota. Time, pelo menos, nós temos para sonhar com o sexto título.

Mas não é bem o que se vê pelas ruas do país. Ao andar por São Paulo, a maior cidade do Brasil e onde vivo, a sensação é de que falta muito tempo para a Copa começar (escrevo este texto três dias antes da abertura do torneio). A preocupação é com uma greve no metrô. Demais paralisações também assustaram outras cidades, como o Rio de Janeiro, nas últimas semanas.

Mas o que está acontecendo? Por que os brasileiros estão tão pouco animados? Os motivos são vários, mas alguns números ajudam a explicar a situação. Há sete anos, quando o Brasil foi escolhido para sediar a Copa, nos foi feita uma promessa: muitos dos recursos para viabilizar o torneio seriam privados. Pegava mal um país ainda com tanta miséria gastar dinheiro em estádios para gringos, não? Em 2008, uma pesquisa do instituto Datafolha apontava que 79% dos brasileiros eram a favor da Copa no país.

Os anos se passaram, as obras dos estádios atrasaram, o dinheiro privado não veio, os recursos públicos cresceram, os aeroportos prometidos não ficaram prontos a tempo, as obras para melhorar o transporte público não saíram do papel…o brasileiro se irritou.

Vamos aos números: segundo reportagem do jornal “Folha de S.Paulo” de Maio, “o país concluiu menos da metade daquilo que se comprometeu a fazer para o Mundial. De 167 intervenções anunciadas, apenas 68 estão prontas, ou 41%. Outras 88 (53%) ainda estão incompletas ou ficarão para depois da Copa. Onze obras foram abandonadas e não sairão do papel.” Não à toa, pesquisa publicada esta semana mostra que o apoio à realização da Copa no país caiu. Agora, apenas metade da população é a favor.

Os gastos para a construção dos estádios são outro aspecto que incomoda a população. Vejamos o caso da Arena Amazônia, em Manaus, onde Portugal jogará contra os Estados Unidos na segunda partida da fase de grupos. O custo inicial do estádio era de 500 milhões de reais (165 milhões de euros), mas o valor final ficou em 757 milhões de reais (250 milhões de euros), alta de 51,7%. Pelo menos o local servirá para os jogos dos times locais no futuro, certo? Mais ou menos. Sabe quantos clubes amazonenses disputam a primeira divisão do campeonato brasileiro? Nenhum. E a segunda? Nenhuma. Algum na terceira? Não, eles jogam apenas a quarta divisão. Bom, mas deve servir para o campeonato estadual, não? Até poderia, mas na última edição a média de público ficou abaixo dos mil torcedores por partida. Tudo indica que plantaram um “elefante branco” no meio da Amazônia. E este não será o único.

Ainda falando de gastos, estimativas oficiais do governo apontam que a Copa custará aos cofres públicos 25,8 mil milhões (8,5 mil milhões de euros) – esse valor deverá ser maior. Isso equivale a mais ou menos a verba mensal do Ministério Brasileiro da Educação. Proporcionalmente não parece muito. Mas para um país que tem índices ruins de educação e professores em greve pedindo aumento de salário, esse tipo de gasto não soa lá muito bem. Para se ter uma ideia, o gasto público para o Mundial no Brasil equivale a 5% de todo o PIB de Portugal no ano passado.

Só isso explica o mau-humor com a Copa? Não. Desde as manifestações do meio do ano passado o povo brasileiro tem reprovado políticos e instituições públicas de forma geral. Enganar a população com falsas promessas e gastar o dinheiro público dessa forma não ajuda. Vamos ao menos esperar que dentro de campo a coisa seja boa, com belos jogos e craques desfilando pelos gramados brasileiros.