Porto 0 – Boavista 0: “Dragão” esbarra na garra boavisteira

Porto e Boavista reeditaram o derby portuense seis anos depois. Com este resultado o Benfica é líder isolado do campeonato.

Jackson foi dos poucos "dragões" a não esquecer a importância de rematar para vencer (foto: J. Trindade infografia: GoalPoint)
Jackson foi dos poucos “dragões” a não esquecer a importância de rematar para vencer (foto: J. Trindade infografia: GoalPoint)

O derby do Porto ficou marcado pelo atraso de 45 minutos devido ao mau tempo. Apesar da ameaça de adiamento, o duelo acabou por arrancar com o frio e a chuva a não travarem as intenções da equipa orientada por Julen Lopetegui.

O treinador espanhol optou por gerir a equipa do ponto de vista físico e realizar seis substituições face ao embate frente ao BATE Borisov. Andrés Fernández, Marcano, José Ángel, Rúben Neves, Evandro e Tello foram promovidos ao “onze” titular. Os “dragões” entraram com o seu tradicional 4x3x3.

Do lado do Boavista, Petit adoptou uma estratégia de contenção, dispondo a equipa axadrezada em 4x1x4x1. Os “axadrezados” entraram com um bloco baixo, entregando a iniciativa de jogo à equipa da casa, e procurando surpreender depois em transições rápidas, o que só se veio a verificar depois da expulsão de Maicon aos 25 minutos.

O primeiro aviso surgiu dos pés de Brahimi aos cinco minutos. A equipa portista seguiu a tendência do extremo argelino e rematou 19 vezes ao longo do encontro, mas só quatro foram enquadrados com a baliza. Jackson foi o responsável por três desses quatro remates. Aos 25 minutos Maicon viu vermelho directo e o técnico do Boavista não demorou a mexer. Brito entrou para o lugar de Carlos Santos, recuando Anderson Correia para o lugar de defesa-esquerdo. Petit tentou imprimir mais velocidade e profundidade ao flanco esquerdo, aproveitando dessa forma a superioridade numérica.

Mesmo com menos uma unidade o Porto continuou a controlar o jogo, terminando a primeira parte com 321 passes e perto de 80% de posse de bola. No segundo tempo, Evandro cedeu o lugar a Casemiro. O brasileiro entrou para jogar a central, com Herrera a assumir a posição “6” e Rúben Neves mais adiantado a assumir as despesas da organização ofensiva.

O conjunto “axadrezado” desdobrou o seu 4x1x4x1 em 4x3x3 com a entrada de Wei Shihao aos 63 minutos. Miguel Cid foi o eleito a sair, passando Zé Manuel para a direita do meio-campo e Beckeles para o centro. Com esta alteração, Petit refrescou a frente de ataque e deu mais músculo ao meio-campo, tentando impedir desde logo as acções de Casemiro e Herrera que organizavam o processo ofensivo sem pressão.

Tello e Herrera deram o lugar a Quaresma e Adrián aos 74 e 82 minutos. Os dois extremos entraram no jogo para abanar a defesa do Boavista, mas sem sucesso. O jogo terminou com o Porto por cima do Boavista à procura do golo da vitória. O Porto controlou e dominou a equipa adversária mas sem consequências práticas para o resultado final. A ascensão portista materializou-se em 666 passes efectuados (86,9% de eficácia) e posse de bola de 79,3%, contra 177 do Boavista e apenas 20,7% de posse de bola.

Clique na infografia para ler em detalhe (infografia: GoalPoint)
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Agressividade vs qualidade técnica

Mais uma vez ficou presente que o Boavista é uma extensão da imagem do seu treinador. Petit era conhecido por um jogador agressivo, tacticamente cumpridor e que nunca desistia de um lance.

Tengarrinha assume um papel crucial no equilíbrio táctico da equipa, alinhando como a âncora no seu processo defensivo, ligando ainda o jogo na fase atacante. Anderson Carvalho e Miguel Cid alinharam à sua frente. Um meio-campo a três cuja função passou por anular e quebrar a intensidade adversária, explorando depois as transições rápidas com Brito a Zé Manuel como as principais referências. O avançado batalhou muito na frente de ataque e foi a unidade que criou mais dificuldades.

A estratégia do Porto assentou na lateralização e desdobramento ofensivo dos laterais, Danilo e José Ángel, para apoiarem os extremos, Brahimi e Tello. No plano ofensivo estiveram abaixo do pretendido. Os “dragões” cruzaram por 29 vezes, mas apenas cinco encontraram o caminho desejado.

Ofensivamente o Boavista não conseguiu criar situações de perigo para Andrés Fernández. A formação de Petit teve como protagonistas Anderson Carvalho e Beckeles com 65,4% e 59,1% de eficácia de passes.

Do lado do Porto, Casemiro, José Ángel, Herrera e Maicon apresentaram uma eficácia de passes acima dos 90%. Danilo também foi dos jogadores mais certeiros com 88,6%. Partindo do meio para as faixas, o Porto nunca conseguiu desposicionar a defesa “axadrezada”. Casemiro entrou bem na partida e fez mais de 22 passes no meio-campo ofensivo, com 90,9% de eficácia. Um dado que demonstra que o “trinco” adaptado a central passou grande parte do jogo em terrenos adiantados, reflectindo o domínio de uma equipa tecnicamente superior. Com 73 dos duelos ganhos contra 69 do Boavista, o Porto não conseguiu encontrar espaços entre os sectores ou nas costas da defesa boavisteira, tornando-se uma equipa previsível e pouco decidida.

Noite desinspirada

João Dias, defesa-direito e capitão do Boavista, travou inúmeras investidas do Porto, com Brahimi à cabeça. O número 2 apresentou um nível muito elevado de consistência e concentração defensiva, ganhando 80% dos duelos defensivos.

Quem também teve dificuldades para impor o seu ritmo foi Jackson Martínez. O colombiano foi o elemento mais perigoso do Porto mas mesmo assim insuficiente para impedir o empate. O capitão portista somou seis remates à baliza adversária. Se o Boavista sobreviveu no jogo deste domingo, muito pode agradecer a Mika. A vontade do Porto chegar à vitória esbarrou sempre no guarda-redes português.

Faltou lucidez, clarividência e intensidade ao Porto numa noite em que o Boavista de Petit mostrou mais uma vez ser uma equipa competente e organizada do ponto de vista defensivo.

Francisco Gomes da Silva
Nascido em 1993 e licenciado em Economia. Um campo, uma bola e 22 jogadores, uma paixão que despertou bem cedo na sua vida. Jogou até aos 19 anos, seguindo-se passagens como treinador-adjunto dos Sub-19 e Sub-15 do Grupo Desportivo Alcochetense. Paralelamente iniciou-se na área de comunicação através de análises tácticas e técnicas para sites e revistas em Portugal. Colabora ainda com o Departamento de Prospeção do Benfica na condição de observador.