Porto 1-5 Liverpool: a hecatombe explicada em mapas 🗺️

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A verdade é difícil de contornar, o Porto foi atropelado pelo Liverpool e não é a primeira vez. Tal como na primeira jornada, aquando da recepção do Sporting ao Ajax, também desta feita olhamos em pormenor a “hecatombe” de um clube português na Europa, ambas caseiras e por números idênticos. O Porto não foi capaz de travar o poderio dos “reds” e foi goleado, tal como já havia sucedido em  2017/18em 2018/19, sempre no Dragão e sob o comando de Sérgio Conceição.

“Foi vergonhoso”, afirmou o treinador portista, no final da partida, visando os seus jogadores pela má exibição. No entanto, Sérgio Conceição assumiu também a responsabilidade individual e a verdade é que, para lá do adversário e seu técnico (Jurgen Klopp), o timoneiro “azul-e-branco” é o outro denominador comum nas três goleadas, cada uma com a sua história. Hoje procuramos compreender o mais recente desaire, com ajuda dos mapas e números GoalPoint. Vamos a isso.

1. Uma auto-estrada pela esquerda

Ou pela direita, se a nossa perspectiva for a defesa portista. Os mapas de conduções aproximativas e até de dribles somados pelo Liverpool apontam para um “defeito” que vamos ver repetido ao longo de quase toda a análise e que contribuiu decisivamente para a queda lusa: a incapacidade portista para travar as investidas pelo flanco esquerdo do ataque inglês foi por demais evidente.

[ As conduções (à esquerda) e os dribles (a azul os completos) do Liverpool ]

O Liverpool somou 15 conduções aproximativas – linhas tracejadas que mostram redução de distância para a baliza em pelo menos 25% e pelo menos dez metros – e quatro super aproximativas, e só duas aconteceram pelo flanco direito atacante. Todas as outras surgiram pelo lado canhoto, e defensivamente, nem Jesús Corona nem qualquer outro “dragão” estiveram verdadeiramente à altura do desafio para travar o MVP Andrew Robinson, Sadio Mané e companhia, algo que se percebe também no mapa de dribles tentados pelos ingleses.

Os “reds” ensaiam 24 vezes o drible, 12 delas com sucesso, e os completos aconteceram, na sua maioria, do lado esquerdo do seu ataque. Ainda assim, Corona somou quatro desarmes e três bloqueios de remate, o que aponta para falta de apoio eficaz ao mexicano. Algo que, do lado oposto não foi tão fácil. Pensa o caro leitor que, então, o lado esquerdo defensivo dos “azuis-e-brancos” esteve bem. Nem por isso, dizemos nós, com base nos próximos indicadores.

2. Festival de perdas de posse

Basta um olhar rápido pelos mapas seguintes, de perdas de posse e maus controlos de bola, para se perceber que, se do lado direito defensivo portista o problema foi mesmo travar as progressões, do lado esquerdo a dificuldade foi manter a bola, em posse e segurança.

[ As perdas de posse (à esquerda) e os maus controlos de bola do Porto ]

O mapa da esquerda mostra a distribuição das perdas de posse do Porto, por zonas, e o campo mostra-se claramente “inclinado” para o flanco canhoto. Deste lado foram 22 as perdas no terço mais ofensivo, 35 no intermédio e 14 no defensivo, uma diferença abissal em relação ao lado direito.

Olhando os números na horizontal, sobem a 27 as perdas de posse do Porto no seu terço defensivo, enquanto o Liverpool não foi além das cinco (três por James Milner, curiosamente). Zaidu (precisamente o lateral-esquerdo), com seis, Marcano e Corona, ambos com cinco, e Uribe, com quatro, foram os jogadores que mais bola entregaram ao “inimigo”, no terço mais sensível do campo.

Também os controlos de bola deficientes mostram um problema “canhoto” no lado portista. Ao todo foram 22, a maioria do lado esquerdo, sendo que do direito verificaram-se somente seis. Mais uma vez Zaidu, mas também Luis Díaz (os homens do corredor esquerdo), foram os que mais maus controlos somaram, quatro cada um. De notar que os ingleses não passaram dos 12 no total.

3. Via livre para o passe perigoso

Toda esta permeabilidade permitiu ao Liverpool criar perigo frequente, desaguando tudo num resultado doloroso para os “dragões”. E esse facto está espelhado nos passes feitos, para remate ou situações perigosas.

[ Da esquerda para a direita: passes ofensivos valiosos, passes para finalização, flagrantes criadas (Liverpool) ]

Ao todo os comandados de Jürgen Klopp fizeram 33 passes ofensivos valiosos (Porto 15), ou seja, entregas eficazes para os últimos 25 metros do terreno de jogo, os quais pode ver no mapa da esquerda. Tal como nos referimos no nosso primeiro ponto de análise, a criação de perigo por parte dos ingleses aconteceu sobretudo do seu lado esquerdo, algo que se nota claramente nos três mapas acima, incluindo nos 13 passes para finalização (ao centro), dos quais apenas quatro vieram do lado direito, e nas ocasiões flagrantes criadas. O Liverpool beneficiou de cinco e somente uma não surgiu do flanco canhoto. Dá que pensar.

4. A história dos remates

Mais provas de um padrão canhoto? Venham de lá. Temos as conduções, o passe, e o remate. Nos mapas seguintes podemos constatar que até as finalizações tiveram origem maioritária do lado esquerdo do ataque inglês.

[ As acções pré-remate (à esquerda) e os remates do Liverpool ]

As situações pré-remate, no mapa da esquerda, voltam a mostrar conduções e passes maioritariamente pela esquerda, algo corroborado pelo gráfico de remates à direita (as setas azuis são os enquadrados, as amarelas os golos). Aliás, dos três disparos originários do lado direito, dois foram desenquadrados com a baliza de Diogo Costa, um deu golo. Porém, o lado canhoto está totalmente congestionado por tentativas inglesas de visar a baliza. Mais do que questões individuais, parece haver aqui uma tendência para um problema colectivo que atingiu os “dragões” neste jogo.

5. Liverpool a pressionar a todo o campo

Por fim um retrato último nesta análise, que mostra as dificuldades que os “dragões” sentiram perante a pressão adiantada dos ingleses – uma das suas imagens de marca – e para roubarem a bola aos visitantes. De novo, a maior competência defensiva dos portistas do lado esquerdo fica bem patente.

[ As acções defensivas do Porto (à esquerda) e do Liverpool ]

No mapa da esquerda é claro o sufoco dos “reds” na partida, com a maioria das acções defensivas – desarmes, intercepções, alívios e bloqueios vários – a acontecerem já na grande área portista, ou à entrada da mesma. O lado esquerdo da defesa apresenta um número mais elevado destas acções, novamente mostrando os problemas do lado oposto para travar as investidas contrárias. No mapa da direita a história é completamente diferente, com as acções do Liverpool a acontecerem um pouco por todo o lado, incluindo uma na própria área do Porto. Para termos uma ideia, os “reds” somaram o dobro das acções defensivas no meio-campo adversário (16 contra 8), curiosamente uma qualidade pela qual o Porto se costuma destacar, nas competições internas.

Para estudo e correcção ficam diversos pontos para Sérgio Conceição trabalhar: a saída de bola para evitar a pressão constante do Liverpool, os processos defensivos do lado direito, que falharam e abriram uma auto-estrada para o futebol atacante vertiginoso dos homens de Anfield, a qualidade do lado esquerdo no momentos de controlo de bola e perda de posse. Perante estes sintomas não fica difícil de perceber o que faltou ao “dragão” na noite desta terça-feira e o que necessita de ser melhorado.

Outros factos da 2ª jornada da Champions 21/22 (até ao momento)

  • O Liverpool nunca perdeu com o Porto em nove jogos entre ambos (6V 3E). Na História dos “reds” apenas frente ao Scunthorpe United e ao Walsall a equipa jogou mais encontros sem conhecer o sabor da derrota (11 cada)
  • Sadio Mané marcou cinco golos ao Porto na Liga dos Campeões, o máximo de um jogador dos “reds” frente a um só adversário na competição
  • Mohamed Salah tornou-se no terceiro jogador africano com 30 ou mais golos na Champions, atrás de Didier Drogba (44) e Samuel Eto’o (30)

  • O Sheriff tornou-se na segunda equipa desde o Leicester City em 2016/17 a vencer os seus primeiros dois jogos de sempre na Liga dos Campeões, após derrotar o Shakhtar por 2-0 e o Real Madrid por 2-1
  • Leonel Messi é o carrasco do Manchester City, pois é o jogador com mais tentos apontados ao emblema inglês (7) em jogos da Champions. Pep Guardiola, seu antigo treinador, é o técnico que mais vezes viu “La Pulga” marcar-lhe (também 7, 2 no Bayern, 5 no City)

  • Messi marcou 27 golos em 35 partidas ante formações inglesas na Liga dos Campeões, mais 15 do que qualquer outro jogador
  • Karim Benzema marcou em 17 edições da Champions, mais do que qualquer outro futebolista… sim até mais que Cristiano Ronaldo.
Pedro Tudela
Pedro Tudela
Profissional freelancer com 19 anos de carreira no jornalismo desportivo, colaborou, entre outros media nacionais, com A Bola e o UEFA.com.