Este não é um texto sobre o VAR. Ou melhor, é, mas não da forma como poderão, alguns leitores, pensar. Não pretende elogiar, criticar, apoiar ou combater a utilização do vídeo-árbitro. Querem estas linhas apenas olhar para a realidade do futebol após a introdução do vídeo como forma de ajudar as equipas de arbitragem em campo, e tentar identificar que efeitos teve na modalidade que todos acompanhamos com paixão.

Sejam quais forem as posições sobre o VAR, é inegável que o futebol nunca mais foi o mesmo e há uma História da modalidade antes e depois da introdução deste sistema. Esta ideia ficou mais clara após o Mundial 2018, nomeadamente pelo número radicalmente superior de grandes penalidades assinaladas em relação a 2014. De repente, o VAR vinha para aumentar o número de penáltis assinalados, lances que passavam despercebidos aos olhos dos árbitros de forma tradicional – ou outras situações mais extremas, como cartões vermelhos directos. Mas será que é mesmo assim?

Olhámos para a Liga NOS, a Bundesliga e a Serie A – que adoptaram o VAR em 2017/18 -, desde 2015/16 até à última temporada, para ver se é mesmo assim. E, de facto, não é.

Liga NOS 15/16Liga NOS 16/17Liga NOS 17/18*
Penáltis939096
Penáltis p/ jornada2,742,652,82
Vermelhos directos453348
Ver. Dir. p/ jornada1,320,971,41
Bundesliga 15/16Bundesliga 16/17Bundesliga 17/18*
Penáltis849788
Penáltis p/ jornada2,472,852,59
Vermelhos directos152820
Ver. Dir. p/ jornada0,440,820,59
Serie A 15/16Serie A 16/17Serie A 17/18*
Penáltis121136119
Penáltis p/ jornada3,183,583,13
Vermelhos directos484644
Ver. Dir. p/ jornada1,261,211,16
Mundial 2014Mundial 2018*
Penáltis1329
Penáltis p/ jogo0,20,45
Vermelhos directos104
Ver. Dir. p/ jogo0,160,06

Fonte: GoalPoint/Opta
* Época de introdução do VAR

Das três ligas em análise, apenas a portuguesa viu aumentar o número de grandes penalidades assinaladas e de cartões vermelhos directos mostrados e, ainda assim, esse aumento nem foi significativo. Em Itália, aliás, o efeito foi o inverso – caso façamos uma relação directa entre a introdução do VAR e o assinalar dos lances -, com uma diminuição do número de penáltis em relação à temporada 2016/17, imediatamente anterior à introdução do sistema. Ainda assim, menos dois cartões vermelhos directos do que em 2015/16. A mesma tendência verificou-se na Alemanha.

A ideia que fica é que, de certa forma, o VAR terá tido um efeito de retracção nos jogadores em termos disciplinares, cientes de que o vídeo detectaria acções mais violentas à margem das leis, e nos lances dentro das suas grandes áreas. O curioso é mesmo constatar que, ao invés, e apesar de não ser uma diferença relevante, esse mesmo efeito não se ter verificado em Portugal. Por que motivo é assim? Má preparação das equipas e dos jogadores relativamente à nova realidade? Critérios demasiado apertados em Portugal – ou largos em demasia na Alemanha e em Itália? E o caso dos 29 penáltis no Mundial 2018 em relação aos parcos 13 no Brasil-2014?

Talvez seja cedo para tirar grandes conclusões, mas aparentemente, o VAR segue a mesma tendência que existia na arbitragem sem este sistema. Ou seja, reflecte a cultura futebolística de cada país, não só no futebol apresentado e suas particularidades, como na análise dos lances. Resta saber como ficará o panorama quando o sistema amadurecer a nível global.