Que guardiões da Liga 20/21 suplantam as expectactivas?

-

No fim da semana que viu partir o guarda-redes da seleção nacional de andebol e um dos melhores guarda-redes da história da Liga portuguesa da modalidade – Alfredo Quintana –, decidimos fazer uma homenagem àqueles que são a última barreira defensiva da equipa. A verdade é que os guarda-redes – tal como os postes no basquetebol, os kickers no futebol americano ou até os líberos no voleibol – tendem a cair para um segundo plano de notoriedade, escapando muitas vezes ao mérito que merecem.

Um bom exemplo recente é o de Andreas Linde, do Molde, que na última eliminatória da Liga Europa somou nada menos que… 18 defesas! Um caso certamente digno de maior destaque, não?

Mas a qualidade dos “keepers” não se mede apenas pela quantidade de defesas que somam ou sequer pelo conjunto mais alargado de métricas que iremos usar na análise que lhe trazemos. A posição e o jogo de um guarda-redes encerram um grau de complexidade que não é inteiramente “explicado” pelos analytics. Mas isso não significa que não seja possível decompor e destacar os feitos  dos “últimos guardiões”, em números. Vamos a isso?

Dos Expected aos Prevented Goals

Começamos por analisar os guarda-redes que mais golos evitam na Liga portuguesa. Mas o que é isto dos golos evitados? A métrica de Golos Evitados (ou “Goals Prevented”) traduz a diferença entre os Golos Esperados sofridos e os golos sofridos na realidade. Ou seja, se um guarda-redes sofre oito golos, mas enfrentou um registo de dez Expected Goals, isso significa que evitou dois golos (25% de golos evitados).

Mas atenção! É fácil assumir que os Golos Esperados sofridos igualem o somatório de Expected Goals (xG) contra um certo guarda-redes, mas… essa conclusão está errada. Porquê? Porque o total de Expected Goals enfrentado por um guardião inclui também os remates que não são enquadrados, sendo assim necessário utilizar uma métrica que os elimine – o xGOT (Expected Goals On Target ou Golos Esperados Enquadrados). Esta medida não só exclui os remates para fora, como tem também em consideração o destino, na baliza, de cada remate. Vejamos o seguinte exemplo:

O jogador Afonso Sousa encontra-se dentro da área, em ângulo apertado, com oposição de dois defesas do Braga entre a bola e a baliza. Remate complicado? Sem dúvida. Expected Goal (xG)? 4%. Execução? Perfeita. xGOT? 84%. Ou seja, o jovem português, numa situação de remate no mínimo desfavorável, “sacou” um disparo tão bom que teve 84% de se transformar em golo – deixando Matheus sem grande hipótese de voar para a defesa.

Que guardiões suplantam as expectativas?

Antes das conclusões explicamos o “boneco” com que abrimos o tema: quanto mais para cima, menos golos sofreram os guarda-redes indicados. Quanto mais para a direita menos Golos Esperados permitiram. Se os pontos estiverem acima do tracejado, os guardiões apresentam um número positivo de golos evitados. Se estiverem abaixo o registo de Golos Evitados é negativo.

Clique para ampliar

Adán (Sporting CP) e Kritciuk (Belenenses SAD) foram os “luvas” que menos golos sofreram até ao momento, com o espanhol a registar mais 658 minutos que o russo, no momento desta análise. O “leão” sofre em média um golo a cada dois jogos, um registo fantástico que evidencia a qualidade defensiva, dele e da equipa que o escuda.

Kieszek (Rio Ave) e Amir (Marítimo) são os únicos guarda-redes que já evitaram mais de seis golos na Liga NOS. Porém, são respetivamente, o segundo e o terceiro guarda-redes que mais golos sofreram até à 20ª jornada e, por isso, o impacto do polaco e do iraniano entre os postes é diluído pelo número excessivo de golos que permitiram.

Embora este modelo só identifique quatro jogadores com um número de golos evitados negativo, estes são quatro guarda-redes que, indubitavelmente, têm ficado aquém das expetativas. Léo Jardim é o jogador com mais golos sofridos da Liga (1,6 por partida). Já Rafael Defendi e Babacar Niassé têm um valor de golos evitados inferior a -3, ou seja, ambos já sofreram três ou mais golos do que se esperava que sofressem.

Kritciuk e Odysseas, os excepcionais

Mas há um guarda-redes que supera, e por larga margem, qualquer outro colega de posição no que toca a percentagem de golos evitados. É ele Stanislav Kritciuk (Belenenses SAD) com quase 40% de golos evitados, e que já havia fechado a 1ª volta com o segundo melhor rating na posição. A este ritmo, se terminar a Liga com 20 golos sofridos, espera-se que o russo tenha evitado um total de oito (!) golos. Com ajuda do mapa, percebe-se que o guarda-redes às ordens de Petit enfrenta remates de maior dificuldade no lado inferior esquerdo da baliza, mas mantém uma óptima percentagem de defesas de 77%.

Clique para ampliar

O outro guarda-redes que acompanha Stanislav Kritciuk, ainda que à distância, é Odysseas Vlachodimos (Benfica), com 30% de golos evitados. O destaque será fraca surpresa, pelo menos para quem acompanha o GoalPoint, ou não tivesse sido o grego identificado, há precisamente um ano, como o melhor “cadeado” da Europa da altura, numa fase em que o Benfica enfrentava problemas defensivos disfarçados pelo seu guardião. Surpresa será apenas o facto de o internacional ter perdido a titularidade nos últimos tempos. Curiosamente, o canto inferior esquerdo é também o favorito dos oponentes de Odysseas, e é aqui que o guardião helénico deixa fugir Kritciuk, com uma percentagem de defesas de 58%.

Clique para ampliar

[ Este artigo gerou pedidos posteriores, aqui está o mais solicitado, analisado pelo TacticalSupersub com dados GoalPoint ]

Jordi, o aventureiro

Outra vertente importante na análise aos guarda-redes é o conforto que mostram fora da pequena-área. Seja na capacidade de subirem o posicionamento para cortarem distâncias para o rematador, na coragem que demonstram em duelos aéreos em zonas mais arriscadas, ou até na capacidade de serem “sweepers” ajudando no controlo da profundidade, a verdade é que o guarda-redes moderno tende a arriscar mais em função da crescente popularidade das linhas defensivas altas.

Clique para ampliar

Jordi Martins (Paços de Ferreira), aposta GoalPoint Liga NOS para 20/21, é claro destaque neste capítulo, com 40% das suas acções de jogos a serem realizadas fora da pequena área, um registo máximo na Liga em curso. Jordi também não receia sair do seu conforto para enfrentar adversários em duelo pelo ar, acumulando 23 saídas aéreas, mais uma vez um registo máximo na prova. O brasileiro é ainda o guardião com mais acções com bola, uma vez retiradas da equação as defesas e saídas aéreas. E ainda mais surpreendente se torna o mapa dessas mesmas acções, em particular as sete que o pacense soma fora da grande área.

Clique para ampliar

Em contrapartida, Denis (Gil Vicente) é o guarda-redes que menos sai da pequena área, com menos de uma acção a cada dois jogos, fazendo o seu “jogo” maioritariamente entre os postes (87%).

O trabalho dos guardiões tem muito que se lhe diga e, como referimos, muito dele não passa (ainda) pelos números. Mas uma coisa é certa: com ou sem analytics, os “loucos” que jogam entre os postes merecem maior destaque. Que esta análise sirva esse propósito e que muitas mais se sigam.

TacticalSuperSub
TacticalSuperSub
No verão de 2020 deu sequência à paixão pelo Futebol no twitter, oferecendo análises e grafismos originais que chamaram a atenção dos mais atentos. No início de 2021 foi convidado pela GoalPoint para juntos fazerem ainda mais e melhor.