Que tal Thobias e Gonçalic?

A aposta em talentos nacionais tem de passar pelos treinadores (fotos: J. Trindade)
A aposta em talentos nacionais tem de passar pelos treinadores (fotos: J. Trindade)

Há uns anos, mais propriamente há 14, estive em Israel na qualidade de enviado-especial do jornal A Bola a propósito do Europeu sub-17, que Portugal acabaria por ganhar.

Durante a competição, muitos foram os olheiros que abordavam os jornalistas portugueses presentes na prova, ao todo quatro, para saberem pormenores dos futebolistas portugueses que mais lhes tinham saltado à vista. Ricardo Quaresma, claro está, Raul Meireles e, acima de todos os outros por larga distância, Carlos Marques. Quem? Carlos Marques, central, capitão daquela selecção, formado no Sporting e a quem todos auguravam uma carreira ímpar ao mais alto nível. Carlos Marques, um exemplo no meio de um imenso desperdício, tinha tudo mas faltou-lhe uma coisa: a oportunidade. Fez uma carreira fraca, demasiado fraca para as ferramentas de que dispunha. Aceito que ele próprio tenha algumas culpas no cartório, mas faltou-lhe, na hora certa, não uma oportunidade mas “a” oportunidade.

Passaram-se muitos anos mas o problema é actual e os nossos treinadores continuam a manifestar a mesma –não há outra forma de o dizer – falta de coragem e a primeira coisa que me apetece  é dar um conselho ao benfiquista Gonçalo Guedes e ao sportinguista Tobias Figueiredo; vão à conservatória do registo civil e mudem os nomes próprios para Gonçalic e Thobias. E se o fizerem terão muitas mais hipóteses de ser alguém no futebol. Pelo menos em Portugal.

Não sou apologista do que só o que é português é que é bom, mas também não sou defensor do proporcionalmente inverso. A qualidade deve prevalecer sempre, sem precisar de nascer dez vezes só porque a nossa mãe resolveu dar à luz em Portugal – e não na Argentina, França ou Sérvia.

Dói na alma ver que o Sporting, depois de perder Rojo e Dier, não tem um central que saiba construir e que Tobias Figueiredo continue a jogar pela equipa B – jogo atrás de jogo. E dói-me, porque Sarr e Paulo Oliveira (outro português) não só não são melhores como constituem um downgrade em relação ao jovem formado em Alcochete. Claro que, com jogos, Sarr pode evoluir e, imaginemos, tornar-se um caso surpreendente que o leve a ser considerado um dos melhores do Mundo na sua posição. Isso pode acontecer e aí ninguém vai lembrar-se de Paulo Oliveira, muito menos do puto da equipa B. Mas se essa oportunidade, a tal que faltou a Carlos Marques, fosse concedida a Tobias, quem pode garantir que não tínhamos, em breve, um forte concorrente à selecção nacional?

Gonçalo Guedes tem uma particularidade. É público que Jorge Jesus gostava de ter mais um elemento para o ataque, uma espécie de 9,5, alguém parecido com Rodrigo. Fala-se em Jonas, mas ninguém fala em Gonçalo Guedes. E o mais curioso, pelo menos para mim, é que quando vejo Gonçalo Guedes lembro-me de Markovic em quem o treinador do Benfica não teve problemas em apostar. Aquelas diagonais, da ala para o meio, e a maneira como finaliza são bastante idênticas às do sérvio que está agora no Liverpool. Pois, é isso mesmo. Markovic está e vai continuar a estar na Premier League, Gonçalo Guedes, como muitos dos jogadores formados no Benfica, arrisca-se a manter-se na II Liga, o seu palco actual ao serviço do Benfica B.

Sorte teve Rúben Neves.