Queiroz em entrevista: A toalha que valeu uma Champions

O GoalPoint aproveitou a presença da selecção do Irão em terras lusas para conversar com um dos treinadores portugueses que mais contacto teve, ao longo da carreira, com a evolução da análise de desempenho, Carlos Queiroz. Revelamos a primeira parte desta conversa, começando logo por uma história deliciosa que envolve um guarda-redes, uma toalha e uma Liga dos Campeões.

Carlos Queiroz surpreendeu-nos com uma história curiosa durante uma conversa sobre futebol e estatística (foto: J. Trindade)
Carlos Queiroz surpreendeu-nos com uma história curiosa durante uma conversa sobre futebol e estatística (foto: J. Trindade)

A selecção do Irão passou por terras lusas para trabalhar e o GoalPoint aproveitou para conversar com um dos treinadores portugueses que mais contacto teve, ao longo da carreira, com a evolução da análise de desempenho, Carlos Queiroz.

Não foi bem uma entrevista mas sim uma conversa, aquela que tivemos com Queiroz, aproveitando o estágio do Irão em Portugal. Uma troca de ideias entre pessoas que gostam de futebol, sobre futebol. Deixámos de parte os temas clássicos com que o ex-seleccionador português é frequentemente confrontado e centrámos o diálogo num que poucos treinadores portugueses poderão discutir com tanta propriedade e que quem nos lê já percebeu ser-nos muito caro: a análise do desempenho no futebol profissional. Foi uma conversa rica, na qual o experiente treinador se foi gradualmente entusiasmando, quiçá porque incidiu mais naquilo que o apaixonou no futebol do que nos temas que poderão ter, por vezes, provocado o seu desencanto.

Pelo caminho falámos dos primórdios da importância que hoje em dia o conhecimento detalhado do desempenho de equipas e jogadores tem (ou devia ter) no futebol profissional e no longo caminho que foi necessário percorrer até aos dias de hoje.

“Recordo-me de, há oito anos, necessitarmos de dois dias para analisarmos os dados de um jogo da Premier League disputado a um sábado, de modo a termos toda a informação disponível para o jogo da Liga dos Campeões, na terça seguinte”, afirma Queiroz, sem tirar os olhos do treino de uma selecção iraniana que ainda em Junho marcou presença no Brasil, no Estádio do Jamor. “Hoje em dia os meus colaboradores carregam num botão e disponibilizam toda a informação que necessitamos para tomar decisões para o treino seguinte. Os dados deste treino que estamos a realizar, por exemplo, estão a ser recolhidos e enviados para Buenos Aires via GPS. Esta noite já teremos toda a informação necessária para efectuarmos a nossa análise. Há oito anos isto seria impossível”.

A toalha de Van der Sar

Curiosamente foi no apontamento final da nossa conversa que surgiu a história mais curiosa revelada por Carlos Queiroz. Trocávamos impressões com o treinador português sobre o impacto da análise de desempenho noutras decisões, nomeadamente na (já aqui abordada) dispensa do central holandês Jaap Stam, por Alex Fergunson como um dos seus maiores erros, quando Carlos Queiroz nos ofereceu uma história curiosa. “Por falar em estatística vou-vos contar uma história que penso nunca ter sido contada. Em 2008, quando defrontámos o Chelsea na final (da Liga dos Campeões, em Moscovo), estudámos todos os penalties marcados pelos jogadores do Chelsea nos anos anteriores. Quando chegou a hora das grandes penalidades entreguei uma toalha de rosto ao Van der Sar. Nessa toalha estavam escritas as tendências de marcação dos prováveis marcadores do Chelsea… 75% no canto inferior direito 30% no canto superior esquerdo, etc. A cada penalty ele foi à toalha, mas a decisão de utilizar a informação foi sempre dele”. Queiroz ainda nos fez sorrir ao concluir, com humor: “se calhar se não tivéssemos ganho a final eu não contaria hoje esta história, mas a verdade é que a ganhámos”.

O desempate por grandes penalides que Van der Sar nunca esquecerá

A nossa conversa não podia ter terminado melhor. A história de uma toalha de rosto, provavelmente já desaparecida, como exemplo máximo de como a informação de desempenho pode ser decisiva num momento definidor de uma época. Um pormenor fantástico de uma conversa cujos detalhes continuaremos a partilhar nos próximos dias.