Queremos ser Allardyce ou Van Gaal?

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No dia 8 de Fevereiro, West Ham e Manchester United defrontaram-se em jogo da Premier League, em Londres, e empataram 1-1 – o golo dos “red devils” foi apontado já nos descontos. No final, o treinador dos “hammers”, Sam Allardyce, criticou o adversário, afirmando: “Não conseguimos lidar com o Long Ball United”, numa alusão a um hipotético estilo de jogo de pontapé para a frente dos comandados de Louis van Gaal.

O técnico holandês não se deixou ficar e respondeu à letra, recorrendo a números do jogo e da época para deixar Allardyce sem argumentos. “Quando se tem quase 60% de posse de bola, pensam que é possível fazê-lo com passes longos? Temos mais passes em largura do que para os avançados, estes sim são passes longos. Fiz uma interpretação dos dados. Jogámos em posse de bola e mudámos aos 70 minutos. Mas quando olhamos para o passe longo e sua percentagem, vemos que o West Ham fez 71% de passes longos para os avançados e nós apenas 49%. Os passes longos são os mais difíceis, e nós tivemos 60% de posse de bola, o que não bate certo.” Em traços gerais, e numa tradução rápida, foram estas as palavras de Van Gaal, que depois distribuiu os documentos com os números aos jornalistas (ver o vídeo abaixo).

Cada vez mais os treinadores de topo estão apetrechados com dados estatísticos detalhados sobre as suas próprias equipas ao longo das épocas, num determinado jogo, números específicos dos jogadores, movimentações, informação ao pormenor dos adversários que têm pela frente. Quem não utiliza estas ferramentas de trabalho está, mais cedo ou mais tarde, condenado ao insucesso, por maior que seja o dom e experiência que tenha no futebol, no treino, na leitura dos jogos, dos momentos, das estratégias, tácticas e qualidades dos jogadores.

Estamos numa espécie de transição longa, demorada, que está finalmente a criar alguns conflitos geracionais, entre os técnicos da “velha guarda” e os que agora surgem. Uma luta entre o saber de muitos anos a ver futebol, da intuição e astúcia que não nasce com todos, mas apenas com os predestinados, e o conhecimento adquirido por novas vias. Estes últimos têm o futuro à sua mercê, mesmo que não possuam o “dom”. Depois há os que o têm, os que sabem, e adaptam-se, unem o seu conhecimento intrínseco aos novos dados, que mostram o que por vezes está escondido. Esses são os treinadores de topo. Hoje em dia já nenhuma equipa de alta competição passa sem estatística de qualidade.

Esta guerra de argumentos entre Sam Allardyce e Van Gaal mostra esta dicotomia. Não acredito que o treinador do West Ham rejeite o uso dos dados estatísticos, mas como se costuma dizer, colocou-se a jeito e a interpretação de Van Gaal está correcta. Ou Allardyce interpretou mal as estatísticas da partida, ou ainda não interiorizou que, hoje em dia, a argumentação de algo pode cair no vazio sem uma sustentação factual dos acontecimentos. Os Allardyce do futebol vão perder muitas “batalhas” da sala de imprensa perante treinadores preparados, independentemente de serem bons ou maus.

O futebol moderno tornou-se num desafio cada vez mais exigente, não só para treinadores, mas também para observadores, scouters, analistas, jornalistas, e até adeptos. A Internet e as novas tecnologias disponibilizam informação que outrora não estava acessível, e mesmo os adeptos mais simples têm a possibilidade de olhar para estatísticas detalhadas e interpretar. É o que tentamos fazer no GoalPoint, um trabalho que não é fácil, mas é extremamente motivador e incide uma nova luz sobre diversos temas. Desafiamos os nossos leitores a fazerem o mesmo, e a serem mais Van Gaal do que Allardyce, independentemente das qualidades e defeitos de cada um dos técnicos.

Veja aqui o vídeo

P.S.: Entretanto, o The Guardian pegou neste assunto e chegou à mesma conclusão que nós, com auxílio da OPTA, também parceira do GoalPoint. Allardyce enganou-se redondamente. Confira aqui a explicação.

Pedro Tudela
Pedro Tudela
Profissional freelancer com 19 anos de carreira no jornalismo desportivo, colaborou, entre outros media nacionais, com A Bola e o UEFA.com.
GoalPoint

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